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sábado, 1 de maio de 2010

“Dignidade no Trabalho”

Em homenagem ao Dia do Trabalhador transcrevo aqui uma crônica do Gouvêa Lemos de 1963 no ambiente de um Moçambique colônia onde, naquele período, atingiu um dos picos da hipocresia deste sistema colonialista pilotado por uma ditadura fascista.
Felizmente já haviam pessoas como Gouvêa Lemos que percebiam como o sistema funcionava, mas infelizmente eram ainda poucas. Ainda que nem todas, como Gouvêa Lemos, não fossem vozes carimbadas pelas "frelimos" principalmente de hoje.
A foto que coloco aqui para ilustrar parte dessa hipocresia é do grande fotógrafo Ricardo Rangel.

Zé Paulo


“Dignidade no Trabalho”
[Coluna “Teclado Universal” de Gouvêa Lemos – Jornal Tribuna – 1963]

A dignificação do trabalho é uma bela meta. Aliás antiga. Trata-se de expressão que faz voga e continua a brilhar em discursos de circunstância, especialmente em festas de confraternização de patrões com o seu pessoal. Trabalhai que é bonito, dizem os patrões.
É digno, diz o capital. Seja como for, já hoje ninguém duvida de que ao trabalho deve a humanidade a caminhada cumprida, e no trabalho busca a humanidade redimir-se. No trabalho físico, no trabalho do espírito.
Assim, à primeira vista, qualquer campanha desenvolvendo-se onde quer que seja, no sentido de encaminhar ao trabalho quantos não trabalham, é coisa elogiàvel; resta saber se será eficiente em quaisquer circunstâncias. Se não será demasiado empírico o simples convite: Meu filho, trabalha que trabalhar é bonito. Se, de facto, ao contrário do que se deseja, não está a agudizar-se uma fome, em vez de satisfazer-se uma necessidade. Interessa interrogarem-se os promotores de propaganda psicológica a favor do trabalho, se deve enfrentar-se uma discutível propensão para a indolência de qualquer agrupamento humano, ou uma bem palpável ausência de oportunidades verificada em determinada zona geográfica, para os seus habitantes se realizarem no trabalho.
Claro que seria errado partir-se do pressuposto de que um grupo étnico tivesse qualidades intrínsecas, de natureza rácica, contrárias à necessidade humana do trabalho e que fosse, em consequência, necessário assentarem-se as baterias duma campanha contra o fatalismo de tais características. Claro que seria errado ignorarem-se todas as verdadeiras razões que mantém milhares ou milhões de seres afastados do trabalho regular e justamente remunerado, razões de ordem económica e social.
No caso concreto da anunciada acção psicossocial para dignificação do trabalho, com cartazes a tudo, oferece-se como questão fundamental, antes de mais nada, esta pergunta: em quê, onde vão eles trabalhar?
A profunda remodelação dum território como Moçambique, em estado de subdesenvolvimento, a revolução económico-social dum país, como a que se dá mostras de pretender-se, não pode operar-se por parcelas, desencontradamente, atacando-se consequências em vez de eliminarem causas, procurando-se coçar a comichão, em vez de tratar a sarna.
É preciso não desconhecer a crise de desemprego que é notória, entre os africanos, mesmo em aglomerados populacionais como Lourenço Marques, oferecendo maiores possibilidades de trabalho. Assim, chega a tomar aspectos – como direi? – cínicos, aconselhar o trabalho a quem procura, aflitivamente, trabalho.
E quanto a Moçambique inteiro – o que se impõe, o que é urgente? – o seu rápido desenvolvimento económico, a sua ocupação agrícola, a sua industrialização, criando-se assim uma larga e permanente absorção de mão-de-obra, com pagamento certo e suficiente, para a dignificação do trabalho. E os trabalhadores surgirão, aos milhões, em busca de elevação do seu nível de vida, em procura de “dignificação” da pessoa humana, faltando só à chamada natural os indolentes de sempre e de toda a parte, na Europa, na Ásia, na África, na América e na Oceânia.
Cria-se o clima, proporcione-se o ambiente, fabriquem-se condições autênticas, que o resto virá por acréscimo.
De maneira que, pode afirmar-se, mais uma vez, o que é preciso é o progresso que tarda, para em todos os sectores da vida humana de Moçambique, se realizar o milagre que esperamos. Sem cartazes.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

GOUVÊA LEMOS - Por Eugénio Lisboa

Os jornais noticiaram abundantemente a morte do jornalista Gouvêa Lemos. Que um homem tão pouco acomodatício tenha despertado uma tal unanimidade de tom nas notícias publicadas nos jornais das mais diversas orientações - eis, desde logo, uma indicação: Gouvêa Lemos era respeitado mesmo pelos que dele discordavam. Digamos que havia nele um não sei quê que desde logo se impunha. Talvez a sua bondade. Talvez a sua afabilidade. Talvez, sobretudo, o saber-se que era um dos raros homens que estava disposto a pagar com a própria vida o preço das suas convicções mais profundas.
Várias vezes o vi em sérias dificuldades - e estou talvez a dizer pouco: alguma vez o terei visto à beira da rotura total. Nunca notei, nesses momentos, que mostrasse, fosse como fosse, que o desespero o devorava.
Ficava-se amigo dele com facilidade - e ficava-se para o resto da vida.
Como jornalista, era muito mais do que um profissional sério e cheio de vivacidade. Tinha um estilo próprio. Qualquer texto seu, além de ser um modelo de literatura jornalística, era também um texto literariamente muito pessoal. Gouvêa Lemos escrevia bem, tinha o gosto da palavra única, aquela que, inesperadamente, entra em ressonância com a ideia que se quer percutir. Era um escritor genuíno.
A sua malícia estilística escondia um pouco o homem. Quem o lesse não deduziria dos textos o personagem que depois emergia. Estes eram por vezes mordazes, contundentes, aqui e acolá, méchants. Faltava, a temperá-los, o sorriso bonacheirão, a suavidade da voz e a doçura do olhar. De resto, falava como escrevia, mas, falado, deixava uma impressão diferente e mais suavizada.
Era sobretudo um homem de coragem, no plano profissional e no plano privado. Amava a profissão de cujos privilégios e autonomia era intransigentemente cioso. Tinha o brio próprio do técnico competente e odiava por isso a intromissão atrevida e volátil das aves de arribação.
Suponho que sabia exactamente o estado precário da sua saúde. No entanto, sempre que discretamente o sondávamos, mostrava-se animoso e cheio de planos. Creio que se tratava mais de sossegar-nos a nós do que de sossegar-se a si próprio. Era corajoso mas, com a sua peculiaríssima tolerância, não via razão para que os outros o fossem também. Por isso nos aquietava.
Partiu para o Brasil e não voltou. Dizem-me que nos últimos dias, já depois de operado, quando se lembrava disto, da terra e das pessoas, chorava. A chorá-lo, pela perda irreparável que a sua partida representa, ficamos nós. Parece que as pessoas como Gouvêa Lemos se demoram pouco neste mundo que é o nosso. Fulgem, - e desaparecem. No entanto, como observava um personagem de José Régio, 'este mundo ficaria mais pequeno se eles não passasem por cá'.

[In: A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano XIII, nº. 363, de 9 de Abril de 1972, p. 2]

sábado, 3 de abril de 2010

38 anos sem o Pai e jornalista Gouvêa Lemos

Há 38 anos, a 02 de Abril de 1972, em um Domingo de Páscoa, falecia Gouvêa Lemos aos 47 anos de idade.
Estávamos, eu e mais 3 irmãos, nas areias da praia de Ipanema no Rio de Janeiro junto a uns tios e amigos destes. Todos na expectativa do Almoço de Páscoa que iria acontecer em nossa casa, cuidadosamente e carinhosamente feito pela Madalena, onde a família iria festejar a Páscoa mas mais ainda o restabelecimento do pós operatório do mais velho dos Gouvêa Lemos.
Lá em cima, no Bar do Castelinho onde antes ele gostava de tomar o seu choop, estava na companhia da sua sempre companheira Madalena e de um dos filhos, o António Maria, e ainda com o proprietário do Castelinho com quem batia sempre um bom papo.
A certa altura, lá da praia, ouvimos da marginal uma freada de carro, uma buzinada. Em segundos, ao vermos que chegava em correria à nossa barraca o Tó Maria, deduzimos que a freada e a buzinada tinham sido causadas pela sua louca e apressada travessia da marginal da praia para logo nos alcançar e nos dizer:
- O pai desmaiou!
O Pai, quando levava um copo de suco de laranja à boca, deixou-o cair e tombou para nunca mais acordar do “desmaio”.
Ali, aos meus 11 anos de idade, perdi a oportunidade de conviver com ele com uma maturidade onde poderia ter aproveitado melhor os seus ensinamentos. Ali os meus irmãos mais velhos, mas não tanto, também perderam o seu herói. A sua companheira, Madalena, assumiu de imediato esse posto, Mãe e Pai.
Mas se nós perdemos, sei também que Moçambique perdeu definitivamente naquele Domingo de Páscoa o jornalista e Homem que ainda tanto teria para doar aquela terra que ele passou a amar quando emigrou de Portugal.
Se Gouvêa Lemos mostrava ter desistido de Moçambique colônia naquele inicio de 1972, quando o deixou para vir para o Brasil, tenho hoje eu a certeza que se não tivesse falecido tão precocemente não demoraria a retornar.
Mas se por muitos anos, depois da ida dele, fui ainda educado pelo meu Pai através dos seus amigos e pela minha Mãe quando me faziam o conhecer pelo o que eles o conheceram, sem medo de errar e fugindo de qualquer aparente prepotência, sei também que o jornalista Gouvêa Lemos deixou legado para o jornalismo, e não só, de Moçambique.

* O retrato do Pai é do pintor e poeta luso-angolano Neves e Sousa.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Como vi e senti Moçambique

Gouvêa Lemos passou uma temporada de quase 2 anos, entre 1955 e 1956, no Brasil. Veio aqui buscar um estágio no jornalismo brasileiro e o fez no jornal carioca "Tribuna" de Carlos Lacerda.
Escreveu uma bela crónica sobre os prazeres turísticos de Moçambique. Sem ter nela nenhum tom politico, critico, que lhe passou a marcar a sua personalidade jornlistica quando voltou a Moçambique, realça o Parque da Gorongosa.
Esta crónica foi editada em um jornal da comunidade portuguesa no Brasil, "Mundo Português".
Zé Paulo



Como vi e senti Moçambique

Por Antonio Gouvêa Lemos em 15/05/56


Portugal é tido no mundo inteiro, justamente, como um paraíso de turismo. E eu quero fazer notar que essa convicção cada vêz mais generalizada, como resultado brilhante de uma ótima e honesta propaganda não deve cingir-se a Portugal na Europa, mas pode estender-se a Portugal em África Oriental Portuguêsa que eu conheço melhor, visto que por lá estive quase 7 anos.

Os encontros naturais daquêle extenso e portentoso território são um vigoroso atrativo para quem quiser recrear os olhos, travar conhecimento com panoramas diferentes, com aspectos exóticos e grandiosos.

As características especiais do continente africano determinam um turismo "sui generis", que se não é rodeado das condições ótimas de comodidade e repouso encontradas na Europa é, contudo aliciante e surpreendente.

A ressaltar, neste fundo de paisagens e costumes estranhos, que se oferece para vibração do temperamento de quem pratica a viagem pela viagem, surge, como grande motivo de umas férias em Moçambique, o prazer forte, a sensação violenta da caça, que ali tem perfeito ambiente.

Não vou usar como argumento publicitário as fitas de Tarzan e outras africanices igualmente hollywoodescas, as quais felizmente não foram ali situadas. Não, amigos, não confundam a ginástica com a magnésia! Sómente informo que em Moçambique, no seu distrito de Manica e Sofala, existe a maior reserva de caça do mundo.

A Reserva de Caça de Gorongosa, a qual se chega em poucas horas, indo da Beira de automóvel e em menos de 1 hora indo de avião, é anualmente visitada por milhares de pessoas. Ali apreciam de perto e no seu "habitat" a riquíssima e espetacular fauna do continente negro, numa aliança de quantidade e variedade que atinge o máximo existente.

Mas, valentes caçadores ou candidatos, naquêles quilômetros quadrados, que o Governo demarcou em plena selva, não se dá um tiro. Conservam-se as espécies, não se dizimam. Passeia-se de automóvel pelas picadas, em companhia de guardas que nos guiam e nos infundem a necessária confiança com a sua calma e conhecimentos dos hábitos e modos peculiares das feras, previnem acidentes e evitam sustos.

Ali se pode gozar um excitante fim-de-semana em alojamentos cômodos (e seguros, senhores citadinos inveterados...). Não é impossível que o célebre e magestático silêncio da noite africana, venha a ser cortado por um ou outro urro do soberano leão, que terá como mais temível consequência, fazer sentar o turista na sua cama fôfa, de um só pulo. .. O jeito é deitar de novo e procurar dormir.

Mas, quanto à caça-desporto a que nos vínhamos referindo, a Reserva da Gorongosa foi citada como prova da abundância de matéria prima por aquelas paragens. E o resto é fácil. Qualquer agência de turismo, em Lourenço Marques ou na Beira, providenciará o resto: caçadores profissionais, armas, transportes, etc.

Quando, em Setembro do ano passado, de lá parti, tinham chegado recentemente aquele magnifico pedaço de Portugal ultramarino, dois moços brasileiros que lá foram demandar com alvorôço os caminhos dêsse turismo, que hoje, tão ligeiramente apontamos. Soube-o numa casa de artigos desportivos onde eles tinham ido por armas e munições.

A idêia, portanto, não é nova. Esperemos que ela se expanda e se torne moda. Há uma carreira marítima direta. Há muitas, marítimas, aéreas, indiretas. Há bons hotéis nas duas cidades principais ; há caminhos de ferro, há carreiras aéreas, cobrindo todo o território e táxis-aéreos que nos vão pousar nos lugares mais remotos. E há, sobretudo, um povo admirável e portuguesíssimo; hospitaleiro, franco e gentil para os que chegam.

E tôdas as possíveis deficiências serão sempre (foram sempre) compensadas com vantagem por tal gente.

 
*Foto do site My Gorongosa

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Canção de Angónia

Visto a camisa lavada
e vou para o contrato.
 
Quem de nós,
quem de nós irá voltar?
 
Vinte e quatro luas,
sem ver as mulheres,
sem ver a minha terra,
sem ver o meu boi.
 
Quem de nós,
Quem de nós irá morrer?
 
Visto a camisa lavada
e vou para o contrato,
trabalhar lá longe.
Vou para além da montanha,
para lá do mato,
onde some o rio.
 
Quem de nós,
Quem de nós irá voltar?
Quem de nós,
Quem de nós irá morrer?
 
Veste a camisa lavada,
é hora de ir ao contrato.
Entra, irmão, no vagão,
vamos andar noite e dia.
 
Quem de nós.
Quem de nós irá voltar?
Quem de nós,
quem de nós irá morrer?
 
Quem de nós,
Quem de nós irá voltar
e ver as mulheres,
e ver nossas terras
e ver nossos bois?
 
Quem de nós irá morrer?
Quem de nós?
Quem de nós?
 
 
*Poesia de Gouvêa Lemos, escrita na década de 60 de Moçambique colônia.

domingo, 17 de janeiro de 2010

UMA PONTE FEZ ACORDAR A ILHA DA TEIMOSIA

Por Gouvêa Lemos (em 1967)


Desejada há quatrocentos anos, a ponte nasceu tarde — é o que pensam na ilha de Moçambique, alguns dos seus mais lúcidos residentes. Já não é possível deter Nacala. Nacala é um porto propriamente dito, um milagre na costa oriental de África, será infalivelmente a porta do Norte — consideram eles, com algum desgosto. Mas não desistem, mesmo assim; agora, que a ponte existe e já funciona, defendem a idéia do porto de Moçambique e arrancam para uma campanha por uma nova ponte-cais. E se arrancam para uma campanha, aqueles homens da Ilha da Teimosia nunca mais param; teimarão nela, ainda que seja por mais quatrocentos anos — disse-me um deles, com a ironia duma certa descrença.

Pois a ponte, como era de prever, já modificou a vida na Ilha, já começou a influir na fisionomia da cidade, já alterou o seu ambiente repousado e tradicionalíssimo. Muitos são os que assistem ao fenômeno com júbilo desvanecido; outros, porém, enfrentam-no com melancolia, saudosamente.

O contra-senso do sonho

No sonho, ainda que feito realidade, o contra-senso persiste. Assim é que a ponte, inaugurada festivamente no mês passado, com grande multidão a assistir, vivas e discursos, os moleques das marmitas correndo, deslumbrados, com a fome dos patrões atrás dos cavalos nunca vistos que vieram do continente e muitos carros apitando pelas ruas seculares, já dá passagem a camiões que são vistos na carga e descarga desde a Fortaleza ao Crematório dos Baneanes, enquanto um espectacular Ford «Mustang» buzina pela rua dos Arcos, um carro de instrução com os seus dois volantes dá infindas voltas com alunas e alunos, pela Rua 28 de Maio, que vai dar à Rua da Liberdade, onde é a Cadeia, pelo largo de S. Paulo, onde está o palácio dos Capitães-Generais, pela praça Mouzinho de Albuquerque com seu coreto, ou, ainda, pela Ponta da Ilha, lá para o bairro do Areal, até ao Cemitério dos Cristãos. Enquanto isso e o buzinar ferve ecoando pelas ruelas e travessas e os carros pesados esboroam os passeios nas curvas impossíveis, enquanto isso tudo, a gente vai para a Ilha, chegada ao Lumbo de comboio ou de avião, tal qual ia dantes: de barco à vela, o que continua a ser a viagem mais bela que se faz em toda a costa moçambicana.
Logo na gare do caminho de ferro o «capitão» Ali carregou as nossas bagagens antes de lhe respondermos à pergunta «vai para a Ilha?». A caminho da praia formou-se a fila indiana dos seus passageiros, que ele ergueu em seus ombros, um a um, depondo-os cuidadosamente a bordo da lancha «Graças a Deus», que, graças a Deus, tinha uma grande vela não muito esfarrapada e fez uma boa travessia com vento de feição. Além dos repórteres, iam uma velha mulher de vestes garridas à moda da terra, feições nobres e ar respeitável que conversou suavemente com os tripulantes ao longo da hora e meia de navegação; outra mulher mais nova, com a sua filha, pequena e risonha; um rapaz alto, magro, negro retinto, de casaco de coiro e rádio portátil fazendo ouvir, todo o caminho, fados, anúncios, ié-ié, anúncios; além do «capitão» Ali, sentado à ré, com a vara do leme na mão esquerda, havia três marujos divagando sobre os malefícios da ponte.
O mar estava doce, de pequeninas ondas, azul e transparente. Era uma serena manhã e o barco embalava-nos enquanto ao longe se estendia, baixa e longuíssima, a ponte que assim estreávamos, alheia a remoques, indiferente aos barcos à vela, que aqui e além pintalgavam de branco a aguarela magnífica daquela travessia.

E agora, Sulemane?

Desembarcados na praia do Celeiro, ao lado da Mesquita Grande, logo pedimos um táxi; e logo nos acudiram os rique-xós, que ainda são os táxis da Ilha, embora correndo para o fim próximo. Angustiados, também, com a existência da ponte que lança os automóveis na Ilha, em catadupas, os moços dos riquexós não sabem ainda o que vão fazer quando esse transporte finalmente e naturalmente se for abandonando. Tilintando a sua campainha ou batendo a sua tábua, lá vai Sulemane com ligeireza rebocando o turista para a Pousada. Respeita os sinais de trânsito, recentemente colocados em profusão, sobretudo a indicar vias de sentido único e estacionamento proibido, pois um carro toma a rua toda.
Quando cruza com um automóvel, viatura rápida e buzinante — buzina-se muito, para aviso dos peões, ainda por habituar a tamanho tráfego —, Sulemane lança-lhe um olhar de ressentimento, enquanto vai arfando, compassadamente, o seu pequeno motor de 2 tempos, um breve ruído a erguer-se, ténue, sobre o silêncio das rodas de borracha na paz da Ilha. Despachado aquele fortuito freguês, Sulemane descansa o riquexó à sombra, junto dos outros, esperando horas a fio por um cliente nunca mais chegado.
Senta-se, limpa o suor da testa e os outros olham-no interrogativamente, expectantes, como se ele pudesse trazer boas novas dos lados da ponte. Os seus olhos perguntam: — E agora, Sulemane?

A ponte é nossa

Mas a ponte é um dogma. Indiscutível. Mais do que matéria de facto e de concreto, é matéria de fé. Os residentes vão fiscalizá-la, pessoalmente, caminhando até onde está a capela de S. Francisco Xavier e continua o banco de Mousinho sob a árvore enorme e velhíssima. Ali se liga a Ilha com o Sancul, a 5 quilómetros do Lumbo. Conversando com o guarda, à porta da sua guarita, os citadinos olham o fundo da ponte esperando os carros e alegrando-se quando os avistam. Colaboram na cobrança da portagem e dão explicações aos transeuntes. Um peão paga 1$00 por ida e volta; uma bicicleta, 2$00; uma motorizada, 3$00; uma moto, 5$00; um automóvel, 25$00; um autocarro, 60$00; um camião de carga, 100$00. Peso máximo, 10 toneladas. Todos acham bem, assim é que está certo, é para o progresso da Ilha, a ponte é nossa. Daqui para o futuro, tudo será possível, parece dizerem alguns dos indivíduos com quem se trocam impressões sobre a «ordem do dia».
- Agora precisamos dum cais acostável, ao menos para atracarem os navios costeiros — sugere um.
- Água, é o que precisamos de arranjar a seguir — opina outro.
-Corrente alterna, quanto antes — contrapõe um terceiro.
- Um bom hotel, urgentemente — pede alguém.
-O comércio reviverá e a Ilha voltará a dominar o distrito — há quem se atreva a profetizar, entre os elogios ao almirante Sarmento Rodrigues.
- Vamos desenvolver o turismo — é resolução unânime.
Uma coisa é certa: a ponte fez estremecer a velha Ilha de Moçambique e algo de novo e vivificante a acometeu. Naquela relíquia do passado somente se fala de futuro. A estridência dos claxons levanta a poeira de mais de quatrocentos anos na capela de Nossa Senhora do Baluarte, onde dormem navegantes e conquistadores da índia. A história da Ilha foi cortada ao meio por esta ponte.
 
 
Fonte da foto: Blog "Estrada Poeirenta"

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Tiros para o ar

Por Gouvêa Lemos -A TRIBUNA - 1963

Tenho uma idéia vaga de, em tempos da minha meninice, ter um vizinho de quinta amedrontado e maníaco, que se assustava muito com muito luar. Por isso, em noites claras de Janeiro ou de Agosto e até de outros meses, o senhor ia ao muro do fundo que dava para a estrada e de lá punha-se aos tiros para o ar com uma caçadeira que ele tinha.
Quando o interrogavam sobre aquelas batalhas a solo, o sr. José - chamemos-lhe Sr. José - explicava que era contra os inimigos que disparava, em noites de lua cheia, ou lua nova ou mesmo com um quartozinho crescente. Quer dizer, muita lua e o Sr. José, pum, pum, pum, desatava aos tiros para o ar - contra os inimigos.
O que tinha graça nisso era que ninguém conhecia inimigos do Sr. José que nem era mau homem, era só maníaco e amedrontado, assim um pouco palerma; não se sabia portantode quem eram inimigos os inimigos que o afligiam, coitado do Sr. José.
Ora eu tenho reparado que ultimamente aparecem muitos artigos em alguns jornais, escritos por uns senhores que me lembram o Sr. José, lá nos tempos da minha meninice, por acaso na Beira Alta. Não sei se é de haver lua - há lua? - ou lá porque é, sei só que nesses artigos muito vagos, nada objectivos embora conceituosissimos, se fazem acusações gravesde grandes e pavorosos pecados (que devem ser mas não se sabe quais) contra pessoas muito incógnitas, muito anônimas, se calhar nem existentes.
Mas a xingação é brava e contundente. Fala-se de traidores, tipos que são contra, vendidods, perigosos inimigos como o Sr. José dizia), mas ninguém sabe nem percebe a quem é que os tais traíram ou vão ou estão a trair, quem foi que os comprou ou vai ou está a comprar e, finalmente, de quem ou de quê eles são inimigos, a quem ou a quê eles oferecem perigos. É um raio duma confusão!...
Se isto me aflige um pouco não é por mim, que passo adiante e leio tantas outras coisas que devo ler e não me importo: mas, como sou dos jornais e me preocupo com estes negócios de Imprensa, acho que o tal fenômeno começa a tomar forma de hábito com tendência endêmica, o que produzirá certamente larga desorganização na opinião pública, gerando-se um clima de desassossego altamente nocivo ao menos para quem precisa de dormir: qualquer dia desata tudo a comprar caçadeiras e a dar tiros de noite, "contra os inimigos". Não está certo.
Por isso eu peço aos camaradas mais useiros nesses sustos de noites de luar, que deixem disso, não tenham medo e falem claro. Ó senhores, devemos falar claro, pôr os pontinhos nos ii, as carapuças nas cabeças, apontar cada um a sua caçadeira para cada rés, desde que seja caso de tiroteio. Mas não assustem ninguém, pelo menos as crianças que, ao fim e ao cabo, ainda são as que têm mais receio dessas coisas...
Há tempos até li um artigo enorme, bem destacado, com um grande título, muito bem composto, sem gralhas nem nada e não consegui perceber nicles. Reli, ainda, quase até meio; e nada. Mas como era colérico! Como estava ofensivo! Severo e iracundo, prevenia-nos contra temerosos males e denunciava autênticas feras humanas, postas de tocaia contra nós todos, os homens bons (eu, também, não me considero mau homem). Mas afinal, o pobre do artiguinho resultava inútil, porque ninguém nos dizia contra quem era aquela cólera, quem seriam os ofendidos, que males nos ameaçavam e onde estavam as feras. Nem sequer explicava se estas eram mamíferos ou aves ou qualquer desses bichos que há na zoologia. Apre! Isso não deve ser jornalismo.
Aliás, eu tenho para mim, que até do ponto de vista lá das manias deles, isso não deve resultar. Quer dizer, nem mesmo para efeitos de denúncia à Policia ou assim, não é? A não ser que haja qualquer código que agente não sabe. Um código só para os homens bons... Mas então eu quero saber!
Não, não deve ser isso. São mas é como o Sr. José, que era palerma e em noites de luar, lá na quinta, punha-se a dar tiros com uma caçadeira. Para o ar. Contra os inimigos.