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terça-feira, 4 de outubro de 2011

AINDA AS LOTARIAS: MAIS UMA SUGESTÃO


O assunto «lotarias» continua em pauta e, pelo que se lê, teve o condão de interessar muita gente, que se manifesta com entusiasmo nas colunas dos jornais. Não quero ignorá-lo e já que sobre ele também tenho opinião, aqui a ofereço.
Ponho o problema assim: a lotaria é um jogo de azar; os jogos de azar são um vício; logo, a lotaria é um vício. Por isso, a solução mais corajosa e mais conveniente à sociedade que constituímos em Moçambique seria proibir as lotarias todas, terminantemente. Mas poderá alegar-se (e teremos que aceitar, como a tantas outras vergonhas e covardias colectivas, chamadas «males necessários») que a lotaria é útil, pois que da sua exploração basicamente desonesta, se colhem proventos destinados a sustentar obras de assistência social. Pode-se, assim, considerar a lotaria um mal necessário, consequentemente de falta de justiça social e, neste pé, admita-se, encarando-se o problema com o inválido espírito cordato, que solicita «do mal, o menos».
Agora, interessa averiguar o que mais convém, no caso de Moçambique: se a continuação da venda, aqui, da lotaria chamada nacional, com a supressão inevitável da lotaria dita provincial, se a proibição daquela venda e a ressureição da finada lotaria de cá. Não percamos tempo a cuidar das possibilidades de coexistência de ambas no nosso mercado, pois provaram os factos a sua impraticabilidade e até o Provedor da Santa Casa da Misericórdia, que esteve cá, afirmou que a lotaria provincial só se manteve bem enquanto não teve concorrência.
Neste ponto, vejamos o que pesa a favor e contra cada uma das lotarias:
A favor da «provincial»: - contribuiu valiosamente para a Assistência Pública de Moçambique e parece que só começou a contribuir menos, quando passou a vender-se mais, aqui, a lotaria da Metrópole;
- Os seus prémios são pagos obrigatoriamente cá, em moeda aqui emitida, e não implica grossas transferências de dinheiros para fora da província, nem por parte da Administração da própria lotaria, nem por intermédio das firmas que se dedicam à sua venda;
Contra ela: - só conta o facto, comum às outras, de constituir um vício, o da jogatina generalizada, ao alcance de todos.
Considera-se a favor da lotaria nacional o seguinte: - contribui substancialmente para manter a obra assistencial da Santa Casa da Misericórdia, na Metrópole e também ajuda valiosamente a Assistência de Moçambique;
Em contrapartida: - como é lógico e admissível canaliza para a Metrópole um nutrido caudal de dinheiros, afectando notavelmente a economia da província, que, em vez de ser sangrada, precisa de ser robustecida; numa época em que tanto se procura evitar importações, reduzindo-as ao mínimo e, às vezes, abaixo desse mínimo, não está certo que se importem toneladas de bilhetinhos coloridos, bem caros, fazendo-se um negócio em que matematicamente se perde, pela própria natureza do jogo;
- por outro lado, não menos importante - ou mais grave ainda - possibilita esssa lotaria o exercício ilegal de transferências, em rendosas negociatas, feitas por quem não tem no comércio de lotarias o simples interesse desse ramo.  - É grave o que digo? - Sim, é grave. Mas fala-se, por aí, muito, dum verdadeiro mercado negro de cambiais e daqui chamo para isso a atenção de quem tem o dever de averiguar o facto e punir os «contrabandistas de escudos», quer os que fizeram o jeito, castigando com todo o rigor, seja quem for que tenha participado nas operações. É difícil, bem sei; mas vale a pena, pois é altamente injusto, é criminoso que, enquanto gente pobre tem dificuldades, ou, pelo menos, tem de cumprir formalidades legais, ao transferir uns magros cobres para a família, simultâneamente a lotaria duma Casa que até se chama Santa, sirva de capa aos transfugas do capital e de veículo de evasão de verdadeiras fortunas.
Um inquérito a isto, feito por gente capaz e independente, é coisa que se impõe, com urgência.
Entretanto, para que à minha prosa não falte nenhuma característica de crítica construtiva - coisa mal definida que se exige muito aos jornalistas - aí vai a indispensável sugestão:
- Proíba-se a venda, em MOçambique, da Lotaria de Lisboa; restabeleça-se a Lotaria Provincial; e ponha-se esta a contribuir com uma percentagem para a Santa Casa da Misericórdia. Embora não faça muita falta, à Administração da lotaria nacional, este tributo - como se conclui do que disso o dr. Melo e Castro - com ele ficariam tranquilas as nossas consciências, pois não seria furtada, à obra assistencial da Santa Casa, a nossa ajuda. Assim, continuaríamos a colaborar com essa benemérita instituição, sobre a qual, conforme palavras do seu Provedor aqui proferidas, pesa «a maior parte da responsabilidade pela protecção social da cidade de Lisboa, onde vão desaguar infelicidades e carências de todos os territórios portugueses».
Ao fim e ao cabo, só se estragaria um negócio, que não justifica especiais contemplações, em face do interesse geral.

[A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano 3, nº 46, 31 de Março de 1962, p. 1 e 11]

segunda-feira, 7 de junho de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (última parte)

O compadre Tomás apanhou-o na queda e meteu-lhe um ombro sob o sovaco, puxou-lhe o braço à roda do pescoço e levou-o, de pernas bambas, pés a arrastar, os dois aos bordos, numa solidariedade forçada. O compadre Tomás, enfermeiro do Quadro de Saúde, ia a pensar na vida do João e perguntava-se a si mesmo, se fazia bem ou mal em levá-lo a casa. Ao mesmo tempo ia reparando em que a viagem, assim, era nervosa e cansativa. Quando chegaria ele, Tomás, à sua casa? E pensava, Tomás, que entraria de serviço na manhã seguinte, bem cedo. João resfolgava. Que idéia a tua João!

*

Por mim, minha amiga cidade, vou apagar a luz na mesa de cabeceira. Cansado e tentado a não ter esperança. Mas sei que acordarei com um sol doirado e quente, em céu escandalosamente azul, a envolver-te completa, nos arrebiques e maselas, no riso e no choro, na música e nos gritos, nas flores e nos charcos, nos prédios e nos barracos, no amor e na briga de todos os contrastes, dando-se na mesma dádiva às trezentas e cinqüenta mil pessoas de que és feita. E o sol, minha amiga, minha mais bela cidade do mundo, o sol nasce agora às seis e trinta e seis. Nasce fatalmente!

FIM

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domingo, 6 de junho de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (05)

Também varam a noite outras mulheres, sem filhos no dorso. Sem filhos no dorso, que atrapalhariam o “twiste” . Entram com a sua parte no coquetel do grande “show” nocturno, misturando-se com as espanholas e as gregas e as transvalianas, da cançoneta e do baile. São elas as encarregadas do “tic” exótico. Como começaram, como vão acabar, oh! la, la! – isso é que interessa? Para já, bebem e fumam, dançam e divertem.

*

Rápida corrida para os cinemas. Rápida corrida para casa. Um atrasosinho para meio bife. Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Lourenço Marques, a moderna capital da província portuguesa de Moçambique, é uma cidade que cresce espectacularmente.

Os jornais, esta manhã, dizima todos o mesmo. Os que não diziam o mesmo diziam, obrigatoriamente disparates. Os que não diziam disparates não diziam nada. Mas será verdade o que eles dizem?... E o que eles não dizem, será verdade?...as consta, me garantiram-me ... Deixe que eu pago os cafés. Até amanhã.

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Antes de ir para a cama, ainda quero dizer que Lourenço Marques é uma cidade acentuadamente desportiva. As piscinas, os “courts” de tênis, os estádios abertos e cobertos, o Eusébio. Agora temos uma estação aéreo muito melhor para receber hoquistas.
Pronto, as redações fecharam. Ficaram os impressores a fazer os jornais. Só falta cumprir a conversa de bar. Começa em nobreza: a “cidade de caniço” foi o grande assunto jornalístico deste ano; devemos comprometer-nos a explorá-lo toda a vida. Concordam? Tudo concorda. Mais adiante umas garrafas, surge a primeira discrepância. Pequena. Depois outra, maior. E outra e outra. Vem a mãe das discrepâncias e cerra o horizonte da bula-bula. Só há uma solução: cada um fala do seu assunto. E vários monólogos simultâneos dão todo o esoterismo da conversa de bar.


(Continua...)
 
Foto do de Ricardo Rangel, que tratava Gouvêa Lemos como "meu Mestre".
Fonte: Blog ZAN AFRICAMAGAZINE
 
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quinta-feira, 3 de junho de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (04)

Sobretudo a praia, a praia principalmente. Eis o grande atractivo turístico da turística Lourenço Marques. É certo que há os camarões e os lagostins. É certo. E as lojas dos chinas e a arte indígena. O ambiente muito continental dos hotéis e a pincelada ibérica das touradas. E a hospitalidade, também, de que as turistas (nem sempre) se queixam. Mas a praia, sim, é que dá o tom. Por isso a marginal é o que é, e se tornou obrigatório rodar por ali, doze quilômetros a ir, doze quilômetros a vir. E por isso, também o Sr. Alves Pinheiro se embasbacou e falou dos “seus clubes navais”... Por trás dumas grades acampam turistas vermelhos que comem bananas. A gente vai vê-los, quando eles não estão comendo bananas e sim a porem-se vermelhos sobre a areia. Convencionou-se que elas são todas “giras”, o que dá uma certa alegria à rapaziada, que se embebeda, também convencionalmente, com coca-cola.

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Do sétimo andar caiu um belo vasinho de avencas. Escarrapachou-se no tejadilho do Hilman do senhorio. Um magnífico fim de tarde, prenhe de interesse, espumante de agitação. O senhor Freitas, seu marido, prefere a pesca de paredão. Ao menos ali, ninguém o chateia nem fala de ninguém. Deixou foi de levar o “transistor” para pousar na balaustrada, pois afastava os safios.

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Além da pesca desportiva, há a outra, sobre qual as teorias são diversas, parecendo, porém, provado que nas águas do Canal de Moçambique pescam bem os japoneses. Entretanto poveiros em traineiras, gente de Marracuene em “tatarjos”, indianos em barcos à vela, lá vão trazendo o teu peixe, amiga cidade. Arrancado a pulso, com saber e paciência, ao teu amado Índico. Mulheres, de filhos no dorso, varam a noite, metidas na água salgada até às coxas, caçando mariscos para o teu caril dominical e para ornamento da rendosa “season”. Peixe e mariscos para regatearmos bem regateados, que a visa, assim a subir... mas que grande roubalheira!


(continua...)
 
Foto da Marginal de Lourenço. Pescada no blog Diary of a Stay at Home Mom
 
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quarta-feira, 2 de junho de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (03)

Negros Mercedes-Benz são lavados sob alpendres das moradias, no Sommerchield; fardas de impedidos, paletós de motoristas, fardetas de moleques passam as cancelas de ferro. O pão já veio. Saem meninos para a escola. Lá para a rua Nevala, comanda um clarim com voz de galo. O Grêmio Civil ainda tem os vidros embaciados e já o sol toma banho na baía. É verdade: na baia, convém que um navio apitasse. Embora a chuva que há-de vir já traga, à cidade inteira, os silvos das locomotivas em manobras. E uma ambulância corra, tão cedo, com a sirene a gritar, pela Pinheiro Chagas, levando a mulher que ia tendo a criança na rua. Suponho que já chega de música de fundo, com a ubíqua motorizada na bateria.

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Cai toda a gente no afã de ganhar a vida consumindo outro dia. Tilintaram relógios de ponto. Chaminés largaram uns fumos de indústria. Caixeiros iniciaram o eterno dobra-e-desdobra das peças de tecido. E as barcas da Catembe vêm e voltam , carregando e descarregando gente, cestas e cangarras. Nos mercados municipais ou furtivos agitam-se figurantes em cenário de natureza morta. Compradores e vendedeiras fazem torneios de voz alta. A bela Juju ainda na cama, acorda e boceja; só agora dá conta, em câmara lenta, da noite que foi a noite passada. – Ahahnnn ...., foi demais, ela própria confessa, e enovela-se em busca do sono, que ao fugir, a deixa nua diante de si. . Vamos fugir da Juju, que ela vai chorar.

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Entretanto, lembremo-nos dela, ingenuamente fingindo de ingênua-bardot, a passar na Avenida da República, rentinha às mesas do Continental, entre as cinco e cinco meia da tarde. Não há lugares para mais ninguém nem é preciso haver, que estão lá todos do costume. As pessoas falam uma com as outras, não se olhando, pois o olhar é preciso para quem passa. As conversas... ora para que falar das conversas? Não interessam e nem podem interessar até porque, se interessarem, quem as apreciaria mais não seriam os interlocutores mas aquele sujeito da mesa ao lado; quem é ele, que faz ele, que está sempre na mesa do lado?...

(continua...)

Foto: Av. da República, Lourenço Marques na década de 60. Foto apanhada no Blog "Rua dos dias que voam"

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terça-feira, 1 de junho de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (02)


São quatro e meia da manhã e o vermelho machibombo arranca em frente do Bazar do Xipamanine, com os seus cigarros “king size” e seus sorrisos de dentifrico nos lombos, carregando lá dentro sob as luzes amarelas cinqüenta e tal estivadores, rumo à Praça Mac-Mahon. Que é do sol, que ainda não veio alumiar estes heróis no avanço do cais Gorjão, onde vão manusear às lingadas o pão nosso de cada dia? Que é do sol, que se guarda para acordar a Polana?!
Minha amiga cidade, atenção a esse sol, não vá ele aburguesar-se.

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Pela Avenida Craveiro Lopes, já vem chapinhando na água das chuvas, chap-chap, os pés descalços no leito do asfalto do rio parado, o mainato, os moleques, os cozinheiros, os mufanas, as mamanas, os serventes, os ardinas. Os camiões de lixo recolhem. Os de leite circulam. Na Caldas Xavier galopa uma carrinha de quatro cilindros, trabalhando em três e batendo os guarda-lamas, com um cão a ladrar-lhe. Leva galinhas, ovos e papaias.

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Mesas empilhadas e cadeiras encolhidas junto das cervejarias, água e vassouras espreitando às portas, criados retirando as latas vazias de lixo, vai começando o ronronar contínuo dos motores de toda a casta de bichos com rodas, e – bom dia Lourenço Marques! – o sol já nasceu sim senhores, que as empregadinhas já pisam , e pisam bem, e ainda bem que pisam, as ruas que descem para as lojas, para os armazéns, para os salões, para os escritórios, para as repartições, ah! as empregadas já vêm, faladoras, os cabelos cacimbados do chuveiro, ó cidade amiga, elas dão-te mais graça, elas são mais frescas, elas são mais repousantes que todos os parques e jardins!

(continua...)
 
Foto: Café Continental e um machibombo vermelho. Foto do site NRP Álvares Cabral F336
 
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (01)

Vou hoje começar a reeditar a crônica “PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE”, de 24 de Julho de 1963, de Gouvêa Lemos quando este escrevia para o jornal “Dário de Moçambique” da então Lourenço Marques.
Uma crônica, como muitas dele, que fazia fundir o cronista ao poeta. A poesia que “homenageava” a sua Lourenço Marques com o olhar critico sobre os contrastes das diferenças sociais da então capital da província.
Colocarei a mesma por partes, pois cada parágrafo desta crônica já por si merece ser lida como um instantâneo daquela Lourenço Marques, e desta forma dividirei com os leitores.

Zé Paulo


PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE

O sol nasce agora às seis e trinta e seis, mas continua a nascer no mar como em todo o ano. No lado noroeste da cidade não esperam por ele para começar o dia; usam madrugadas com lua, auroras de pobre.

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O Samuel, que é um contínuo num terceiro andar da baixa desde as sete às dezassete e come o farnel à sombra de árvores, chamadas em latim no Jardim da Gama, e vai à noite às aulas da Industrial, mora as restantes quatro horas no Chamanculo. Chega ali já noite alta; sai de lá antes que a noite finde. Samuel é um morcego que sonha ser pássaro. Minha amiga cidade, Samuel será pássaro, não será ?

(continua...)

Foto: Site "Moçambique Mozambique - Fotos para divulgar"

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