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segunda-feira, 1 de março de 2010

Como vi e senti Moçambique

Gouvêa Lemos passou uma temporada de quase 2 anos, entre 1955 e 1956, no Brasil. Veio aqui buscar um estágio no jornalismo brasileiro e o fez no jornal carioca "Tribuna" de Carlos Lacerda.
Escreveu uma bela crónica sobre os prazeres turísticos de Moçambique. Sem ter nela nenhum tom politico, critico, que lhe passou a marcar a sua personalidade jornlistica quando voltou a Moçambique, realça o Parque da Gorongosa.
Esta crónica foi editada em um jornal da comunidade portuguesa no Brasil, "Mundo Português".
Zé Paulo



Como vi e senti Moçambique

Por Antonio Gouvêa Lemos em 15/05/56


Portugal é tido no mundo inteiro, justamente, como um paraíso de turismo. E eu quero fazer notar que essa convicção cada vêz mais generalizada, como resultado brilhante de uma ótima e honesta propaganda não deve cingir-se a Portugal na Europa, mas pode estender-se a Portugal em África Oriental Portuguêsa que eu conheço melhor, visto que por lá estive quase 7 anos.

Os encontros naturais daquêle extenso e portentoso território são um vigoroso atrativo para quem quiser recrear os olhos, travar conhecimento com panoramas diferentes, com aspectos exóticos e grandiosos.

As características especiais do continente africano determinam um turismo "sui generis", que se não é rodeado das condições ótimas de comodidade e repouso encontradas na Europa é, contudo aliciante e surpreendente.

A ressaltar, neste fundo de paisagens e costumes estranhos, que se oferece para vibração do temperamento de quem pratica a viagem pela viagem, surge, como grande motivo de umas férias em Moçambique, o prazer forte, a sensação violenta da caça, que ali tem perfeito ambiente.

Não vou usar como argumento publicitário as fitas de Tarzan e outras africanices igualmente hollywoodescas, as quais felizmente não foram ali situadas. Não, amigos, não confundam a ginástica com a magnésia! Sómente informo que em Moçambique, no seu distrito de Manica e Sofala, existe a maior reserva de caça do mundo.

A Reserva de Caça de Gorongosa, a qual se chega em poucas horas, indo da Beira de automóvel e em menos de 1 hora indo de avião, é anualmente visitada por milhares de pessoas. Ali apreciam de perto e no seu "habitat" a riquíssima e espetacular fauna do continente negro, numa aliança de quantidade e variedade que atinge o máximo existente.

Mas, valentes caçadores ou candidatos, naquêles quilômetros quadrados, que o Governo demarcou em plena selva, não se dá um tiro. Conservam-se as espécies, não se dizimam. Passeia-se de automóvel pelas picadas, em companhia de guardas que nos guiam e nos infundem a necessária confiança com a sua calma e conhecimentos dos hábitos e modos peculiares das feras, previnem acidentes e evitam sustos.

Ali se pode gozar um excitante fim-de-semana em alojamentos cômodos (e seguros, senhores citadinos inveterados...). Não é impossível que o célebre e magestático silêncio da noite africana, venha a ser cortado por um ou outro urro do soberano leão, que terá como mais temível consequência, fazer sentar o turista na sua cama fôfa, de um só pulo. .. O jeito é deitar de novo e procurar dormir.

Mas, quanto à caça-desporto a que nos vínhamos referindo, a Reserva da Gorongosa foi citada como prova da abundância de matéria prima por aquelas paragens. E o resto é fácil. Qualquer agência de turismo, em Lourenço Marques ou na Beira, providenciará o resto: caçadores profissionais, armas, transportes, etc.

Quando, em Setembro do ano passado, de lá parti, tinham chegado recentemente aquele magnifico pedaço de Portugal ultramarino, dois moços brasileiros que lá foram demandar com alvorôço os caminhos dêsse turismo, que hoje, tão ligeiramente apontamos. Soube-o numa casa de artigos desportivos onde eles tinham ido por armas e munições.

A idêia, portanto, não é nova. Esperemos que ela se expanda e se torne moda. Há uma carreira marítima direta. Há muitas, marítimas, aéreas, indiretas. Há bons hotéis nas duas cidades principais ; há caminhos de ferro, há carreiras aéreas, cobrindo todo o território e táxis-aéreos que nos vão pousar nos lugares mais remotos. E há, sobretudo, um povo admirável e portuguesíssimo; hospitaleiro, franco e gentil para os que chegam.

E tôdas as possíveis deficiências serão sempre (foram sempre) compensadas com vantagem por tal gente.

 
*Foto do site My Gorongosa

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Canção de Angónia

Visto a camisa lavada
e vou para o contrato.
 
Quem de nós,
quem de nós irá voltar?
 
Vinte e quatro luas,
sem ver as mulheres,
sem ver a minha terra,
sem ver o meu boi.
 
Quem de nós,
Quem de nós irá morrer?
 
Visto a camisa lavada
e vou para o contrato,
trabalhar lá longe.
Vou para além da montanha,
para lá do mato,
onde some o rio.
 
Quem de nós,
Quem de nós irá voltar?
Quem de nós,
Quem de nós irá morrer?
 
Veste a camisa lavada,
é hora de ir ao contrato.
Entra, irmão, no vagão,
vamos andar noite e dia.
 
Quem de nós.
Quem de nós irá voltar?
Quem de nós,
quem de nós irá morrer?
 
Quem de nós,
Quem de nós irá voltar
e ver as mulheres,
e ver nossas terras
e ver nossos bois?
 
Quem de nós irá morrer?
Quem de nós?
Quem de nós?
 
 
*Poesia de Gouvêa Lemos, escrita na década de 60 de Moçambique colônia.

domingo, 17 de janeiro de 2010

UMA PONTE FEZ ACORDAR A ILHA DA TEIMOSIA

Por Gouvêa Lemos (em 1967)


Desejada há quatrocentos anos, a ponte nasceu tarde — é o que pensam na ilha de Moçambique, alguns dos seus mais lúcidos residentes. Já não é possível deter Nacala. Nacala é um porto propriamente dito, um milagre na costa oriental de África, será infalivelmente a porta do Norte — consideram eles, com algum desgosto. Mas não desistem, mesmo assim; agora, que a ponte existe e já funciona, defendem a idéia do porto de Moçambique e arrancam para uma campanha por uma nova ponte-cais. E se arrancam para uma campanha, aqueles homens da Ilha da Teimosia nunca mais param; teimarão nela, ainda que seja por mais quatrocentos anos — disse-me um deles, com a ironia duma certa descrença.

Pois a ponte, como era de prever, já modificou a vida na Ilha, já começou a influir na fisionomia da cidade, já alterou o seu ambiente repousado e tradicionalíssimo. Muitos são os que assistem ao fenômeno com júbilo desvanecido; outros, porém, enfrentam-no com melancolia, saudosamente.

O contra-senso do sonho

No sonho, ainda que feito realidade, o contra-senso persiste. Assim é que a ponte, inaugurada festivamente no mês passado, com grande multidão a assistir, vivas e discursos, os moleques das marmitas correndo, deslumbrados, com a fome dos patrões atrás dos cavalos nunca vistos que vieram do continente e muitos carros apitando pelas ruas seculares, já dá passagem a camiões que são vistos na carga e descarga desde a Fortaleza ao Crematório dos Baneanes, enquanto um espectacular Ford «Mustang» buzina pela rua dos Arcos, um carro de instrução com os seus dois volantes dá infindas voltas com alunas e alunos, pela Rua 28 de Maio, que vai dar à Rua da Liberdade, onde é a Cadeia, pelo largo de S. Paulo, onde está o palácio dos Capitães-Generais, pela praça Mouzinho de Albuquerque com seu coreto, ou, ainda, pela Ponta da Ilha, lá para o bairro do Areal, até ao Cemitério dos Cristãos. Enquanto isso e o buzinar ferve ecoando pelas ruelas e travessas e os carros pesados esboroam os passeios nas curvas impossíveis, enquanto isso tudo, a gente vai para a Ilha, chegada ao Lumbo de comboio ou de avião, tal qual ia dantes: de barco à vela, o que continua a ser a viagem mais bela que se faz em toda a costa moçambicana.
Logo na gare do caminho de ferro o «capitão» Ali carregou as nossas bagagens antes de lhe respondermos à pergunta «vai para a Ilha?». A caminho da praia formou-se a fila indiana dos seus passageiros, que ele ergueu em seus ombros, um a um, depondo-os cuidadosamente a bordo da lancha «Graças a Deus», que, graças a Deus, tinha uma grande vela não muito esfarrapada e fez uma boa travessia com vento de feição. Além dos repórteres, iam uma velha mulher de vestes garridas à moda da terra, feições nobres e ar respeitável que conversou suavemente com os tripulantes ao longo da hora e meia de navegação; outra mulher mais nova, com a sua filha, pequena e risonha; um rapaz alto, magro, negro retinto, de casaco de coiro e rádio portátil fazendo ouvir, todo o caminho, fados, anúncios, ié-ié, anúncios; além do «capitão» Ali, sentado à ré, com a vara do leme na mão esquerda, havia três marujos divagando sobre os malefícios da ponte.
O mar estava doce, de pequeninas ondas, azul e transparente. Era uma serena manhã e o barco embalava-nos enquanto ao longe se estendia, baixa e longuíssima, a ponte que assim estreávamos, alheia a remoques, indiferente aos barcos à vela, que aqui e além pintalgavam de branco a aguarela magnífica daquela travessia.

E agora, Sulemane?

Desembarcados na praia do Celeiro, ao lado da Mesquita Grande, logo pedimos um táxi; e logo nos acudiram os rique-xós, que ainda são os táxis da Ilha, embora correndo para o fim próximo. Angustiados, também, com a existência da ponte que lança os automóveis na Ilha, em catadupas, os moços dos riquexós não sabem ainda o que vão fazer quando esse transporte finalmente e naturalmente se for abandonando. Tilintando a sua campainha ou batendo a sua tábua, lá vai Sulemane com ligeireza rebocando o turista para a Pousada. Respeita os sinais de trânsito, recentemente colocados em profusão, sobretudo a indicar vias de sentido único e estacionamento proibido, pois um carro toma a rua toda.
Quando cruza com um automóvel, viatura rápida e buzinante — buzina-se muito, para aviso dos peões, ainda por habituar a tamanho tráfego —, Sulemane lança-lhe um olhar de ressentimento, enquanto vai arfando, compassadamente, o seu pequeno motor de 2 tempos, um breve ruído a erguer-se, ténue, sobre o silêncio das rodas de borracha na paz da Ilha. Despachado aquele fortuito freguês, Sulemane descansa o riquexó à sombra, junto dos outros, esperando horas a fio por um cliente nunca mais chegado.
Senta-se, limpa o suor da testa e os outros olham-no interrogativamente, expectantes, como se ele pudesse trazer boas novas dos lados da ponte. Os seus olhos perguntam: — E agora, Sulemane?

A ponte é nossa

Mas a ponte é um dogma. Indiscutível. Mais do que matéria de facto e de concreto, é matéria de fé. Os residentes vão fiscalizá-la, pessoalmente, caminhando até onde está a capela de S. Francisco Xavier e continua o banco de Mousinho sob a árvore enorme e velhíssima. Ali se liga a Ilha com o Sancul, a 5 quilómetros do Lumbo. Conversando com o guarda, à porta da sua guarita, os citadinos olham o fundo da ponte esperando os carros e alegrando-se quando os avistam. Colaboram na cobrança da portagem e dão explicações aos transeuntes. Um peão paga 1$00 por ida e volta; uma bicicleta, 2$00; uma motorizada, 3$00; uma moto, 5$00; um automóvel, 25$00; um autocarro, 60$00; um camião de carga, 100$00. Peso máximo, 10 toneladas. Todos acham bem, assim é que está certo, é para o progresso da Ilha, a ponte é nossa. Daqui para o futuro, tudo será possível, parece dizerem alguns dos indivíduos com quem se trocam impressões sobre a «ordem do dia».
- Agora precisamos dum cais acostável, ao menos para atracarem os navios costeiros — sugere um.
- Água, é o que precisamos de arranjar a seguir — opina outro.
-Corrente alterna, quanto antes — contrapõe um terceiro.
- Um bom hotel, urgentemente — pede alguém.
-O comércio reviverá e a Ilha voltará a dominar o distrito — há quem se atreva a profetizar, entre os elogios ao almirante Sarmento Rodrigues.
- Vamos desenvolver o turismo — é resolução unânime.
Uma coisa é certa: a ponte fez estremecer a velha Ilha de Moçambique e algo de novo e vivificante a acometeu. Naquela relíquia do passado somente se fala de futuro. A estridência dos claxons levanta a poeira de mais de quatrocentos anos na capela de Nossa Senhora do Baluarte, onde dormem navegantes e conquistadores da índia. A história da Ilha foi cortada ao meio por esta ponte.
 
 
Fonte da foto: Blog "Estrada Poeirenta"

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Tiros para o ar

Por Gouvêa Lemos -A TRIBUNA - 1963

Tenho uma idéia vaga de, em tempos da minha meninice, ter um vizinho de quinta amedrontado e maníaco, que se assustava muito com muito luar. Por isso, em noites claras de Janeiro ou de Agosto e até de outros meses, o senhor ia ao muro do fundo que dava para a estrada e de lá punha-se aos tiros para o ar com uma caçadeira que ele tinha.
Quando o interrogavam sobre aquelas batalhas a solo, o sr. José - chamemos-lhe Sr. José - explicava que era contra os inimigos que disparava, em noites de lua cheia, ou lua nova ou mesmo com um quartozinho crescente. Quer dizer, muita lua e o Sr. José, pum, pum, pum, desatava aos tiros para o ar - contra os inimigos.
O que tinha graça nisso era que ninguém conhecia inimigos do Sr. José que nem era mau homem, era só maníaco e amedrontado, assim um pouco palerma; não se sabia portantode quem eram inimigos os inimigos que o afligiam, coitado do Sr. José.
Ora eu tenho reparado que ultimamente aparecem muitos artigos em alguns jornais, escritos por uns senhores que me lembram o Sr. José, lá nos tempos da minha meninice, por acaso na Beira Alta. Não sei se é de haver lua - há lua? - ou lá porque é, sei só que nesses artigos muito vagos, nada objectivos embora conceituosissimos, se fazem acusações gravesde grandes e pavorosos pecados (que devem ser mas não se sabe quais) contra pessoas muito incógnitas, muito anônimas, se calhar nem existentes.
Mas a xingação é brava e contundente. Fala-se de traidores, tipos que são contra, vendidods, perigosos inimigos como o Sr. José dizia), mas ninguém sabe nem percebe a quem é que os tais traíram ou vão ou estão a trair, quem foi que os comprou ou vai ou está a comprar e, finalmente, de quem ou de quê eles são inimigos, a quem ou a quê eles oferecem perigos. É um raio duma confusão!...
Se isto me aflige um pouco não é por mim, que passo adiante e leio tantas outras coisas que devo ler e não me importo: mas, como sou dos jornais e me preocupo com estes negócios de Imprensa, acho que o tal fenômeno começa a tomar forma de hábito com tendência endêmica, o que produzirá certamente larga desorganização na opinião pública, gerando-se um clima de desassossego altamente nocivo ao menos para quem precisa de dormir: qualquer dia desata tudo a comprar caçadeiras e a dar tiros de noite, "contra os inimigos". Não está certo.
Por isso eu peço aos camaradas mais useiros nesses sustos de noites de luar, que deixem disso, não tenham medo e falem claro. Ó senhores, devemos falar claro, pôr os pontinhos nos ii, as carapuças nas cabeças, apontar cada um a sua caçadeira para cada rés, desde que seja caso de tiroteio. Mas não assustem ninguém, pelo menos as crianças que, ao fim e ao cabo, ainda são as que têm mais receio dessas coisas...
Há tempos até li um artigo enorme, bem destacado, com um grande título, muito bem composto, sem gralhas nem nada e não consegui perceber nicles. Reli, ainda, quase até meio; e nada. Mas como era colérico! Como estava ofensivo! Severo e iracundo, prevenia-nos contra temerosos males e denunciava autênticas feras humanas, postas de tocaia contra nós todos, os homens bons (eu, também, não me considero mau homem). Mas afinal, o pobre do artiguinho resultava inútil, porque ninguém nos dizia contra quem era aquela cólera, quem seriam os ofendidos, que males nos ameaçavam e onde estavam as feras. Nem sequer explicava se estas eram mamíferos ou aves ou qualquer desses bichos que há na zoologia. Apre! Isso não deve ser jornalismo.
Aliás, eu tenho para mim, que até do ponto de vista lá das manias deles, isso não deve resultar. Quer dizer, nem mesmo para efeitos de denúncia à Policia ou assim, não é? A não ser que haja qualquer código que agente não sabe. Um código só para os homens bons... Mas então eu quero saber!
Não, não deve ser isso. São mas é como o Sr. José, que era palerma e em noites de luar, lá na quinta, punha-se a dar tiros com uma caçadeira. Para o ar. Contra os inimigos.


terça-feira, 29 de dezembro de 2009

CARTA DO BRASIL

 Por Gouvêa Lemos em 7-1-1963 - A TRIBUNA (Moçambique)

O leitor não tem nada com isso - a minha vida particular não lhe interessa - , mas eu vivi no Brasil. Sim, vivi lá, tenho lá família, tenho lá amigos e bastos motivos de saudade, tenho duas filhas brasileiras e tanto me interesso pela vida do Brasil que até lá andei metido em políticas. Políticas brasileiras, claro. E de tal maneira que, lá, eu até era da oposição e ninguém via mal nenhum nisso.
Explicando melhor : apesar de não ser brasileiro, achavam os brasileiros das minhas relações que, só porque eu vivia no Brasil, ali produzia algo, ali contribuia de qualquer humilíssima forma, para o progresso do Brasil, nem que fosse únicamente pagando imposto, achavam eles que eu tinha o direito de fazer críticas à administração, de discordar do Governo, de ter, em suma, opiniões políticas.

Os brasileiros são muito giros...
O que é certo é que eu usava esse direito, com uma descontracção explicável sómente pela força aliciante de tamanha liberdade, pelo entusiasmo decorrente de tanta compreensão.
Assisti à eleição do Presidente Juscelino, lá permaneci durante o Governo do Presidente Juscelino - eu era contra o Presidente Juscelino. Tão contra como os que iam aos mesmos comícios que eu procurava, da Praça do Congresso a Caxias do Deputado Tenório. Eu era contra, mas como estimo hoje o Presidente Juscelino, de tanto poder ser contra ele!
Vem tudo isto a propósito das cartas que recebo do Brasil, da minha mãe e dos meus irmãos, pondo-me às vezes em dificuldades para lhes responder, tal a confusão que lhes lavra no espírito sobre certas coisas que, à distância, são inexplicáveis (para me livrar de trabalhos, já tenho respondido que não posso responder) e nas quais me são contadas todas as dificuldades, todos os problemas, todas as tarefas que a família enfrenta, que a vida lhes opões, a par das pequenas alegrias e tristezas vulgares que são tema das cartas familiares. E tudo isto é mesclado, sempre, de comentários, de notícias, de esclarecimentos, de muitas espinafrações à política, ao Governo, de queixas contra os governadores de Estados, contra os ministros, contra o Presidente da República (a minha mãe não gosta do Jango Goulart), a propósito do custo de vida, a propósito do preço do gado, a propósito de tudo e de nada. Que beleza!
Aqui há tempos, mandei dizer a um irmão meu, preocupado com coisas que não lhe esclarecera devidamente em cartas anteriores, que já tinha percebido o seu grande amor pelo Brasil, a sua perfeita adaptação ao grande país, à maneira de ser do magnifico povo, pelo seu tom severo e exigente de referir-se às coisas públicas do Brasil. "Estás bom, meu irmão. Estás maduro. Deus te salve e ao teu Brasil".
A minha Mãe, que quando as vacas se vendem mal, ou não chove para os lados do Rio Pardo, no interior da Baia, se dá a excessos de pessimismo, escrevia-me há dias: "Não sei onde isto vai parar, mas tenho muita fé".

Gostei e vou responder-lhe:

"Tenha fé, senhora mãe. Tenha fé que onde vai o Brasil parar é muito longe e muito alto. Continue a mandar-me dizer mal do Jango e a aspirar por um presidente inteiramente "udenista", um Juarez, um senhor muito fino e respeitável das direitas. Continue a escrever-me sem medo do que pensa, e diga aos manos que também, que discordem, que falem, que se preocupem. Vivam cada minuto brasileiro com esse entusiasmo, com essa unção, compenetrados de que tudo é, ao fim ao cabo, negócios de família. E mandem-me dizer, oh! mandem-me dizer sempre, que me sabe muito bem ler isso que pensam e com o que , aliás, eu nem concordo. Mas digam, digam, livremente o que lhes parece dessa terra que é sua, minha mãe, e vossa, meus irmãos, e dessa gente admirável que afinal vós sois também."
"Escrevi toda a casta de espinafração contra o que não vos quadra ao parecer que tendes e á opinião que defendeis. Escrevi, que eu irei respondendo, assim sem jeito, atabalhoadamente, que não sei responder."
As cartas do Brasil, leitor, fazem-me reconstituir o espírito; dão-me saúde. Não só porque mato saudades da família - ou as exacerbo, o que vem a dar no mesmo - como renovam a fé que tenho no Brasil. Que tenho no futuro, vivendo em Moçambique e recebendo cartas da família.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Natal

Por Gouvêa Lemos, em  1957
Coluna Mesa Redonda

Para lá e para cá da Cortina de Ferro, o dia 25 de Dezembro é o Dia de Natal.
Até o roliço e reinado Nikita, com o ar de camponês abastado e contador de anedotas, há-de beber alegremente um bom vodka e renovará os votos habituais de paz e desarmamento, à mistura com umas graças pesadas sobre os países capitalistas. As agências ocidentais noticiarão, mais tarde, que certos círculos chegados ao Kremlim insinuaram que o sr. Kruschev estava etilisado. Serão, de certo, os mesmos círculos que, depois da morte de Staline, anunciaram ter sido constatado um endurecimento muscular do seu coração e daí tirarem definitivas conclusões morais...
O simpático Eisenhower, com o aspecto feliz de quem chegou das manobras e despiu a farda, há-de ser fotografado para o Mundo inteiro, com os netos nos joelhos, com a Mamie à sua direita, o filho e a nora, sorridentes, atrás. Tudo à sua volta, verificando a Humanidade, embevecida, que assim vive o chefe de uma grande nação democrática.

E enquanto os chefes de governo europeus, que participaram da última conferência da NATO, hão-de celebrar com as suas ilustres famílias a vitória colectiva, que se diz terem alcançado - não contra o inimigo e sim contra o aliado, o que se torna um pouco difícil de entender -, o que se celebra, na verdade, é, simplesmente, o nascimento de um Homem pobre mas estranho. Tão estranho, que era Deus.
E há-de haver um momento - tem de haver - em que todos esses personagens importantes ficarão a sós com os seus pensamentos, se alhearão de tudo o que se passar à sua volta e hão-de meditar um pouco sobre o dia que vivemos.
O depurador Kruschev pensará como é vária e inconstante a existência, de tal modo que aquele que hoje depura, será depurado amanhã. Que isso, ao menos resulte numa folga para Zhukov e para os peritos encarregados de lhe lavar o cérebro. E Eisenhower, tal como os seus colegas ocidentais, vacilarão uns segundos nas suas certezas. Hão-de suspeitar ou acreditarão mesmo, no íntimo, que a palavra Paz tem sido usada em vão e em mentira.
Todos eles - os grandes chefes - devem sentir, de súbito, vergá-los o peso brutal da responsabilidade por este mundo eriçado de projécteis balísticos, entumescido por bombas nucleares, ensombrado por bombardeiros e caças.
Todos se hão-de lembrar, para lá e para cá da Cortina de Ferro, que o dia 25 de Dezembro é o Dia de Natal. O dia em que chegou à Terra o Mensageiro autêntico da única Paz.


[Notícias da Tarde, Lourenço Marques, ano VI, nº 1702, 23 de Dezembro de 1957, p. 1]

 Figura: Roubado do blog Moda ao Cubo.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O CARNAVAL - 1958

Hoje, 18 de Dezembro de 2009, o Pai faria 85 anos. Como tenho tido dificuldade de escrever -  Freud talvez explicasse - sobre e para ele neste blog criado para o homenagear, vou mais uma vez no meu ritmo de aqui colocar o que é o maior foco deste espaço; o de dar a conhecer o que um homem pensava e como jornalista escrevia em outros tempos, décadas e ditaduras.
No seu aniversário de 1957, a 18 de Dezembro, GL escreveu sobre o carnaval carioca. Um carnaval que se de 1957 para cá mudou muito, onde grandes interesses financeiros tiraram muito da sua pureza, na sua essência não mudou tanto de como GL tentou o descrever.

Zé Paulo



O CARNAVAL - 1958
Por Gouvêa Lemos  - Coluna Mesa Redonda

Fala-se já em Carnaval e projecta-se um renascimento dessa pândega anual, em Lourenço Marques. Muita gente deve achar cedo para se falar de Carnaval, mas eu lembro-me agora de que, nesta altura, no Rio de Janeiro se conhecem os êxitos musicais do próximo Carnaval carioca. Já os compositores se afobam e os poetas se afadigam, lançando no mercado os sambas que hão-de marcar os bamboleios dos blocos e cordões de sábado a quarta-feira de cinzas. Já as escolas de samba, de Cascadura á Praia do Pinto, ensaiam e capricham nos coros, nos trajes e nas evoluções dos passistas. Já seu Ataúlfo e as suas pastoras gravaram um samba de morro, dos autênticos, do estilo - Amélia é que era muié di vêrdadje. E a onda dos plagiadores já foi buscar a inspiração aos clássicos do samba. E já se canta o que há-de fazer rêbolá e se esbaldá - todo o mundo - nas ruas.
Não serão as composições de melhor melodia e de versos mais bonitos as que se hão-de sagrar vencedoras nas preferências da multidão, comprimida, farrapeira embriagada e enfurecida pela febre de se divertir, mas submetida ao ritmo dominador, contínuo, uniforme - que se entranha nos corpos e parece estar até na atmosfera - o ritmo do samba.
Vencerão aquelas que têm sabor de Carnaval. As que fazem gingar os quadris, abanar os troncos, descair as cabeças para trás e arrastar os pés, a compasso.
Sabem como é? Se não viram, não sabem e eu também não sei explicar - como ninguém soube, até hoje.

[Notícias da Tarde, Lourenço Marques, ano VI, nº. 1698, 18 de Dezembro de 1957.]

Foto: Da esquerda para a direita, cantores Blecaute, Eloína, Orlando Silva  com Wilza Carla que foi eleita por voto popular a Rainha do Carnaval de 1958. Fonte: Blog PandiniGP