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domingo, 11 de novembro de 2012

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (Na íntegra)

Em Junho de 2010 coloquei esta cronica em seis partes. Tenho recebido alertas sobre a dificuldade dos leitores de conseguirem acessar as partes numa sequência lógica e simples. Assim, ao passarmos ontem pelos 125 anos da sua fundação, volto aqui a editar esta cronica escrita por Gouvêa Lemos no ano de 1963.
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PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE
Um Samuel dos tempos atuais...
Foto de Zé Paulo registrada em Maio de 2012, em Maputo.

O sol nasce agora às seis e trinta e seis, mas continua a nascer no mar como em todo o ano. No lado noroeste da cidade não esperam por ele para começar o dia; usam madrugadas com lua, auroras de pobre.

*

O Samuel, que é um contínuo num terceiro andar da baixa desde as sete às dezassete e come o farnel à sombra de árvores, chamadas em latim no Jardim da Gama, e vai à noite às aulas da Industrial, mora as restantes quatro horas no Chamanculo. Chega ali já noite alta; sai de lá antes que a noite finde. Samuel é um morcego que sonha ser pássaro. Minha amiga cidade, Samuel será pássaro, não será ?
São quatro e meia da manhã e o vermelho machibombo arranca em frente do Bazar do Xipamanine, com os seus cigarros “king size” e seus sorrisos de dentifrico nos lombos, carregando lá dentro sob as luzes amarelas cinqüenta e tal estivadores, rumo à Praça Mac-Mahon. Que é do sol, que ainda não veio alumiar estes heróis no avanço do cais Gorjão, onde vão manusear às lingadas o pão nosso de cada dia? Que é do sol, que se guarda para acordar a Polana?!
Minha amiga cidade, atenção a esse sol, não vá ele aburguesar-se.

*

Pela Avenida Craveiro Lopes, já vem chapinhando na água das chuvas, chap-chap, os pés descalços no leito do asfalto do rio parado, o mainato, os moleques, os cozinheiros, os mufanas, as mamanas, os serventes, os ardinas. Os camiões de lixo recolhem. Os de leite circulam. Na Caldas Xavier galopa uma carrinha de quatro cilindros, trabalhando em três e batendo os guarda-lamas, com um cão a ladrar-lhe. Leva galinhas, ovos e papaias.

*

Mesas empilhadas e cadeiras encolhidas junto das cervejarias, água e vassouras espreitando às portas, criados retirando as latas vazias de lixo, vai começando o ronronar contínuo dos motores de toda a casta de bichos com rodas, e – bom dia Lourenço Marques! – o sol já nasceu sim senhores, que as empregadinhas já pisam , e pisam bem, e ainda bem que pisam, as ruas que descem para as lojas, para os armazéns, para os salões, para os escritórios, para as repartições, ah! as empregadas já vêm, faladoras, os cabelos cacimbados do chuveiro, ó cidade amiga, elas dão-te mais graça, elas são mais frescas, elas são mais repousantes que todos os parques e jardins!

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Negros Mercedes-Benz são lavados sob alpendres das moradias, no Sommerchield; fardas de impedidos, paletós de motoristas, fardetas de moleques passam as cancelas de ferro. O pão já veio. Saem meninos para a escola. Lá para a rua Nevala, comanda um clarim com voz de galo. O Grêmio Civil ainda tem os vidros embaciados e já o sol toma banho na baía. É verdade: na baia, convém que um navio apitasse. Embora a chuva que há-de vir já traga, à cidade inteira, os silvos das locomotivas em manobras. E uma ambulância corra, tão cedo, com a sirene a gritar, pela Pinheiro Chagas, levando a mulher que ia tendo a criança na rua. Suponho que já chega de música de fundo, com a ubíqua motorizada na bateria.

*

Cai toda a gente no afã de ganhar a vida consumindo outro dia. Tilintaram relógios de ponto. Chaminés largaram uns fumos de indústria. Caixeiros iniciaram o eterno dobra-e-desdobra das peças de tecido. E as barcas da Catembe vêm e voltam , carregando e descarregando gente, cestas e cangarras. Nos mercados municipais ou furtivos agitam-se figurantes em cenário de natureza morta. Compradores e vendedeiras fazem torneios de voz alta. A bela Juju ainda na cama, acorda e boceja; só agora dá conta, em câmara lenta, da noite que foi a noite passada. – Ahahnnn ...., foi demais, ela própria confessa, e enovela-se em busca do sono, que ao fugir, a deixa nua diante de si. . Vamos fugir da Juju, que ela vai chorar.

*

Entretanto, lembremo-nos dela, ingenuamente fingindo de ingênua-bardot, a passar na Avenida da República, rentinha às mesas do Continental, entre as cinco e cinco meia da tarde. Não há lugares para mais ninguém nem é preciso haver, que estão lá todos do costume. As pessoas falam uma com as outras, não se olhando, pois o olhar é preciso para quem passa. As conversas... ora para que falar das conversas? Não interessam e nem podem interessar até porque, se interessarem, quem as apreciaria mais não seriam os interlocutores mas aquele sujeito da mesa ao lado; quem é ele, que faz ele, que está sempre na mesa do lado?...

*

Sobretudo a praia, a praia principalmente. Eis o grande atractivo turístico da turística Lourenço Marques. É certo que há os camarões e os lagostins. É certo. E as lojas dos chinas e a arte indígena. O ambiente muito continental dos hotéis e a pincelada ibérica das touradas. E a hospitalidade, também, de que as turistas (nem sempre) se queixam. Mas a praia, sim, é que dá o tom. Por isso a marginal é o que é, e se tornou obrigatório rodar por ali, doze quilômetros a ir, doze quilômetros a vir. E por isso, também o Sr. Alves Pinheiro se embasbacou e falou dos “seus clubes navais”... Por trás dumas grades acampam turistas vermelhos que comem bananas. A gente vai vê-los, quando eles não estão comendo bananas e sim a porem-se vermelhos sobre a areia. Convencionou-se que elas são todas “giras”, o que dá uma certa alegria à rapaziada, que se embebeda, também convencionalmente, com coca-cola.

*

Do sétimo andar caiu um belo vasinho de avencas. Escarrapachou-se no tejadilho do Hilman do senhorio. Um magnífico fim de tarde, prenhe de interesse, espumante de agitação. O senhor Freitas, seu marido, prefere a pesca de paredão. Ao menos ali, ninguém o chateia nem fala de ninguém. Deixou foi de levar o “transistor” para pousar na balaustrada, pois afastava os safios.

*

Além da pesca desportiva, há a outra, sobre qual as teorias são diversas, parecendo, porém, provado que nas águas do Canal de Moçambique pescam bem os japoneses. Entretanto poveiros em traineiras, gente de Marracuene em “tatarjos”, indianos em barcos à vela, lá vão trazendo o teu peixe, amiga cidade. Arrancado a pulso, com saber e paciência, ao teu amado Índico. Mulheres, de filhos no dorso, varam a noite, metidas na água salgada até às coxas, caçando mariscos para o teu caril dominical e para ornamento da rendosa “season”. Peixe e mariscos para regatearmos bem regateados, que a visa, assim a subir... mas que grande roubalheira!

*

Também varam a noite outras mulheres, sem filhos no dorso. Sem filhos no dorso, que atrapalhariam o “twiste” . Entram com a sua parte no coquetel do grande “show” nocturno, misturando-se com as espanholas e as gregas e as transvalianas, da cançoneta e do baile. São elas as encarregadas do “tic” exótico. Como começaram, como vão acabar, oh! la, la! – isso é que interessa? Para já, bebem e fumam, dançam e divertem.

*

Rápida corrida para os cinemas. Rápida corrida para casa. Um atrasosinho para meio bife. Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Lourenço Marques, a moderna capital da província portuguesa de Moçambique, é uma cidade que cresce espectacularmente.

Os jornais, esta manhã, dizima todos o mesmo. Os que não diziam o mesmo diziam, obrigatoriamente disparates. Os que não diziam disparates não diziam nada. Mas será verdade o que eles dizem?... E o que eles não dizem, será verdade?...as consta, me garantiram-me ... Deixe que eu pago os cafés. Até amanhã.

*

Antes de ir para a cama, ainda quero dizer que Lourenço Marques é uma cidade acentuadamente desportiva. As piscinas, os “courts” de tênis, os estádios abertos e cobertos, o Eusébio. Agora temos uma estação aéreo muito melhor para receber hoquistas.
Pronto, as redações fecharam. Ficaram os impressores a fazer os jornais. Só falta cumprir a conversa de bar. Começa em nobreza: a “cidade de caniço” foi o grande assunto jornalístico deste ano; devemos comprometer-nos a explorá-lo toda a vida. Concordam? Tudo concorda. Mais adiante umas garrafas, surge a primeira discrepância. Pequena. Depois outra, maior. E outra e outra. Vem a mãe das discrepâncias e cerra o horizonte da bula-bula. Só há uma solução: cada um fala do seu assunto. E vários monólogos simultâneos dão todo o esoterismo da conversa de bar.

*

O compadre Tomás apanhou-o na queda e meteu-lhe um ombro sob o sovaco, puxou-lhe o braço à roda do pescoço e levou-o, de pernas bambas, pés a arrastar, os dois aos bordos, numa solidariedade forçada. O compadre Tomás, enfermeiro do Quadro de Saúde, ia a pensar na vida do João e perguntava-se a si mesmo, se fazia bem ou mal em levá-lo a casa. Ao mesmo tempo ia reparando em que a viagem, assim, era nervosa e cansativa. Quando chegaria ele, Tomás, à sua casa? E pensava, Tomás, que entraria de serviço na manhã seguinte, bem cedo. João resfolgava. Que idéia a tua João!

*

Por mim, minha amiga cidade, vou apagar a luz na mesa de cabeceira. Cansado e tentado a não ter esperança. Mas sei que acordarei com um sol doirado e quente, em céu escandalosamente azul, a envolver-te completa, nos arrebiques e maselas, no riso e no choro, na música e nos gritos, nas flores e nos charcos, nos prédios e nos barracos, no amor e na briga de todos os contrastes, dando-se na mesma dádiva às trezentas e cinqüenta mil pessoas de que és feita. E o sol, minha amiga, minha mais bela cidade do mundo, o sol nasce agora às seis e trinta e seis. Nasce fatalmente!

 “Dário de Moçambique” , Lourenço Marques, 24 de Julho de 1963.


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

POR MAUS CAMINHOS


Enquanto esteve na Beira, de passagem para Lourenço Marques, o ministro das Obras Públicas, engo. Arantes e Oliveira, percorreu a cidade em companhia do presidente da Câmara Municipal, dr. Janeiro Neves, e do secretário provincial, dr. Andrade e Silva.
Andou o sr. Ministro por um lado e por outro desta Beira em obras, desta Beira que precisa de obras, principalmente de obras públicas e, de certo, o engenheiro ilustre sentiu-se em casa ao percorrer uma cidade em contínua construção, uma cidade inacabada, uma cidade-estaleiro.
Andou o sr. Ministro por maus caminhos e andou muito bem, pois sabemos que essas andanças lhe quadram ao feitio além de condizerem com a função. E também porque a Beira, só por si, justificaria um ministério de Obras Públicas, tal como o sr. Ministro, certamente ficou a pensar, quando terminou a sua rápida corrida por ambas as margens do Chiveve.
Por nossa parte, ficamos a pensar em que talvez tenhamos razão se ficarmos com a esperança nos resultados possíveis desta corrida ministerial pelos maus caminhos da Beira. Todos nos dizem e nós acreditamos que o engo. Arantes e Oliveira, além de técnico competente e de conceituado homem público, é pessoa de boa vontade e coração, que não deixará de se lembrar com interesse construtivo e solidariedade activa, desta jovem cidade que lembra uma rapariga partida, engessada, com muletas.

A.    V.

Notícias da Beira – Pág. 3 – 17 de Setembro de 1966


Obs.: “A. V.”  era o pseudônimo do Gouvêa Lemos, usado quando ele acreditava que o seu texto poderia ser censurado se colocasse o habitual G.L.. A. V. era na verdade a sigla de António Veríssimo, os dois primeiros nomes de António Veríssimo Sarmento Gouvêa Lemos.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

REPETINDO UMAS COISAS ÓBVIAS - Pegue-se no futuro de Moçambique...


"1963 X 2012" ou "1963 = 2012"
Pegue-se no futuro de Moçambique, de que tanto devemos cuidar, e como quem olha um poliedro, miremos-lhe as faces, uma por uma: sempre havemos de constatar uma necessidade urgente e iniludível, a condicionar e a implicar-se em todas as outras necessidades e chama-se ela desenvolvimento económico.
Pense-se na promoção social das populações, de que vemos gentes de vários feitios ocupar-se por formas diversas e com intenções diferentes, e logo se sente que pouco ou nada poderá fazer-se, se essas populações não forem promovidas economicamente.
Fale-se em consciencialização política ou esclarecimento cívico dum povo, para o habilitar a exercer direitos consignados na lei, e imediatamente se vê que a quem se aplica não tem um nível económico exigido.
Lembre-se a instrução, indispensável ao homem moderno, urgindo sobretudo onde ela tem de começar pela alfabetização de milhões de pessoas, ao mesmo tempo que deve exercer-se também em graus superiores, para constituição de elites intelectuais e formação profissional, e logo nos assustaremos de pensar o que haverá de ser ocupação adequada de quantos forem saindo das escolas, dos institutos, dos liceus, das faculdades universitárias, se um vasto programa de instrução não for acompanhado, apoiado e justificado por um surto simultâneo de desenvolvimento económico.
Veja-se como será inválida qualquer actividade séria no campo da saúde e da higiene, se a massa populacional sobre a qual se exerce não tiver possibilidade de elevar o grau da sua saúde colectiva, se não conseguir apurar os seus hábitos de higiene, se não tiver meios materiais e não dispuser de processos técnicos que lhe assegurem um estado aceitável de sanidade, se, em suma, a sua situação económica não lhe permitir praticar as teorias, dar continuidade às práticas e efectivar os seus resultados.
Repare-se em como será inviável a elevação espiritual de quem não tenha da vida uma concepção diferente da que lhe dá a preocupação da sobrevivência.
Ora, estas coisas tão simples como todas as de bom senso preocupam., afinal, quantos sejam conscientes e se encontrem em Moçambique e fazem que ninguém de boa fé possa admitir a fuga às obrigações que tais realidades impõem.
Moçambique tem no seu território enormes capacidades de riqueza, umas conhecidas e muitas apenas adivinhadas, mas sabendo-se de todas que são mais que suficientes para dar aos seis milhões e meio que aqui vivem e aos mais que vierem a viver excelentes condições económicas. Esse potencial tem de ser utilizado. Vai ser utilizado. Se não se fundasse nesta determinação, nenhuma política se justificaria.
O remédio de todos os males não está no processo simplista de aumentar salários; o que se impõe é o aumento da produção, a criação de riqueza, para se enfrentarem então os problemas da sua melhor distribuição, seja através de salários, seja na participação de lucros, seja pelo sistema que o povo escolher.
O que tem de haver é aquela certeza acima referida, generalizada e por todos vivida, de que o homem de Moçambique usará a riqueza que Moçambique oferece, parecendo-me, por isso, inoportunos certos rumores de pessimismo, que se manifestam até para condenar iniciativas daqueles que acreditam no futuro desta sua terra, baseando-se os velhos do Restelo em que os tempos vão muito maus.
Se os tempos vão muito maus, terão de vir a ser bons, mesmo contra a vontade de alguns.

[A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano IV, nº 96, 28 de Setembro de 1963, p. 10]

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

OS PSEUDOS



Eis que nesta Lourenço Marques tão garrida apesar dos pesares, remirando-se na baía nem sempre espelhada do Espírito Santo, encanudando e frisando os polanas e os somerchildes e escondendo os caniços, pupulam cada vez mais pululantes os pseudos.
É encantadora, chega a ser comovente a desfaçatez com que actuam livremente, muito livremente aliás, com uma liberdade só deles, certos pseudo-intelectuais, sem um mínimo de dignidade intelectual, que são pseudo-jornalistas, fazendo dos jornais postigos de delação, que são pseudo-escritores, escrevendo sandices com citações mal digeridas à mistura, que são pseudo-patriotas batendo-se por que se espete com a Pátria num atoleiro. São até, nas horas vagas, anti-racistas, generosamente, magnânimamente, como seres superiores que se julgam, detentores do direito a tais abdicações, mas quando se lhes mostra que mesmo nessa pseudo-generosidade paternal há racismo, os pseudo-humanistas enfurecem-se e gritam. E, em situações taís, pode acontecer que peçam uma balança para pesar encéfalos ou uma guilhotina para cortar cabeças, invocando Darwin em latim mal copiado ou Fidel Castro em português sem gramática. Isto é, quem for de cor diferente leva poucos miolos, quem for de opinião diferente fica sem miolos nenhuns. Mas não são maus homens, os pseudos. Até dão esmola aos sábados.
Oh! como andam activos, os pseudos!
Vem um, e de pera em punhal, ameaça com «el paredon» em estilo cubano os colegas e os «grupinhos» (os «grupinhos» são as suas varizes) da «Imprensa contra a Nação». Mal da Nação se a «Imprensa pela Nação» fosse a que ele abrilhanta.
Vem outro, e - tem graça! - também de pera em naifa, ruge impropérios contra quem chama traidores e antipatriotas (pobre da pátria que o pôs, se não fosse melhor servida!), sugere o fechamento de jornais, talvez porque se negaram à sua prosa que não escolhe poiso e esquecendo na precipitação polémica que, até porque isto de políticas é, como ele bem sabe, coisa sujeita a grandes contingências e reviravoltas, sempre será melhor haver mais jornais que menos, não só para os jornalistas mas até para os pseudos.
Oh!, senhores! como eles andam mausões!...
O pior é que - e só por isso eu dedico estas linhas aos pseudos - eles berram, barafustam, gesticulam e esbravejam e devem cada vez mais considerar-se certos e infalíveis, perante o silêncio de quem não quer e não pode, pô-los nus na praça pública, revelando-lhes a estatura e as mazelas.
Acabavam-se os pseudos. Calavam-se os activos, desiludiam-se os passivos, divertia-se a multidção, era uma santa higiene.

[A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano IV, nº 77, 18 de Maio de 1963, p. 12 e 11]

domingo, 14 de outubro de 2012

NEGRÓFILOS E NEGRÓFOBOS


Ninguém é obrigado a conhecer esta matéria, trata-se de coisa novíssima.

Assim como, a todo o momento, a ciência, em permanente evolução, em eterna busca e ininterrupta conquista, nos oferece mais um ramo, um diferente caminho, também a ignorância - oh! a bruta, a fera, a mexida ignorância - nos revela uma novidade, nos desvenda uma vereda inesperada, nos agride com um atrevido rebento.

E nós, os pobres homens, trocamos os olhos entre os pratos da balança, num deles Einstein, sereno, esclarecendo o Universo; no outro, D. Cretino Polit y Castro, aos pulos, não deixando a balança quieta.

A mim, por exemplo, chamaram, outro dia, negrófilo. Fiquei aflito, quer será isso, meu Deus, fui ver ao dicionário. Não porque eu fosse incapaz de recorrer à etimologia, por acaso sabia muito bem decompor a palavrinha, negro é preto, filo vem do grego, philos, quer dizer amigo, negrófilo seria amigo dos negros, nada de mal, pelo contrário, eu era uma pessoa decente, bem formada, um tipo fixe, sim senhor.

Ora o dicionário confirmou o meu humilde saber, fiquei sem perceber qual fora a ideia de me acharem aquele senão. O Cândido de Figueiredo só acrescentava que negrófilo também se chamava ao partidário da abolição da escravatura, mas isso não podia ser, olha o disparate, escravatura já não há.

Cismei uns minutos, não muitos, que eu por acaso até gozo de uma certa agilidade mental, e optei por averiguar o que seriam os meus acusadores, o que sentiriam, o que pensariam, para me censurarem aquilo. (Note-se que eu nem estava zangado ou ofendido com eles, pois se tratava, inegavelmente, de pessoas generosas, concedendo-me imerecidas vantagens no seu julgamento; só é pena, diziam, que seja negrófilo).

Claro está - concluí eu - que verberando em mim tal coisa, os meus estimáveis juízes devem ufanar-se do contrário: o antónimo de negrófilo, não preciso de perguntar a ninguém, é negrófobo. E senhor desta descoberta, iniciei-me na nova ciência, trémulo de emoção investigante. Mentalmente, espichei o indicador direito e apontei para mim: eu sou negrófilo; eles são negrófobos, e apontei para eles.

Cândido de Figueiredo sorriu-me e confirmou: negrófobo é o que tem negrofobia; negrofobia é ódio aos negros: Ai!!! que susto!...

Juro que tive um arrepio de horror, quando cheguei ao fim do meu ordenado raciocínio. Não por mim, que estou a coberto da lei, mas por eles, coitados, pessoas consideradas sérias, com responsabilidades, usando um ar severo e uns nomes respeitáveis (bem sei que alguns são uns pobres vagabundos, embora de analfabetismo muito actuante, em todo o caso seres humanos), por eles, sim, pobrezinhos, fiquei eu assustado, pois se a Lei é Lei e a Constituição vale, se a Civilização ocidental, se os princípios cristãos que enformam a nossa estrutura social, etc., se a nossa blandícia de costumes, oh coisa doce sem par no Mundo, se tudo isso, que a gente sabe e ouve e lê, tem valor, se, enfim, há sinceridade nisso; então não resta dúvida nenhuma de que esses desgraçados - que pena eu tenho das famílias! - estão aqui, estão todos presos.

A Polícia deve andar de olho neles. Com certeza, tem os negrófobos todos fichados e sob constante vigilância, pois que suspeitos são eles, os insensatos, de traição ao que há de mais sagrado, ao sangue dos ancestrais, à própria razão de ser da Lusitanidade, alastrando por todos os continentes, diversificada em tantas raças, mais feita de negros que de brancos.

Ai! dos negrófobos! Ai! dos traidores!
Que segurança dá ser negrófilo, estar-se a coberto da Lei, protegido pela Autoridade!

[A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano 4, nº 68, 28 de Fevereiro de 1963, p. 12 e 10]

domingo, 18 de dezembro de 2011

A PROPÓSITO DUM COLÓQUIO: DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO E PROMOÇÃO SOCIAL


Assisti, há dias, a um colóquio que se realizou na sede da Associação dos Naturais de Moçambique, sobre o tema de «promoção social das populações», do qual se ocupou, primeiro, o dr. Velez Grilo, em interessante dissertação, ficando, depois, à disposição das numerosas pessoas presentes, para o debate que se seguiu.
Sem pretender atribuir a ninguém as culpas do facto, quero aqui somente registar um engano grave e geral, que veio desde o princípio e se manteve a dominar o colóquio até ao fim, reflectindo, aliás, uma confusão estranhamente generalizada na opinião pública, possívelmente em resultado da acção mal definida de certos serviços.
Assim, aconteceu no colóquio que a maior parte das pessoas se ocupou num dilema incrível: desenvolvimento económico ou promoção social?! Qual mais importante? Qual mais urgente? Antes, já se falara de instrução, e, por isso, houve quem, solicitamente, explicasse que isto de promoção social é coisa que tem de ser feita com um bocadinho de tudo, algum desenvolvimento económico, algum ensino, enfim uma saladinha jeitosa, sem mão pesada nos temperos; tendo sido admitido que sim, senhor, assim era, acrescentando-se mesmo, com algum espírito científico (usando-se já uma técnica não de salada mas de cocktail) que assim era até certo ponto.
Mais adiante, no decurso do mesmo colóquio, perante as arremetidas teimosas dos campeões do desenvolvimento económico, preferindo-o até à promoção social, foi a tolerância ao ponto de se admitir, que, lá diz o ditado: «casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão»... Donde me pareceu querer-se insinuar que, de facto, é conveniente que as pessoas tenham algo de comer para se pensar em promovê-las socialmente. Será isto?!
Por outras palavras, entende-se que, se queremos ensinar pessoas a estar à mesa, convém que antes lhes justifiquemos o acto de se sentarem a ela.
Em resumo: salvo o devido respeito por todos os intervenientes, deu-me o referido colóquio a impressão de se estar fora ou não se querer mesmo entrar nas realidades que nos deviam ocupar não só por palavras, mas, principalmente, por obras, comportando-se ali toda a gente, afinal, como se não soubesse muito bem o que é essa coisa a que chamam promoção social. E para aumentar a confusão ainda veio decisivamente contribuir a informação de que no estudo do Plano de Fomento se sentiu a necessidade de constituir uma comissão de promoção social, dando a ideia de que superiormente se verificou que a promoção social também é necessária ao fomento da economia e não esta uma condição indispensável, a primeira e a mais importante de todas, para se alcançar aquela.
Claro que eu estou a falar de Moçambique, porque suponho que era de Moçambique que no colóquio se tratava. E, neste pressuposto, não concebo, não sou capaz de acompanhar o raciocínio, as especulações e o fraseado de quem quer que seja que pretenda propor, solicitar e estudar soluções para a promoção social dos moçambicanos sem partir da elevação do nível económico da sua vida. Pois o que será promoção social de quem precisa, antes de mais coisa nenhuma, de ser alimentado, de ser alojado convenientemente, de ter saúde e de ser instruído?! Não vejo nem ninguém vê como se possa educar um povo, elevá-lo socialmente, sem lhe dar o pão suficiente, a casa digna, o hospital onde se trate e a escola onde aprenda a ler. Tudo quanto se fizer, antes de isto, ou se pretenda fazer à margem disto, será lirismo, será o carro à frente dos bois, será insensatez. Pois que na consecução desses bens essenciais já se contém uma valiosíssima elevação social, porque económico-social será esse progresso, que, aliás, todos o sabemos, Santo Deus! não pode ser progresso económico sem resultar em elevação social, nem pode ser progresso social sem ter sido elevação económica.
Ora, no caso que nos interessa - os povos de Moçambique - a promoção social deles terá de ser e será, por certo, o verdadeiro objectivo, a única meta de toda a acção governamental, de todo o trabalho público, de toda a acção consciente dos cidadãos responsáveis. Promoção social não pode ser o âmbito do trabalho limitado duma pequena repartição encaixada numa comissão que estuda um plano de fomento; a promoção social das populações está acima e à frente desse fomento. Para a promoção social das populações se fazem estradas, se constroem hospitais, se erguem escolas, se criam universidades, se contratam professores, técnicos, cientistas; para a promoção social das populações, há impostos, há governos, há política. Temo verdadeiramente que os nossos colóquios não cheguem.
Não sei ao certo donde nasceu agora esta ideia de promoção social como ciência infusa, mas desconfio, já disse, que resultou de recentes serviços de acção confusa. Entretanto, o que penso é que seriam de enorme utilidade aqueles colóquios em que pudesse participar livremente a opinião pública de Moçambique - através dos seus órgãos legítimos, os jornais - tendo por temas todos os capítulos desse programa geral e completo que se pode chamar de promoção social das populações; certamente apareceriam vozes numerosas e de valia a debater os assuntos de economia, saúde, instrução e cultura, enfim, a falar de promoção social.
Para terminar darei um exemplo do que pretendo referir: naquele coloquiozinho, a certa altura, fomos informados de que, por cálculo do administrador Rita Ferreira seriam necessários ao Governo 750 mil contos por ano para prestar às populações rurais uma assistência proporcional aquela de que beneficiam as populações urbanas. Isto é, para se resolverem os problemas mais urgentes e mais gritantes do mato, seriam gastos 750 mil contos anualmente.
Esta revelação deu-me uma alegria enorme no primeiro impacto e fez-me ficar tristíssimo quando pensei melhor. A alegria nasceu-me de ter achado barato; eu pensava em muitos milhões de contos, coisa de americanos... Mas fiquei triste, logo que me lembrei que, afinal, nem isso se gasta, porque não se pode gastar quando se distribuem verbas segundo uma escala de valores e numa ordem de prioridades, etc e tal, continuei pensando por aí fora, mas nem vale a pena escrever, não é verdade?
Ora, esta! Setecentos e cinquenta mil contos... Só?!
Então não me falem de promoção social.

[A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano IV, nº 78, 25 de Maio de 1963, p. 12]

terça-feira, 4 de outubro de 2011

AINDA AS LOTARIAS: MAIS UMA SUGESTÃO


O assunto «lotarias» continua em pauta e, pelo que se lê, teve o condão de interessar muita gente, que se manifesta com entusiasmo nas colunas dos jornais. Não quero ignorá-lo e já que sobre ele também tenho opinião, aqui a ofereço.
Ponho o problema assim: a lotaria é um jogo de azar; os jogos de azar são um vício; logo, a lotaria é um vício. Por isso, a solução mais corajosa e mais conveniente à sociedade que constituímos em Moçambique seria proibir as lotarias todas, terminantemente. Mas poderá alegar-se (e teremos que aceitar, como a tantas outras vergonhas e covardias colectivas, chamadas «males necessários») que a lotaria é útil, pois que da sua exploração basicamente desonesta, se colhem proventos destinados a sustentar obras de assistência social. Pode-se, assim, considerar a lotaria um mal necessário, consequentemente de falta de justiça social e, neste pé, admita-se, encarando-se o problema com o inválido espírito cordato, que solicita «do mal, o menos».
Agora, interessa averiguar o que mais convém, no caso de Moçambique: se a continuação da venda, aqui, da lotaria chamada nacional, com a supressão inevitável da lotaria dita provincial, se a proibição daquela venda e a ressureição da finada lotaria de cá. Não percamos tempo a cuidar das possibilidades de coexistência de ambas no nosso mercado, pois provaram os factos a sua impraticabilidade e até o Provedor da Santa Casa da Misericórdia, que esteve cá, afirmou que a lotaria provincial só se manteve bem enquanto não teve concorrência.
Neste ponto, vejamos o que pesa a favor e contra cada uma das lotarias:
A favor da «provincial»: - contribuiu valiosamente para a Assistência Pública de Moçambique e parece que só começou a contribuir menos, quando passou a vender-se mais, aqui, a lotaria da Metrópole;
- Os seus prémios são pagos obrigatoriamente cá, em moeda aqui emitida, e não implica grossas transferências de dinheiros para fora da província, nem por parte da Administração da própria lotaria, nem por intermédio das firmas que se dedicam à sua venda;
Contra ela: - só conta o facto, comum às outras, de constituir um vício, o da jogatina generalizada, ao alcance de todos.
Considera-se a favor da lotaria nacional o seguinte: - contribui substancialmente para manter a obra assistencial da Santa Casa da Misericórdia, na Metrópole e também ajuda valiosamente a Assistência de Moçambique;
Em contrapartida: - como é lógico e admissível canaliza para a Metrópole um nutrido caudal de dinheiros, afectando notavelmente a economia da província, que, em vez de ser sangrada, precisa de ser robustecida; numa época em que tanto se procura evitar importações, reduzindo-as ao mínimo e, às vezes, abaixo desse mínimo, não está certo que se importem toneladas de bilhetinhos coloridos, bem caros, fazendo-se um negócio em que matematicamente se perde, pela própria natureza do jogo;
- por outro lado, não menos importante - ou mais grave ainda - possibilita esssa lotaria o exercício ilegal de transferências, em rendosas negociatas, feitas por quem não tem no comércio de lotarias o simples interesse desse ramo.  - É grave o que digo? - Sim, é grave. Mas fala-se, por aí, muito, dum verdadeiro mercado negro de cambiais e daqui chamo para isso a atenção de quem tem o dever de averiguar o facto e punir os «contrabandistas de escudos», quer os que fizeram o jeito, castigando com todo o rigor, seja quem for que tenha participado nas operações. É difícil, bem sei; mas vale a pena, pois é altamente injusto, é criminoso que, enquanto gente pobre tem dificuldades, ou, pelo menos, tem de cumprir formalidades legais, ao transferir uns magros cobres para a família, simultâneamente a lotaria duma Casa que até se chama Santa, sirva de capa aos transfugas do capital e de veículo de evasão de verdadeiras fortunas.
Um inquérito a isto, feito por gente capaz e independente, é coisa que se impõe, com urgência.
Entretanto, para que à minha prosa não falte nenhuma característica de crítica construtiva - coisa mal definida que se exige muito aos jornalistas - aí vai a indispensável sugestão:
- Proíba-se a venda, em MOçambique, da Lotaria de Lisboa; restabeleça-se a Lotaria Provincial; e ponha-se esta a contribuir com uma percentagem para a Santa Casa da Misericórdia. Embora não faça muita falta, à Administração da lotaria nacional, este tributo - como se conclui do que disso o dr. Melo e Castro - com ele ficariam tranquilas as nossas consciências, pois não seria furtada, à obra assistencial da Santa Casa, a nossa ajuda. Assim, continuaríamos a colaborar com essa benemérita instituição, sobre a qual, conforme palavras do seu Provedor aqui proferidas, pesa «a maior parte da responsabilidade pela protecção social da cidade de Lisboa, onde vão desaguar infelicidades e carências de todos os territórios portugueses».
Ao fim e ao cabo, só se estragaria um negócio, que não justifica especiais contemplações, em face do interesse geral.

[A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano 3, nº 46, 31 de Março de 1962, p. 1 e 11]

segunda-feira, 7 de junho de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (última parte)

O compadre Tomás apanhou-o na queda e meteu-lhe um ombro sob o sovaco, puxou-lhe o braço à roda do pescoço e levou-o, de pernas bambas, pés a arrastar, os dois aos bordos, numa solidariedade forçada. O compadre Tomás, enfermeiro do Quadro de Saúde, ia a pensar na vida do João e perguntava-se a si mesmo, se fazia bem ou mal em levá-lo a casa. Ao mesmo tempo ia reparando em que a viagem, assim, era nervosa e cansativa. Quando chegaria ele, Tomás, à sua casa? E pensava, Tomás, que entraria de serviço na manhã seguinte, bem cedo. João resfolgava. Que idéia a tua João!

*

Por mim, minha amiga cidade, vou apagar a luz na mesa de cabeceira. Cansado e tentado a não ter esperança. Mas sei que acordarei com um sol doirado e quente, em céu escandalosamente azul, a envolver-te completa, nos arrebiques e maselas, no riso e no choro, na música e nos gritos, nas flores e nos charcos, nos prédios e nos barracos, no amor e na briga de todos os contrastes, dando-se na mesma dádiva às trezentas e cinqüenta mil pessoas de que és feita. E o sol, minha amiga, minha mais bela cidade do mundo, o sol nasce agora às seis e trinta e seis. Nasce fatalmente!

FIM

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domingo, 6 de junho de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (05)

Também varam a noite outras mulheres, sem filhos no dorso. Sem filhos no dorso, que atrapalhariam o “twiste” . Entram com a sua parte no coquetel do grande “show” nocturno, misturando-se com as espanholas e as gregas e as transvalianas, da cançoneta e do baile. São elas as encarregadas do “tic” exótico. Como começaram, como vão acabar, oh! la, la! – isso é que interessa? Para já, bebem e fumam, dançam e divertem.

*

Rápida corrida para os cinemas. Rápida corrida para casa. Um atrasosinho para meio bife. Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Lourenço Marques, a moderna capital da província portuguesa de Moçambique, é uma cidade que cresce espectacularmente.

Os jornais, esta manhã, dizima todos o mesmo. Os que não diziam o mesmo diziam, obrigatoriamente disparates. Os que não diziam disparates não diziam nada. Mas será verdade o que eles dizem?... E o que eles não dizem, será verdade?...as consta, me garantiram-me ... Deixe que eu pago os cafés. Até amanhã.

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Antes de ir para a cama, ainda quero dizer que Lourenço Marques é uma cidade acentuadamente desportiva. As piscinas, os “courts” de tênis, os estádios abertos e cobertos, o Eusébio. Agora temos uma estação aéreo muito melhor para receber hoquistas.
Pronto, as redações fecharam. Ficaram os impressores a fazer os jornais. Só falta cumprir a conversa de bar. Começa em nobreza: a “cidade de caniço” foi o grande assunto jornalístico deste ano; devemos comprometer-nos a explorá-lo toda a vida. Concordam? Tudo concorda. Mais adiante umas garrafas, surge a primeira discrepância. Pequena. Depois outra, maior. E outra e outra. Vem a mãe das discrepâncias e cerra o horizonte da bula-bula. Só há uma solução: cada um fala do seu assunto. E vários monólogos simultâneos dão todo o esoterismo da conversa de bar.


(Continua...)
 
Foto do de Ricardo Rangel, que tratava Gouvêa Lemos como "meu Mestre".
Fonte: Blog ZAN AFRICAMAGAZINE
 
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quinta-feira, 3 de junho de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (04)

Sobretudo a praia, a praia principalmente. Eis o grande atractivo turístico da turística Lourenço Marques. É certo que há os camarões e os lagostins. É certo. E as lojas dos chinas e a arte indígena. O ambiente muito continental dos hotéis e a pincelada ibérica das touradas. E a hospitalidade, também, de que as turistas (nem sempre) se queixam. Mas a praia, sim, é que dá o tom. Por isso a marginal é o que é, e se tornou obrigatório rodar por ali, doze quilômetros a ir, doze quilômetros a vir. E por isso, também o Sr. Alves Pinheiro se embasbacou e falou dos “seus clubes navais”... Por trás dumas grades acampam turistas vermelhos que comem bananas. A gente vai vê-los, quando eles não estão comendo bananas e sim a porem-se vermelhos sobre a areia. Convencionou-se que elas são todas “giras”, o que dá uma certa alegria à rapaziada, que se embebeda, também convencionalmente, com coca-cola.

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Do sétimo andar caiu um belo vasinho de avencas. Escarrapachou-se no tejadilho do Hilman do senhorio. Um magnífico fim de tarde, prenhe de interesse, espumante de agitação. O senhor Freitas, seu marido, prefere a pesca de paredão. Ao menos ali, ninguém o chateia nem fala de ninguém. Deixou foi de levar o “transistor” para pousar na balaustrada, pois afastava os safios.

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Além da pesca desportiva, há a outra, sobre qual as teorias são diversas, parecendo, porém, provado que nas águas do Canal de Moçambique pescam bem os japoneses. Entretanto poveiros em traineiras, gente de Marracuene em “tatarjos”, indianos em barcos à vela, lá vão trazendo o teu peixe, amiga cidade. Arrancado a pulso, com saber e paciência, ao teu amado Índico. Mulheres, de filhos no dorso, varam a noite, metidas na água salgada até às coxas, caçando mariscos para o teu caril dominical e para ornamento da rendosa “season”. Peixe e mariscos para regatearmos bem regateados, que a visa, assim a subir... mas que grande roubalheira!


(continua...)
 
Foto da Marginal de Lourenço. Pescada no blog Diary of a Stay at Home Mom
 
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quarta-feira, 2 de junho de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (03)

Negros Mercedes-Benz são lavados sob alpendres das moradias, no Sommerchield; fardas de impedidos, paletós de motoristas, fardetas de moleques passam as cancelas de ferro. O pão já veio. Saem meninos para a escola. Lá para a rua Nevala, comanda um clarim com voz de galo. O Grêmio Civil ainda tem os vidros embaciados e já o sol toma banho na baía. É verdade: na baia, convém que um navio apitasse. Embora a chuva que há-de vir já traga, à cidade inteira, os silvos das locomotivas em manobras. E uma ambulância corra, tão cedo, com a sirene a gritar, pela Pinheiro Chagas, levando a mulher que ia tendo a criança na rua. Suponho que já chega de música de fundo, com a ubíqua motorizada na bateria.

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Cai toda a gente no afã de ganhar a vida consumindo outro dia. Tilintaram relógios de ponto. Chaminés largaram uns fumos de indústria. Caixeiros iniciaram o eterno dobra-e-desdobra das peças de tecido. E as barcas da Catembe vêm e voltam , carregando e descarregando gente, cestas e cangarras. Nos mercados municipais ou furtivos agitam-se figurantes em cenário de natureza morta. Compradores e vendedeiras fazem torneios de voz alta. A bela Juju ainda na cama, acorda e boceja; só agora dá conta, em câmara lenta, da noite que foi a noite passada. – Ahahnnn ...., foi demais, ela própria confessa, e enovela-se em busca do sono, que ao fugir, a deixa nua diante de si. . Vamos fugir da Juju, que ela vai chorar.

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Entretanto, lembremo-nos dela, ingenuamente fingindo de ingênua-bardot, a passar na Avenida da República, rentinha às mesas do Continental, entre as cinco e cinco meia da tarde. Não há lugares para mais ninguém nem é preciso haver, que estão lá todos do costume. As pessoas falam uma com as outras, não se olhando, pois o olhar é preciso para quem passa. As conversas... ora para que falar das conversas? Não interessam e nem podem interessar até porque, se interessarem, quem as apreciaria mais não seriam os interlocutores mas aquele sujeito da mesa ao lado; quem é ele, que faz ele, que está sempre na mesa do lado?...

(continua...)

Foto: Av. da República, Lourenço Marques na década de 60. Foto apanhada no Blog "Rua dos dias que voam"

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terça-feira, 1 de junho de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (02)


São quatro e meia da manhã e o vermelho machibombo arranca em frente do Bazar do Xipamanine, com os seus cigarros “king size” e seus sorrisos de dentifrico nos lombos, carregando lá dentro sob as luzes amarelas cinqüenta e tal estivadores, rumo à Praça Mac-Mahon. Que é do sol, que ainda não veio alumiar estes heróis no avanço do cais Gorjão, onde vão manusear às lingadas o pão nosso de cada dia? Que é do sol, que se guarda para acordar a Polana?!
Minha amiga cidade, atenção a esse sol, não vá ele aburguesar-se.

*

Pela Avenida Craveiro Lopes, já vem chapinhando na água das chuvas, chap-chap, os pés descalços no leito do asfalto do rio parado, o mainato, os moleques, os cozinheiros, os mufanas, as mamanas, os serventes, os ardinas. Os camiões de lixo recolhem. Os de leite circulam. Na Caldas Xavier galopa uma carrinha de quatro cilindros, trabalhando em três e batendo os guarda-lamas, com um cão a ladrar-lhe. Leva galinhas, ovos e papaias.

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Mesas empilhadas e cadeiras encolhidas junto das cervejarias, água e vassouras espreitando às portas, criados retirando as latas vazias de lixo, vai começando o ronronar contínuo dos motores de toda a casta de bichos com rodas, e – bom dia Lourenço Marques! – o sol já nasceu sim senhores, que as empregadinhas já pisam , e pisam bem, e ainda bem que pisam, as ruas que descem para as lojas, para os armazéns, para os salões, para os escritórios, para as repartições, ah! as empregadas já vêm, faladoras, os cabelos cacimbados do chuveiro, ó cidade amiga, elas dão-te mais graça, elas são mais frescas, elas são mais repousantes que todos os parques e jardins!

(continua...)
 
Foto: Café Continental e um machibombo vermelho. Foto do site NRP Álvares Cabral F336
 
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (01)

Vou hoje começar a reeditar a crônica “PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE”, de 24 de Julho de 1963, de Gouvêa Lemos quando este escrevia para o jornal “Dário de Moçambique” da então Lourenço Marques.
Uma crônica, como muitas dele, que fazia fundir o cronista ao poeta. A poesia que “homenageava” a sua Lourenço Marques com o olhar critico sobre os contrastes das diferenças sociais da então capital da província.
Colocarei a mesma por partes, pois cada parágrafo desta crônica já por si merece ser lida como um instantâneo daquela Lourenço Marques, e desta forma dividirei com os leitores.

Zé Paulo


PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE

O sol nasce agora às seis e trinta e seis, mas continua a nascer no mar como em todo o ano. No lado noroeste da cidade não esperam por ele para começar o dia; usam madrugadas com lua, auroras de pobre.

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O Samuel, que é um contínuo num terceiro andar da baixa desde as sete às dezassete e come o farnel à sombra de árvores, chamadas em latim no Jardim da Gama, e vai à noite às aulas da Industrial, mora as restantes quatro horas no Chamanculo. Chega ali já noite alta; sai de lá antes que a noite finde. Samuel é um morcego que sonha ser pássaro. Minha amiga cidade, Samuel será pássaro, não será ?

(continua...)

Foto: Site "Moçambique Mozambique - Fotos para divulgar"

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sábado, 22 de maio de 2010

Natal - 70

Como havia comentado no post anterior, coloco agora o segundo poema que o José Moreira de Carvalho tinha guardado junto a outros seus pertences. É um poema recheado de saudades de uma filha que pela primeira vez não passava o Natal junto a si e a todos nós.
Haviamos perdido a Joãozinha em 1970 com paludismo, na época na Beira quando recem havia completado 8 anos de idade.



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quarta-feira, 19 de maio de 2010

epigrama porventura válido

Coloco hoje aqui um poema, da década de sessenta, que há muitos anos não o lia. A folha datilografada pelo próprio Gouvêa Lemos, com algumas correções feitas também pelo próprio, estavam guardadas por um Tio, o José Moreira de Carvalho, junto com outro poema, que aqui também colocarei por estes dias, e a outros seus pertences.
O José Moreira de Carvalho, cunhado do Gouvêa Lemos, em outros tempos farmeiro na região de Vila de Manica, foi sempre um grande admirador e irmão do GL, e só isso o faria guardar por tantos anos estes dois presentes que acaba por nos presentear.
Obrigado Tio Zé!

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sábado, 15 de maio de 2010

As cartas anônimas

[In: Notícias da Tarde, Lourenço Marques, ano VI, nº. 1:680, 27 de Novembro de 1957, p. 1]

Estou a ouvir aquela voz nortenha, franca e sã, com ressaibos de Miragaia, da Hora dos Pobres. O paciente senhor queixa-se das cartas anônimas que recebe e, muito a propósito, declara que mais valia terem ficado analfabetos os seus autores.
Tem razão.
Isto de saber ler e escrever começa a ser uma coisa horrível. Pelas libertinagens que ocasiona e pela coacçöes e inibições que traz.
- O senhor doutor sabe ler e escrever?
- Sim. Infelizmente, sei.
Também tinha razão o bacharel, que respondia ao burocrata.
É uma carga de trabalhos este dote de - tão simplesmente - saber ler e escrever. O que nos faz ler! O que nos apetece escrever...
Mas as cartas anónimas, essa miserável cloaca, para onde convergem os recalques e as misérias dos tais - que sabem ler e escrever é uma necessidade lamentável e tristíssima, como outras chagas de humanidade, que subsistirão, enquanto a humanidade não for melhor que isto. São a única justificação, a simples aplicação de muito diploma de instrução primária.
O único remédio conhecido, que pode resultar alguma coisa, na profilaxia de tal moléstia, é a coragem de não ler as cartas anónimas.
Dominar a curiosidade, o sadismo, o masoquismo e antes de percorrer com os olhos todas as linhas, atirar ao lixo esses documentos de baixeza.
Mais efectivo, mais radical seria não aprender a ler.
Eu vou mesmo ao ponto de propor uma campanha de analfabetização.
Começa a haver gente de mais, que sabe ler e escrever...

domingo, 9 de maio de 2010

Por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher...

Há uma famosa frase que diz que “por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher”.
Em nossa casa isso sempre ficou bastante evidente, tanto quando o Pai era ainda presente fisicamente como depois da sua partida.
Para homenagear a companheira de Gouvêa Lemos neste Dia das Mães no Brasil, coloco aqui hoje uma crônica do José Craveirinha desenvolvida em cima de uma carta que a Mãe lhe enviou poucos meses depois do falecimento do Pai, ainda em 1975, mas quando nós já havíamos retornado a Moçambique e tínhamo-nos instalado em Vila Pery.
É esta uma homenagem que faço à Mãe pelo Dia das Mães mas é também uma obrigação de aqui deixar formalizada a importância da Madalena como companheira de Gouvêa Lemos.

Foto: Madalena e Gouvêa Lemos


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sábado, 1 de maio de 2010

“Dignidade no Trabalho”

Em homenagem ao Dia do Trabalhador transcrevo aqui uma crônica do Gouvêa Lemos de 1963 no ambiente de um Moçambique colônia onde, naquele período, atingiu um dos picos da hipocresia deste sistema colonialista pilotado por uma ditadura fascista.
Felizmente já haviam pessoas como Gouvêa Lemos que percebiam como o sistema funcionava, mas infelizmente eram ainda poucas. Ainda que nem todas, como Gouvêa Lemos, não fossem vozes carimbadas pelas "frelimos" principalmente de hoje.
A foto que coloco aqui para ilustrar parte dessa hipocresia é do grande fotógrafo Ricardo Rangel.

Zé Paulo


“Dignidade no Trabalho”
[Coluna “Teclado Universal” de Gouvêa Lemos – Jornal Tribuna – 1963]

A dignificação do trabalho é uma bela meta. Aliás antiga. Trata-se de expressão que faz voga e continua a brilhar em discursos de circunstância, especialmente em festas de confraternização de patrões com o seu pessoal. Trabalhai que é bonito, dizem os patrões.
É digno, diz o capital. Seja como for, já hoje ninguém duvida de que ao trabalho deve a humanidade a caminhada cumprida, e no trabalho busca a humanidade redimir-se. No trabalho físico, no trabalho do espírito.
Assim, à primeira vista, qualquer campanha desenvolvendo-se onde quer que seja, no sentido de encaminhar ao trabalho quantos não trabalham, é coisa elogiàvel; resta saber se será eficiente em quaisquer circunstâncias. Se não será demasiado empírico o simples convite: Meu filho, trabalha que trabalhar é bonito. Se, de facto, ao contrário do que se deseja, não está a agudizar-se uma fome, em vez de satisfazer-se uma necessidade. Interessa interrogarem-se os promotores de propaganda psicológica a favor do trabalho, se deve enfrentar-se uma discutível propensão para a indolência de qualquer agrupamento humano, ou uma bem palpável ausência de oportunidades verificada em determinada zona geográfica, para os seus habitantes se realizarem no trabalho.
Claro que seria errado partir-se do pressuposto de que um grupo étnico tivesse qualidades intrínsecas, de natureza rácica, contrárias à necessidade humana do trabalho e que fosse, em consequência, necessário assentarem-se as baterias duma campanha contra o fatalismo de tais características. Claro que seria errado ignorarem-se todas as verdadeiras razões que mantém milhares ou milhões de seres afastados do trabalho regular e justamente remunerado, razões de ordem económica e social.
No caso concreto da anunciada acção psicossocial para dignificação do trabalho, com cartazes a tudo, oferece-se como questão fundamental, antes de mais nada, esta pergunta: em quê, onde vão eles trabalhar?
A profunda remodelação dum território como Moçambique, em estado de subdesenvolvimento, a revolução económico-social dum país, como a que se dá mostras de pretender-se, não pode operar-se por parcelas, desencontradamente, atacando-se consequências em vez de eliminarem causas, procurando-se coçar a comichão, em vez de tratar a sarna.
É preciso não desconhecer a crise de desemprego que é notória, entre os africanos, mesmo em aglomerados populacionais como Lourenço Marques, oferecendo maiores possibilidades de trabalho. Assim, chega a tomar aspectos – como direi? – cínicos, aconselhar o trabalho a quem procura, aflitivamente, trabalho.
E quanto a Moçambique inteiro – o que se impõe, o que é urgente? – o seu rápido desenvolvimento económico, a sua ocupação agrícola, a sua industrialização, criando-se assim uma larga e permanente absorção de mão-de-obra, com pagamento certo e suficiente, para a dignificação do trabalho. E os trabalhadores surgirão, aos milhões, em busca de elevação do seu nível de vida, em procura de “dignificação” da pessoa humana, faltando só à chamada natural os indolentes de sempre e de toda a parte, na Europa, na Ásia, na África, na América e na Oceânia.
Cria-se o clima, proporcione-se o ambiente, fabriquem-se condições autênticas, que o resto virá por acréscimo.
De maneira que, pode afirmar-se, mais uma vez, o que é preciso é o progresso que tarda, para em todos os sectores da vida humana de Moçambique, se realizar o milagre que esperamos. Sem cartazes.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

GOUVÊA LEMOS - Por Eugénio Lisboa

Os jornais noticiaram abundantemente a morte do jornalista Gouvêa Lemos. Que um homem tão pouco acomodatício tenha despertado uma tal unanimidade de tom nas notícias publicadas nos jornais das mais diversas orientações - eis, desde logo, uma indicação: Gouvêa Lemos era respeitado mesmo pelos que dele discordavam. Digamos que havia nele um não sei quê que desde logo se impunha. Talvez a sua bondade. Talvez a sua afabilidade. Talvez, sobretudo, o saber-se que era um dos raros homens que estava disposto a pagar com a própria vida o preço das suas convicções mais profundas.
Várias vezes o vi em sérias dificuldades - e estou talvez a dizer pouco: alguma vez o terei visto à beira da rotura total. Nunca notei, nesses momentos, que mostrasse, fosse como fosse, que o desespero o devorava.
Ficava-se amigo dele com facilidade - e ficava-se para o resto da vida.
Como jornalista, era muito mais do que um profissional sério e cheio de vivacidade. Tinha um estilo próprio. Qualquer texto seu, além de ser um modelo de literatura jornalística, era também um texto literariamente muito pessoal. Gouvêa Lemos escrevia bem, tinha o gosto da palavra única, aquela que, inesperadamente, entra em ressonância com a ideia que se quer percutir. Era um escritor genuíno.
A sua malícia estilística escondia um pouco o homem. Quem o lesse não deduziria dos textos o personagem que depois emergia. Estes eram por vezes mordazes, contundentes, aqui e acolá, méchants. Faltava, a temperá-los, o sorriso bonacheirão, a suavidade da voz e a doçura do olhar. De resto, falava como escrevia, mas, falado, deixava uma impressão diferente e mais suavizada.
Era sobretudo um homem de coragem, no plano profissional e no plano privado. Amava a profissão de cujos privilégios e autonomia era intransigentemente cioso. Tinha o brio próprio do técnico competente e odiava por isso a intromissão atrevida e volátil das aves de arribação.
Suponho que sabia exactamente o estado precário da sua saúde. No entanto, sempre que discretamente o sondávamos, mostrava-se animoso e cheio de planos. Creio que se tratava mais de sossegar-nos a nós do que de sossegar-se a si próprio. Era corajoso mas, com a sua peculiaríssima tolerância, não via razão para que os outros o fossem também. Por isso nos aquietava.
Partiu para o Brasil e não voltou. Dizem-me que nos últimos dias, já depois de operado, quando se lembrava disto, da terra e das pessoas, chorava. A chorá-lo, pela perda irreparável que a sua partida representa, ficamos nós. Parece que as pessoas como Gouvêa Lemos se demoram pouco neste mundo que é o nosso. Fulgem, - e desaparecem. No entanto, como observava um personagem de José Régio, 'este mundo ficaria mais pequeno se eles não passasem por cá'.

[In: A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano XIII, nº. 363, de 9 de Abril de 1972, p. 2]

sábado, 3 de abril de 2010

38 anos sem o Pai e jornalista Gouvêa Lemos

Há 38 anos, a 02 de Abril de 1972, em um Domingo de Páscoa, falecia Gouvêa Lemos aos 47 anos de idade.
Estávamos, eu e mais 3 irmãos, nas areias da praia de Ipanema no Rio de Janeiro junto a uns tios e amigos destes. Todos na expectativa do Almoço de Páscoa que iria acontecer em nossa casa, cuidadosamente e carinhosamente feito pela Madalena, onde a família iria festejar a Páscoa mas mais ainda o restabelecimento do pós operatório do mais velho dos Gouvêa Lemos.
Lá em cima, no Bar do Castelinho onde antes ele gostava de tomar o seu choop, estava na companhia da sua sempre companheira Madalena e de um dos filhos, o António Maria, e ainda com o proprietário do Castelinho com quem batia sempre um bom papo.
A certa altura, lá da praia, ouvimos da marginal uma freada de carro, uma buzinada. Em segundos, ao vermos que chegava em correria à nossa barraca o Tó Maria, deduzimos que a freada e a buzinada tinham sido causadas pela sua louca e apressada travessia da marginal da praia para logo nos alcançar e nos dizer:
- O pai desmaiou!
O Pai, quando levava um copo de suco de laranja à boca, deixou-o cair e tombou para nunca mais acordar do “desmaio”.
Ali, aos meus 11 anos de idade, perdi a oportunidade de conviver com ele com uma maturidade onde poderia ter aproveitado melhor os seus ensinamentos. Ali os meus irmãos mais velhos, mas não tanto, também perderam o seu herói. A sua companheira, Madalena, assumiu de imediato esse posto, Mãe e Pai.
Mas se nós perdemos, sei também que Moçambique perdeu definitivamente naquele Domingo de Páscoa o jornalista e Homem que ainda tanto teria para doar aquela terra que ele passou a amar quando emigrou de Portugal.
Se Gouvêa Lemos mostrava ter desistido de Moçambique colônia naquele inicio de 1972, quando o deixou para vir para o Brasil, tenho hoje eu a certeza que se não tivesse falecido tão precocemente não demoraria a retornar.
Mas se por muitos anos, depois da ida dele, fui ainda educado pelo meu Pai através dos seus amigos e pela minha Mãe quando me faziam o conhecer pelo o que eles o conheceram, sem medo de errar e fugindo de qualquer aparente prepotência, sei também que o jornalista Gouvêa Lemos deixou legado para o jornalismo, e não só, de Moçambique.

* O retrato do Pai é do pintor e poeta luso-angolano Neves e Sousa.