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sábado, 22 de maio de 2010

Natal - 70

Como havia comentado no post anterior, coloco agora o segundo poema que o José Moreira de Carvalho tinha guardado junto a outros seus pertences. É um poema recheado de saudades de uma filha que pela primeira vez não passava o Natal junto a si e a todos nós.
Haviamos perdido a Joãozinha em 1970 com paludismo, na época na Beira quando recem havia completado 8 anos de idade.



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quarta-feira, 19 de maio de 2010

epigrama porventura válido

Coloco hoje aqui um poema, da década de sessenta, que há muitos anos não o lia. A folha datilografada pelo próprio Gouvêa Lemos, com algumas correções feitas também pelo próprio, estavam guardadas por um Tio, o José Moreira de Carvalho, junto com outro poema, que aqui também colocarei por estes dias, e a outros seus pertences.
O José Moreira de Carvalho, cunhado do Gouvêa Lemos, em outros tempos farmeiro na região de Vila de Manica, foi sempre um grande admirador e irmão do GL, e só isso o faria guardar por tantos anos estes dois presentes que acaba por nos presentear.
Obrigado Tio Zé!

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sábado, 15 de maio de 2010

As cartas anônimas

[In: Notícias da Tarde, Lourenço Marques, ano VI, nº. 1:680, 27 de Novembro de 1957, p. 1]

Estou a ouvir aquela voz nortenha, franca e sã, com ressaibos de Miragaia, da Hora dos Pobres. O paciente senhor queixa-se das cartas anônimas que recebe e, muito a propósito, declara que mais valia terem ficado analfabetos os seus autores.
Tem razão.
Isto de saber ler e escrever começa a ser uma coisa horrível. Pelas libertinagens que ocasiona e pela coacçöes e inibições que traz.
- O senhor doutor sabe ler e escrever?
- Sim. Infelizmente, sei.
Também tinha razão o bacharel, que respondia ao burocrata.
É uma carga de trabalhos este dote de - tão simplesmente - saber ler e escrever. O que nos faz ler! O que nos apetece escrever...
Mas as cartas anónimas, essa miserável cloaca, para onde convergem os recalques e as misérias dos tais - que sabem ler e escrever é uma necessidade lamentável e tristíssima, como outras chagas de humanidade, que subsistirão, enquanto a humanidade não for melhor que isto. São a única justificação, a simples aplicação de muito diploma de instrução primária.
O único remédio conhecido, que pode resultar alguma coisa, na profilaxia de tal moléstia, é a coragem de não ler as cartas anónimas.
Dominar a curiosidade, o sadismo, o masoquismo e antes de percorrer com os olhos todas as linhas, atirar ao lixo esses documentos de baixeza.
Mais efectivo, mais radical seria não aprender a ler.
Eu vou mesmo ao ponto de propor uma campanha de analfabetização.
Começa a haver gente de mais, que sabe ler e escrever...

domingo, 9 de maio de 2010

Por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher...

Há uma famosa frase que diz que “por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher”.
Em nossa casa isso sempre ficou bastante evidente, tanto quando o Pai era ainda presente fisicamente como depois da sua partida.
Para homenagear a companheira de Gouvêa Lemos neste Dia das Mães no Brasil, coloco aqui hoje uma crônica do José Craveirinha desenvolvida em cima de uma carta que a Mãe lhe enviou poucos meses depois do falecimento do Pai, ainda em 1975, mas quando nós já havíamos retornado a Moçambique e tínhamo-nos instalado em Vila Pery.
É esta uma homenagem que faço à Mãe pelo Dia das Mães mas é também uma obrigação de aqui deixar formalizada a importância da Madalena como companheira de Gouvêa Lemos.

Foto: Madalena e Gouvêa Lemos


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sábado, 1 de maio de 2010

“Dignidade no Trabalho”

Em homenagem ao Dia do Trabalhador transcrevo aqui uma crônica do Gouvêa Lemos de 1963 no ambiente de um Moçambique colônia onde, naquele período, atingiu um dos picos da hipocresia deste sistema colonialista pilotado por uma ditadura fascista.
Felizmente já haviam pessoas como Gouvêa Lemos que percebiam como o sistema funcionava, mas infelizmente eram ainda poucas. Ainda que nem todas, como Gouvêa Lemos, não fossem vozes carimbadas pelas "frelimos" principalmente de hoje.
A foto que coloco aqui para ilustrar parte dessa hipocresia é do grande fotógrafo Ricardo Rangel.

Zé Paulo


“Dignidade no Trabalho”
[Coluna “Teclado Universal” de Gouvêa Lemos – Jornal Tribuna – 1963]

A dignificação do trabalho é uma bela meta. Aliás antiga. Trata-se de expressão que faz voga e continua a brilhar em discursos de circunstância, especialmente em festas de confraternização de patrões com o seu pessoal. Trabalhai que é bonito, dizem os patrões.
É digno, diz o capital. Seja como for, já hoje ninguém duvida de que ao trabalho deve a humanidade a caminhada cumprida, e no trabalho busca a humanidade redimir-se. No trabalho físico, no trabalho do espírito.
Assim, à primeira vista, qualquer campanha desenvolvendo-se onde quer que seja, no sentido de encaminhar ao trabalho quantos não trabalham, é coisa elogiàvel; resta saber se será eficiente em quaisquer circunstâncias. Se não será demasiado empírico o simples convite: Meu filho, trabalha que trabalhar é bonito. Se, de facto, ao contrário do que se deseja, não está a agudizar-se uma fome, em vez de satisfazer-se uma necessidade. Interessa interrogarem-se os promotores de propaganda psicológica a favor do trabalho, se deve enfrentar-se uma discutível propensão para a indolência de qualquer agrupamento humano, ou uma bem palpável ausência de oportunidades verificada em determinada zona geográfica, para os seus habitantes se realizarem no trabalho.
Claro que seria errado partir-se do pressuposto de que um grupo étnico tivesse qualidades intrínsecas, de natureza rácica, contrárias à necessidade humana do trabalho e que fosse, em consequência, necessário assentarem-se as baterias duma campanha contra o fatalismo de tais características. Claro que seria errado ignorarem-se todas as verdadeiras razões que mantém milhares ou milhões de seres afastados do trabalho regular e justamente remunerado, razões de ordem económica e social.
No caso concreto da anunciada acção psicossocial para dignificação do trabalho, com cartazes a tudo, oferece-se como questão fundamental, antes de mais nada, esta pergunta: em quê, onde vão eles trabalhar?
A profunda remodelação dum território como Moçambique, em estado de subdesenvolvimento, a revolução económico-social dum país, como a que se dá mostras de pretender-se, não pode operar-se por parcelas, desencontradamente, atacando-se consequências em vez de eliminarem causas, procurando-se coçar a comichão, em vez de tratar a sarna.
É preciso não desconhecer a crise de desemprego que é notória, entre os africanos, mesmo em aglomerados populacionais como Lourenço Marques, oferecendo maiores possibilidades de trabalho. Assim, chega a tomar aspectos – como direi? – cínicos, aconselhar o trabalho a quem procura, aflitivamente, trabalho.
E quanto a Moçambique inteiro – o que se impõe, o que é urgente? – o seu rápido desenvolvimento económico, a sua ocupação agrícola, a sua industrialização, criando-se assim uma larga e permanente absorção de mão-de-obra, com pagamento certo e suficiente, para a dignificação do trabalho. E os trabalhadores surgirão, aos milhões, em busca de elevação do seu nível de vida, em procura de “dignificação” da pessoa humana, faltando só à chamada natural os indolentes de sempre e de toda a parte, na Europa, na Ásia, na África, na América e na Oceânia.
Cria-se o clima, proporcione-se o ambiente, fabriquem-se condições autênticas, que o resto virá por acréscimo.
De maneira que, pode afirmar-se, mais uma vez, o que é preciso é o progresso que tarda, para em todos os sectores da vida humana de Moçambique, se realizar o milagre que esperamos. Sem cartazes.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

GOUVÊA LEMOS - Por Eugénio Lisboa

Os jornais noticiaram abundantemente a morte do jornalista Gouvêa Lemos. Que um homem tão pouco acomodatício tenha despertado uma tal unanimidade de tom nas notícias publicadas nos jornais das mais diversas orientações - eis, desde logo, uma indicação: Gouvêa Lemos era respeitado mesmo pelos que dele discordavam. Digamos que havia nele um não sei quê que desde logo se impunha. Talvez a sua bondade. Talvez a sua afabilidade. Talvez, sobretudo, o saber-se que era um dos raros homens que estava disposto a pagar com a própria vida o preço das suas convicções mais profundas.
Várias vezes o vi em sérias dificuldades - e estou talvez a dizer pouco: alguma vez o terei visto à beira da rotura total. Nunca notei, nesses momentos, que mostrasse, fosse como fosse, que o desespero o devorava.
Ficava-se amigo dele com facilidade - e ficava-se para o resto da vida.
Como jornalista, era muito mais do que um profissional sério e cheio de vivacidade. Tinha um estilo próprio. Qualquer texto seu, além de ser um modelo de literatura jornalística, era também um texto literariamente muito pessoal. Gouvêa Lemos escrevia bem, tinha o gosto da palavra única, aquela que, inesperadamente, entra em ressonância com a ideia que se quer percutir. Era um escritor genuíno.
A sua malícia estilística escondia um pouco o homem. Quem o lesse não deduziria dos textos o personagem que depois emergia. Estes eram por vezes mordazes, contundentes, aqui e acolá, méchants. Faltava, a temperá-los, o sorriso bonacheirão, a suavidade da voz e a doçura do olhar. De resto, falava como escrevia, mas, falado, deixava uma impressão diferente e mais suavizada.
Era sobretudo um homem de coragem, no plano profissional e no plano privado. Amava a profissão de cujos privilégios e autonomia era intransigentemente cioso. Tinha o brio próprio do técnico competente e odiava por isso a intromissão atrevida e volátil das aves de arribação.
Suponho que sabia exactamente o estado precário da sua saúde. No entanto, sempre que discretamente o sondávamos, mostrava-se animoso e cheio de planos. Creio que se tratava mais de sossegar-nos a nós do que de sossegar-se a si próprio. Era corajoso mas, com a sua peculiaríssima tolerância, não via razão para que os outros o fossem também. Por isso nos aquietava.
Partiu para o Brasil e não voltou. Dizem-me que nos últimos dias, já depois de operado, quando se lembrava disto, da terra e das pessoas, chorava. A chorá-lo, pela perda irreparável que a sua partida representa, ficamos nós. Parece que as pessoas como Gouvêa Lemos se demoram pouco neste mundo que é o nosso. Fulgem, - e desaparecem. No entanto, como observava um personagem de José Régio, 'este mundo ficaria mais pequeno se eles não passasem por cá'.

[In: A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano XIII, nº. 363, de 9 de Abril de 1972, p. 2]

sábado, 3 de abril de 2010

38 anos sem o Pai e jornalista Gouvêa Lemos

Há 38 anos, a 02 de Abril de 1972, em um Domingo de Páscoa, falecia Gouvêa Lemos aos 47 anos de idade.
Estávamos, eu e mais 3 irmãos, nas areias da praia de Ipanema no Rio de Janeiro junto a uns tios e amigos destes. Todos na expectativa do Almoço de Páscoa que iria acontecer em nossa casa, cuidadosamente e carinhosamente feito pela Madalena, onde a família iria festejar a Páscoa mas mais ainda o restabelecimento do pós operatório do mais velho dos Gouvêa Lemos.
Lá em cima, no Bar do Castelinho onde antes ele gostava de tomar o seu choop, estava na companhia da sua sempre companheira Madalena e de um dos filhos, o António Maria, e ainda com o proprietário do Castelinho com quem batia sempre um bom papo.
A certa altura, lá da praia, ouvimos da marginal uma freada de carro, uma buzinada. Em segundos, ao vermos que chegava em correria à nossa barraca o Tó Maria, deduzimos que a freada e a buzinada tinham sido causadas pela sua louca e apressada travessia da marginal da praia para logo nos alcançar e nos dizer:
- O pai desmaiou!
O Pai, quando levava um copo de suco de laranja à boca, deixou-o cair e tombou para nunca mais acordar do “desmaio”.
Ali, aos meus 11 anos de idade, perdi a oportunidade de conviver com ele com uma maturidade onde poderia ter aproveitado melhor os seus ensinamentos. Ali os meus irmãos mais velhos, mas não tanto, também perderam o seu herói. A sua companheira, Madalena, assumiu de imediato esse posto, Mãe e Pai.
Mas se nós perdemos, sei também que Moçambique perdeu definitivamente naquele Domingo de Páscoa o jornalista e Homem que ainda tanto teria para doar aquela terra que ele passou a amar quando emigrou de Portugal.
Se Gouvêa Lemos mostrava ter desistido de Moçambique colônia naquele inicio de 1972, quando o deixou para vir para o Brasil, tenho hoje eu a certeza que se não tivesse falecido tão precocemente não demoraria a retornar.
Mas se por muitos anos, depois da ida dele, fui ainda educado pelo meu Pai através dos seus amigos e pela minha Mãe quando me faziam o conhecer pelo o que eles o conheceram, sem medo de errar e fugindo de qualquer aparente prepotência, sei também que o jornalista Gouvêa Lemos deixou legado para o jornalismo, e não só, de Moçambique.

* O retrato do Pai é do pintor e poeta luso-angolano Neves e Sousa.