Por uma carta escrita em Budapeste e enviada a Gouveia Lemos a partir de Paris, a PIDE abriu-lhe mais uma ficha a 15 de Novembro de 1968. Uma carta que nunca lhe chegou às mãos...
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Morre mais um pedaço da história da imprensa moçambicana?
Ser filho do Gouvêa Lemos deve ajudar a ter um sentimento de
injustiça pela memória curta de grande parte de moçambicanos e portugueses em
relação à sua importância no jornalismo luso-moçambicano nos tempos de
Moçambique colônia.
Entendo que as novas gerações não saibam quem foi o
jornalista e assim não conheçam a sua história. Mas me entristece que pessoas
ligadas ao jornalismo moçambicano, e português, alguns que foram ainda seus
contemporâneos, não busquem colocar o seu nome em evidência pelo menos quando
as circunstancias assim apontam. O mundo anda, nós envelhecemos, e assim nos
últimos anos temos perdido importantes personagens da imprensa e da literatura
que foram testemunhas vivas e atuantes
de uma ditadura colonial e que com as suas penas e tinteiros digladiaram com as
injustiças daqueles tempos. As lutas eram tão intensas que as suas necessidades
pessoais, e das suas famílias, ficavam quase sempre em segundo plano. Não
morreram com balas no peito, mas perderam anos das suas vidas pelos ideais em
que acreditavam.
Gouvêa Lemos foi um desses homens. Um homem justo. Um homem
que valorizava os homens. O poeta José Craveirinha, o fotógrafo Ricardo Rangel
foram dois dos muitos nomes que tiveram o privilégio de conviverem
profissionalmente com o chapa Gouvêa Lemos, como Craveirinha o tratava, e com o
Mestre, como Ricardo Rangel o reverenciava.
Tenho o blogue “Jornalista Gouvêa Lemos” como um espaço para
matar saudades do que pouco tenho acesso das suas crónicas e como uma humilde
forma de dividi-las com leitores que por algum motivo tenham interesse de
voltar ao passado e entender como homens como Gouvêa Lemos conviviam com a
realidade daqueles tempos. Nos três anos que eventualmente atualizo algum
material, foram raras as vezes que fiz referencias ao Jornalista. O foco é
sempre a reedição de alguns dos seus textos, e quando busco fazer algum
comentário o faço como os demais leitores, no espaço apropriado a leitores.
Hoje, pela ocasião do falecimento do seu contemporâneo
Fernando Magalhães e por comentários que me fizeram chegar sobre um texto
editado no jornal SAVANA, de Maputo, acabei por sentir necessidade de fazer
algo como um desabafo, aproveitando para me despedir mais uma vez do meu Pai
quando digo adeus a um seu amigo e colega de profissão. Cada vez que um dos
seus chapas se vai deste mundo, sinto um pouco mais a perda do Pai. Creio que
isso esteja relacionado ao tê-lo perdido muito miúdo. Tinha eu os meus 11 anos
de idade, e como filho era ele, como todos os pais, o meu Pai Herói. Dali para
a frente conheci o Pai e o Jornalista pelos seus amigos e o Pai pela minha Mãe.
No livro 140 ANOS DE IMPRENSA EM MOÇAMBIQUE, editado pela
AMOLP em 1996 com a coordenação de Fátima Ribeiro e António Sopa, Fernando
Magalhães foi escolhido para escrever sobre o seu amigo Gouvêa Lemos. Como
homenagem a ambos, transcrevo aqui algumas das suas frases do texto que
intitulou como “GOUVÊA LEMOS: O HOMEM QUE QUERIA SER JORNALISTA”:
“Conheci o Gouvêa Lemos no início dos anos 60. Ele era chefe
ou subchefe de redacção do Notícias e eu tentava a minha carreira de jornalista
na muito desprezada “Reportagem” onde tínhamos a obrigação de relatar o que se
passava na capital de Moçambique (Província). Fazia portanto a “tabela de
marés”, a meteorologia,...”
“A Censura lia tudo, cortava o que queria e era necessário
saber escrever para a censura. Gouvêa Lemos, irônico, impunha-nos o respeito
pelas técnicas do jornalismo. Destruía com o seu sarcasmo os narizes de cera
que os redactores prestigiados queriam impor. Para ele os rumores iam directos
para o cesto dos papéis ou quando muito podiam ser tratados em crônicas até
porque aquele era um tempo de muitos rumores e poucas notícias permitidas.”
“Não tinha sido em vão que ele passara parte da sua
juventude a trabalhar em jornais brasileiros como o Estado de São Paulo. Só que
por aqui a Censura dava-lhe poucas hipóteses."
“Mas para Gouvêa Lemos a técnica do jornalismo era sagrada.
Foi ele o primeiro a meter-me na cabeça uma das regras de ouro do jornalismo
anglo-saxónico: os factos são sagrados e as opiniões livres.”
“Murmurando contra o cinzentismo do Notícias chegamos a 1962
e quando eu já me preparava para escolher uma profissão mais apaixonante o
Gouvêa Lemos convidou-me para fazer parte dos quadros de um novo jornal que
seria uma pedrada no charco: a Tribuna. A sete de Outubro de 1962, numa noite
incrivelmente quente em que ninguém ligado ao jornal dormiu, saiu o primeiro
número. Claro que estivera para sair alguns dias antes. Mas tal como hoje
amontoavam-se as insuficiências, algumas más vontades paralisadoras e um facto
muito importante: a coordenação do caos de idéias e teimosias de um grupo
numeroso de gente de boa vontade que sabia de tudo, menos do que é fazer um
verdadeiro jornal.
“Coube ao Gouvêa Lemos ser o homem que organizou o caos de
grandes idéias e enormes boas vontades transformando esse caos no que a Tribuna
foi. Um jornal moderno tão bom como os que faziam nas grandes capitais do mundo
e como verdadeiro jornal reflectia o mundo e o Moçambique do momento."
“Um jornal que soube apanhar de surpresa as autoridades
metropolitanas que nem sonhavam ser possível que por cá houvesse conhecimentos
técnicos e atrevimento para se fazer um jornal assim. Um jornal que aproveitava
as hesitações e ambigüidades do regime e as tentativas de abertura de homens
avançados como o Ministro do Ultramar Adriano Moreira ou o Governador Sarmento
Rodrigues, para dar notícias e ter opinião.”
“Foi até ao fim um mestre jornalista. Ao mesmo tempo um
idealista e um técnico pragmático. Lembro-me de uma vez lhe ter perguntado na
Beira (estávamos no fim dos anos 60) se afinal ele era português ou
moçambicano. Disse-me que se estava nas tintas para isso. Que era um jornalista
honrado.”
A imprensa moçambicana faz justas homenagens ao jornalista
Fernando Magalhães que tanta importância teve para o seu jornalismo , mas
derrapa mais uma vez ao deixar o nome de Gouvêa Lemos, e de outros, de fora de
referências a passagens como o do jornal “A TRIBUNA” que na década de 60 foi um
projeto audacioso a que o Fernando Magalhães se refere no seu texto.
Não li mas soube por um amigo, residente em Maputo, que o
jornal SAVANA publicou no último dia 8 de Fevereiro um texto dedicado a este
jornalista e o relaciona à história do jornalismo moçambicano com a sua
passagem pela “TRIBUNA” fundada pelo João Correia Reis, onde em mais um exemplo
a imprensa atual de Moçambique se mostra injusta com este capítulo tão
importante da sua história.
E ironicamente falando, nem a PIDE na época via esse tema
dessa forma. A 2 de Outubro de 1962 um inspetor da PIDE dava conhecimento ao
seu subdiretor o nascimento deste novo jornal em território moçambicano. O
documento identifica neste primeiro documento quatro nomes: o de Frederico
Madureira como diretor, o do João Reis como editor e o de Gouvêa Lemos como
chefe de redação. Fala ainda no nome de José Baptista Oliveira como sendo
responsável por contratar na Metrópole pessoal para a tipografia.
Em Outubro de 1962 é expedido pela PIDE outro documento
confidencial onde além destes nomes aparecem os nomes de Ilídio José da Rocha,
Adérito José Lopes, Domingos Augusto Vieira Azevedo e José João Craveirinha.
Por algum motivo os nomes de Gouvêa Lemos, do Ilidio Rocha e do Domingos
Azevedo estão sublinhados a vermelho.
Anexarei estes documentos para que possam ser apreciados
como parte da história de Moçambique colonial.
Tenho a convicção que os profissionais do jornalismo
moçambicano não haveriam de perder, e sim a ganhar, se buscassem conhecer
melhor a história de Gouvêa Lemos que é componente de grande importância da
história do qual fazem hoje parte.
Não nos devemos esquecer que o hoje não existe sem o ontem.
Quando se esquece existe grande possibilidade de se ficar patinando no que
seria o futuro.
Abaixo coloco as cópias dos documentos da PIDE a que me
referi. Fico com o compromisso de em outra oportunidade de colocar neste blogue
outros documentos relacionados ao cidadão luso-moçambicano e jornalista Gouvêa
Lemos.
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domingo, 11 de novembro de 2012
PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (Na íntegra)
Em Junho de 2010 coloquei esta cronica em seis partes. Tenho recebido alertas sobre a dificuldade dos leitores de conseguirem acessar as partes numa sequência lógica e simples. Assim, ao passarmos ontem pelos 125 anos da sua fundação, volto aqui a editar esta cronica escrita por Gouvêa Lemos no ano de 1963.
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PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE
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| Um Samuel dos tempos atuais... Foto de Zé Paulo registrada em Maio de 2012, em Maputo. |
O sol nasce agora às seis e trinta e seis, mas continua a nascer no mar como em todo o ano. No lado noroeste da cidade não esperam por ele para começar o dia; usam madrugadas com lua, auroras de pobre.
*
O Samuel, que é um contínuo num terceiro andar da baixa desde as sete às dezassete e come o farnel à sombra de árvores, chamadas em latim no Jardim da Gama, e vai à noite às aulas da Industrial, mora as restantes quatro horas no Chamanculo. Chega ali já noite alta; sai de lá antes que a noite finde. Samuel é um morcego que sonha ser pássaro. Minha amiga cidade, Samuel será pássaro, não será ?
São quatro e meia da manhã e o vermelho machibombo arranca em frente do Bazar do Xipamanine, com os seus cigarros “king size” e seus sorrisos de dentifrico nos lombos, carregando lá dentro sob as luzes amarelas cinqüenta e tal estivadores, rumo à Praça Mac-Mahon. Que é do sol, que ainda não veio alumiar estes heróis no avanço do cais Gorjão, onde vão manusear às lingadas o pão nosso de cada dia? Que é do sol, que se guarda para acordar a Polana?!
Minha amiga cidade, atenção a esse sol, não vá ele aburguesar-se.
*
Pela Avenida Craveiro Lopes, já vem chapinhando na água das chuvas, chap-chap, os pés descalços no leito do asfalto do rio parado, o mainato, os moleques, os cozinheiros, os mufanas, as mamanas, os serventes, os ardinas. Os camiões de lixo recolhem. Os de leite circulam. Na Caldas Xavier galopa uma carrinha de quatro cilindros, trabalhando em três e batendo os guarda-lamas, com um cão a ladrar-lhe. Leva galinhas, ovos e papaias.
*
Mesas empilhadas e cadeiras encolhidas junto das cervejarias, água e vassouras espreitando às portas, criados retirando as latas vazias de lixo, vai começando o ronronar contínuo dos motores de toda a casta de bichos com rodas, e – bom dia Lourenço Marques! – o sol já nasceu sim senhores, que as empregadinhas já pisam , e pisam bem, e ainda bem que pisam, as ruas que descem para as lojas, para os armazéns, para os salões, para os escritórios, para as repartições, ah! as empregadas já vêm, faladoras, os cabelos cacimbados do chuveiro, ó cidade amiga, elas dão-te mais graça, elas são mais frescas, elas são mais repousantes que todos os parques e jardins!
*
Negros Mercedes-Benz são lavados sob alpendres das moradias, no Sommerchield; fardas de impedidos, paletós de motoristas, fardetas de moleques passam as cancelas de ferro. O pão já veio. Saem meninos para a escola. Lá para a rua Nevala, comanda um clarim com voz de galo. O Grêmio Civil ainda tem os vidros embaciados e já o sol toma banho na baía. É verdade: na baia, convém que um navio apitasse. Embora a chuva que há-de vir já traga, à cidade inteira, os silvos das locomotivas em manobras. E uma ambulância corra, tão cedo, com a sirene a gritar, pela Pinheiro Chagas, levando a mulher que ia tendo a criança na rua. Suponho que já chega de música de fundo, com a ubíqua motorizada na bateria.
*
Cai toda a gente no afã de ganhar a vida consumindo outro dia. Tilintaram relógios de ponto. Chaminés largaram uns fumos de indústria. Caixeiros iniciaram o eterno dobra-e-desdobra das peças de tecido. E as barcas da Catembe vêm e voltam , carregando e descarregando gente, cestas e cangarras. Nos mercados municipais ou furtivos agitam-se figurantes em cenário de natureza morta. Compradores e vendedeiras fazem torneios de voz alta. A bela Juju ainda na cama, acorda e boceja; só agora dá conta, em câmara lenta, da noite que foi a noite passada. – Ahahnnn ...., foi demais, ela própria confessa, e enovela-se em busca do sono, que ao fugir, a deixa nua diante de si. . Vamos fugir da Juju, que ela vai chorar.
*
Entretanto, lembremo-nos dela, ingenuamente fingindo de ingênua-bardot, a passar na Avenida da República, rentinha às mesas do Continental, entre as cinco e cinco meia da tarde. Não há lugares para mais ninguém nem é preciso haver, que estão lá todos do costume. As pessoas falam uma com as outras, não se olhando, pois o olhar é preciso para quem passa. As conversas... ora para que falar das conversas? Não interessam e nem podem interessar até porque, se interessarem, quem as apreciaria mais não seriam os interlocutores mas aquele sujeito da mesa ao lado; quem é ele, que faz ele, que está sempre na mesa do lado?...
*
Sobretudo a praia, a praia principalmente. Eis o grande atractivo turístico da turística Lourenço Marques. É certo que há os camarões e os lagostins. É certo. E as lojas dos chinas e a arte indígena. O ambiente muito continental dos hotéis e a pincelada ibérica das touradas. E a hospitalidade, também, de que as turistas (nem sempre) se queixam. Mas a praia, sim, é que dá o tom. Por isso a marginal é o que é, e se tornou obrigatório rodar por ali, doze quilômetros a ir, doze quilômetros a vir. E por isso, também o Sr. Alves Pinheiro se embasbacou e falou dos “seus clubes navais”... Por trás dumas grades acampam turistas vermelhos que comem bananas. A gente vai vê-los, quando eles não estão comendo bananas e sim a porem-se vermelhos sobre a areia. Convencionou-se que elas são todas “giras”, o que dá uma certa alegria à rapaziada, que se embebeda, também convencionalmente, com coca-cola.
*
Do sétimo andar caiu um belo vasinho de avencas. Escarrapachou-se no tejadilho do Hilman do senhorio. Um magnífico fim de tarde, prenhe de interesse, espumante de agitação. O senhor Freitas, seu marido, prefere a pesca de paredão. Ao menos ali, ninguém o chateia nem fala de ninguém. Deixou foi de levar o “transistor” para pousar na balaustrada, pois afastava os safios.
*
Além da pesca desportiva, há a outra, sobre qual as teorias são diversas, parecendo, porém, provado que nas águas do Canal de Moçambique pescam bem os japoneses. Entretanto poveiros em traineiras, gente de Marracuene em “tatarjos”, indianos em barcos à vela, lá vão trazendo o teu peixe, amiga cidade. Arrancado a pulso, com saber e paciência, ao teu amado Índico. Mulheres, de filhos no dorso, varam a noite, metidas na água salgada até às coxas, caçando mariscos para o teu caril dominical e para ornamento da rendosa “season”. Peixe e mariscos para regatearmos bem regateados, que a visa, assim a subir... mas que grande roubalheira!
*
Também varam a noite outras mulheres, sem filhos no dorso. Sem filhos no dorso, que atrapalhariam o “twiste” . Entram com a sua parte no coquetel do grande “show” nocturno, misturando-se com as espanholas e as gregas e as transvalianas, da cançoneta e do baile. São elas as encarregadas do “tic” exótico. Como começaram, como vão acabar, oh! la, la! – isso é que interessa? Para já, bebem e fumam, dançam e divertem.
*
Rápida corrida para os cinemas. Rápida corrida para casa. Um atrasosinho para meio bife. Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Lourenço Marques, a moderna capital da província portuguesa de Moçambique, é uma cidade que cresce espectacularmente.
Os jornais, esta manhã, dizima todos o mesmo. Os que não diziam o mesmo diziam, obrigatoriamente disparates. Os que não diziam disparates não diziam nada. Mas será verdade o que eles dizem?... E o que eles não dizem, será verdade?...as consta, me garantiram-me ... Deixe que eu pago os cafés. Até amanhã.
*
Antes de ir para a cama, ainda quero dizer que Lourenço Marques é uma cidade acentuadamente desportiva. As piscinas, os “courts” de tênis, os estádios abertos e cobertos, o Eusébio. Agora temos uma estação aéreo muito melhor para receber hoquistas.
Pronto, as redações fecharam. Ficaram os impressores a fazer os jornais. Só falta cumprir a conversa de bar. Começa em nobreza: a “cidade de caniço” foi o grande assunto jornalístico deste ano; devemos comprometer-nos a explorá-lo toda a vida. Concordam? Tudo concorda. Mais adiante umas garrafas, surge a primeira discrepância. Pequena. Depois outra, maior. E outra e outra. Vem a mãe das discrepâncias e cerra o horizonte da bula-bula. Só há uma solução: cada um fala do seu assunto. E vários monólogos simultâneos dão todo o esoterismo da conversa de bar.
*
O compadre Tomás apanhou-o na queda e meteu-lhe um ombro sob o sovaco, puxou-lhe o braço à roda do pescoço e levou-o, de pernas bambas, pés a arrastar, os dois aos bordos, numa solidariedade forçada. O compadre Tomás, enfermeiro do Quadro de Saúde, ia a pensar na vida do João e perguntava-se a si mesmo, se fazia bem ou mal em levá-lo a casa. Ao mesmo tempo ia reparando em que a viagem, assim, era nervosa e cansativa. Quando chegaria ele, Tomás, à sua casa? E pensava, Tomás, que entraria de serviço na manhã seguinte, bem cedo. João resfolgava. Que idéia a tua João!
*
Por mim, minha amiga cidade, vou apagar a luz na mesa de cabeceira. Cansado e tentado a não ter esperança. Mas sei que acordarei com um sol doirado e quente, em céu escandalosamente azul, a envolver-te completa, nos arrebiques e maselas, no riso e no choro, na música e nos gritos, nas flores e nos charcos, nos prédios e nos barracos, no amor e na briga de todos os contrastes, dando-se na mesma dádiva às trezentas e cinqüenta mil pessoas de que és feita. E o sol, minha amiga, minha mais bela cidade do mundo, o sol nasce agora às seis e trinta e seis. Nasce fatalmente!
“Dário de Moçambique” , Lourenço Marques, 24 de Julho de 1963.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
POR MAUS CAMINHOS
Enquanto esteve na Beira, de
passagem para Lourenço Marques, o ministro das Obras Públicas, engo.
Arantes e Oliveira, percorreu a cidade em companhia do presidente da Câmara
Municipal, dr. Janeiro Neves, e do secretário provincial, dr. Andrade e Silva.
Andou o sr. Ministro por um lado
e por outro desta Beira em obras, desta Beira que precisa de obras,
principalmente de obras públicas e, de certo, o engenheiro ilustre
sentiu-se em casa ao percorrer uma cidade em contínua construção, uma cidade
inacabada, uma cidade-estaleiro.
Andou o sr. Ministro por maus caminhos e andou
muito bem, pois sabemos que essas andanças lhe quadram ao feitio além de
condizerem com a função. E também porque a Beira, só por si, justificaria um
ministério de Obras Públicas, tal como o sr. Ministro, certamente ficou a
pensar, quando terminou a sua rápida corrida por ambas as margens do Chiveve.
Por nossa parte, ficamos a pensar
em que talvez tenhamos razão se ficarmos com a esperança nos resultados possíveis
desta corrida ministerial pelos maus caminhos da Beira. Todos nos dizem e nós
acreditamos que o engo. Arantes e Oliveira, além de técnico competente e de
conceituado homem público, é pessoa de boa vontade e coração, que não deixará
de se lembrar com interesse construtivo e solidariedade activa, desta jovem
cidade que lembra uma rapariga partida, engessada, com muletas.
A.
V.
Notícias da Beira –
Pág. 3 – 17 de Setembro de 1966
Obs.: “A. V.” era o pseudônimo do Gouvêa Lemos, usado
quando ele acreditava que o seu texto poderia ser censurado se colocasse o
habitual G.L.. A. V. era na verdade a sigla de António Veríssimo, os dois
primeiros nomes de António Veríssimo Sarmento Gouvêa Lemos.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
REPETINDO UMAS COISAS ÓBVIAS - Pegue-se no futuro de Moçambique...
![]() |
| "1963 X 2012" ou "1963 = 2012" |
Pense-se na promoção social das populações,
de que vemos gentes de vários feitios ocupar-se por formas diversas e com
intenções diferentes, e logo se sente que pouco ou nada poderá fazer-se, se
essas populações não forem promovidas economicamente.
Fale-se em consciencialização política ou
esclarecimento cívico dum povo, para o habilitar a exercer direitos consignados
na lei, e imediatamente se vê que a quem se aplica não tem um nível económico
exigido.
Lembre-se a instrução, indispensável ao
homem moderno, urgindo sobretudo onde ela tem de começar pela alfabetização de
milhões de pessoas, ao mesmo tempo que deve exercer-se também em graus
superiores, para constituição de elites intelectuais e formação profissional, e
logo nos assustaremos de pensar o que haverá de ser ocupação adequada de quantos
forem saindo das escolas, dos institutos, dos liceus, das faculdades
universitárias, se um vasto programa de instrução não for acompanhado, apoiado
e justificado por um surto simultâneo de desenvolvimento económico.
Veja-se como será inválida qualquer actividade
séria no campo da saúde e da higiene, se a massa populacional sobre a qual se
exerce não tiver possibilidade de elevar o grau da sua saúde colectiva, se não
conseguir apurar os seus hábitos de higiene, se não tiver meios materiais e não
dispuser de processos técnicos que lhe assegurem um estado aceitável de
sanidade, se, em suma, a sua situação económica não lhe permitir praticar as
teorias, dar continuidade às práticas e efectivar os seus resultados.
Repare-se em como será inviável a elevação
espiritual de quem não tenha da vida uma concepção diferente da que lhe dá a
preocupação da sobrevivência.
Ora, estas coisas tão simples como todas
as de bom senso preocupam., afinal, quantos sejam conscientes e se encontrem em
Moçambique e fazem que ninguém de boa fé possa admitir a fuga às obrigações que
tais realidades impõem.
Moçambique tem no seu território enormes
capacidades de riqueza, umas conhecidas e muitas apenas adivinhadas, mas
sabendo-se de todas que são mais que suficientes para dar aos seis milhões e
meio que aqui vivem e aos mais que vierem a viver excelentes condições
económicas. Esse potencial tem de ser utilizado. Vai ser utilizado. Se não se
fundasse nesta determinação, nenhuma política se justificaria.
O remédio de todos os males não está no
processo simplista de aumentar salários; o que se impõe é o aumento da produção,
a criação de riqueza, para se enfrentarem então os problemas da sua melhor
distribuição, seja através de salários, seja na participação de lucros, seja
pelo sistema que o povo escolher.
O que tem de haver é aquela certeza acima
referida, generalizada e por todos vivida, de que o homem de Moçambique usará a
riqueza que Moçambique oferece, parecendo-me, por isso, inoportunos certos
rumores de pessimismo, que se manifestam até para condenar iniciativas daqueles
que acreditam no futuro desta sua terra, baseando-se os velhos do Restelo em
que os tempos vão muito maus.
Se os tempos vão muito maus, terão de vir
a ser bons, mesmo contra a vontade de alguns.
[A
Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano IV, nº 96, 28 de Setembro de 1963, p. 10]
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
OS PSEUDOS
Eis que nesta Lourenço Marques tão garrida
apesar dos pesares, remirando-se na baía nem sempre espelhada do Espírito
Santo, encanudando e frisando os polanas e os somerchildes e escondendo os
caniços, pupulam cada vez mais pululantes os pseudos.
É encantadora, chega a ser comovente a
desfaçatez com que actuam livremente, muito livremente aliás, com uma liberdade
só deles, certos pseudo-intelectuais, sem um mínimo de dignidade intelectual,
que são pseudo-jornalistas, fazendo dos jornais postigos de delação, que são
pseudo-escritores, escrevendo sandices com citações mal digeridas à mistura,
que são pseudo-patriotas batendo-se por que se espete com a Pátria num
atoleiro. São até, nas horas vagas, anti-racistas, generosamente,
magnânimamente, como seres superiores que se julgam, detentores do direito a
tais abdicações, mas quando se lhes mostra que mesmo nessa pseudo-generosidade
paternal há racismo, os pseudo-humanistas enfurecem-se e gritam. E, em
situações taís, pode acontecer que peçam uma balança para pesar encéfalos ou
uma guilhotina para cortar cabeças, invocando Darwin em latim mal copiado ou
Fidel Castro em português sem gramática. Isto é, quem for de cor diferente leva
poucos miolos, quem for de opinião diferente fica sem miolos nenhuns. Mas não
são maus homens, os pseudos. Até dão esmola aos sábados.
Oh! como andam activos, os pseudos!
Vem um, e de pera em punhal, ameaça com
«el paredon» em estilo cubano os colegas e os «grupinhos» (os «grupinhos» são
as suas varizes) da «Imprensa contra a Nação». Mal da Nação se a «Imprensa pela
Nação» fosse a que ele abrilhanta.
Vem outro, e - tem graça! - também de pera
em naifa, ruge impropérios contra quem chama traidores e antipatriotas (pobre
da pátria que o pôs, se não fosse melhor servida!), sugere o fechamento de
jornais, talvez porque se negaram à sua prosa que não escolhe poiso e
esquecendo na precipitação polémica que, até porque isto de políticas é, como
ele bem sabe, coisa sujeita a grandes contingências e reviravoltas, sempre será
melhor haver mais jornais que menos, não só para os jornalistas mas até para os
pseudos.
Oh!, senhores! como eles andam mausões!...
O pior é que - e só por isso eu dedico
estas linhas aos pseudos - eles berram, barafustam, gesticulam e esbravejam e
devem cada vez mais considerar-se certos e infalíveis, perante o silêncio de
quem não quer e não pode, pô-los nus na praça pública, revelando-lhes a
estatura e as mazelas.
Acabavam-se os pseudos. Calavam-se os
activos, desiludiam-se os passivos, divertia-se a multidção, era uma santa
higiene.
[A
Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano IV, nº 77, 18 de Maio de 1963, p. 12 e
11]
domingo, 14 de outubro de 2012
NEGRÓFILOS E NEGRÓFOBOS
Ninguém é obrigado a conhecer esta matéria, trata-se de coisa novíssima.
Assim como, a todo o momento, a ciência, em permanente evolução, em eterna busca e ininterrupta conquista, nos oferece mais um ramo, um diferente caminho, também a ignorância - oh! a bruta, a fera, a mexida ignorância - nos revela uma novidade, nos desvenda uma vereda inesperada, nos agride com um atrevido rebento.
E nós, os pobres homens, trocamos os olhos entre os pratos da balança, num deles Einstein, sereno, esclarecendo o Universo; no outro, D. Cretino Polit y Castro, aos pulos, não deixando a balança quieta.
A mim, por exemplo, chamaram, outro dia, negrófilo. Fiquei aflito, quer será isso, meu Deus, fui ver ao dicionário. Não porque eu fosse incapaz de recorrer à etimologia, por acaso sabia muito bem decompor a palavrinha, negro é preto, filo vem do grego, philos, quer dizer amigo, negrófilo seria amigo dos negros, nada de mal, pelo contrário, eu era uma pessoa decente, bem formada, um tipo fixe, sim senhor.
Ora o dicionário confirmou o meu humilde saber, fiquei sem perceber qual fora a ideia de me acharem aquele senão. O Cândido de Figueiredo só acrescentava que negrófilo também se chamava ao partidário da abolição da escravatura, mas isso não podia ser, olha o disparate, escravatura já não há.
Cismei uns minutos, não muitos, que eu por acaso até gozo de uma certa agilidade mental, e optei por averiguar o que seriam os meus acusadores, o que sentiriam, o que pensariam, para me censurarem aquilo. (Note-se que eu nem estava zangado ou ofendido com eles, pois se tratava, inegavelmente, de pessoas generosas, concedendo-me imerecidas vantagens no seu julgamento; só é pena, diziam, que seja negrófilo).
Claro está - concluí eu - que verberando em mim tal coisa, os meus estimáveis juízes devem ufanar-se do contrário: o antónimo de negrófilo, não preciso de perguntar a ninguém, é negrófobo. E senhor desta descoberta, iniciei-me na nova ciência, trémulo de emoção investigante. Mentalmente, espichei o indicador direito e apontei para mim: eu sou negrófilo; eles são negrófobos, e apontei para eles.
Cândido de Figueiredo sorriu-me e confirmou: negrófobo é o que tem negrofobia; negrofobia é ódio aos negros: Ai!!! que susto!...
Juro que tive um arrepio de horror, quando cheguei ao fim do meu ordenado raciocínio. Não por mim, que estou a coberto da lei, mas por eles, coitados, pessoas consideradas sérias, com responsabilidades, usando um ar severo e uns nomes respeitáveis (bem sei que alguns são uns pobres vagabundos, embora de analfabetismo muito actuante, em todo o caso seres humanos), por eles, sim, pobrezinhos, fiquei eu assustado, pois se a Lei é Lei e a Constituição vale, se a Civilização ocidental, se os princípios cristãos que enformam a nossa estrutura social, etc., se a nossa blandícia de costumes, oh coisa doce sem par no Mundo, se tudo isso, que a gente sabe e ouve e lê, tem valor, se, enfim, há sinceridade nisso; então não resta dúvida nenhuma de que esses desgraçados - que pena eu tenho das famílias! - estão aqui, estão todos presos.
A Polícia deve andar de olho neles. Com certeza, tem os negrófobos todos fichados e sob constante vigilância, pois que suspeitos são eles, os insensatos, de traição ao que há de mais sagrado, ao sangue dos ancestrais, à própria razão de ser da Lusitanidade, alastrando por todos os continentes, diversificada em tantas raças, mais feita de negros que de brancos.
Ai! dos negrófobos! Ai! dos traidores!
Que segurança dá ser negrófilo, estar-se a coberto da Lei, protegido pela Autoridade!
[A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano 4, nº 68, 28 de Fevereiro de 1963, p. 12 e 10]
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