Translate / Tradutor

domingo, 22 de setembro de 2013

Aeroporto Gago Coutinho

Aeroporto Gago Coutinho (fonte: "internet")

está uma idéia feliz, em inaugurar-se a nova es­tação aérea de Lourenco Marques no dia 17 de Ju­nho, comemorando-se a chegada ao Rio de Janeiro dum frágil hidravião mono-motor, sem rádio nem apoio marítimo, sem patrocínios poderosos nem publicidades sensacionalistas. Cha­mava-se o aparelho «Lusitânia», tripulavam - no um senhor piloto Sacadura Ca­bral e um senhor navega­dor Gago Coutinho, sendo que este último ia a expe­rimentar um sextante de sua invenção, com horizon­te artificial, que depois ha­via de ser usado por todos os navegantes.
Também foi uma idéia brilhante, essa de chamar ao nosso campo de avia­ção o Aeroporto Gago Cou­tinho, homenageando o marinheiro e o cientista, o in­cansável geógrafo que tan­to trabalhou em Moçambi­que e do seu trabalho dei­xou valiosos resultados ain­da bem patentes, como se verifica facilmente nos Ser­viços Geográficos e Cadas­trais, como confirmam, à uma, todos os topógrafos e agrimensores de Moçambi­que. Além disso, Gago Cou­tinho sempre ficou ligado a esta tetra pelo sentimento da saudade e a sua pele rugosa de velhinho nunca mais se libertou da lem­brança doce das brisas do Índico.
Vendo bem, Gago Coutinho foi, dos portugueses contemporâneos, a figura melhor representativa das mais positivas qualidades do espírito luso — já se pensou nisso?
Ele era destemido e sá­bio, trabalhador e genero­so, abnegado e tolerante, sedento de universo, famin­to de humanidade, realizando o mundo português num plano tão acima da política e dos negócios, que nunca se apercebeu, por exemplo, de que o Bra­sil era um país indepen­dente. Fronteiras, onde es­tavam elas?/ O Atlântico? ... Mas não era seu, o Atlântico? Não o galgara ele? Não o continuara a vencer, tantas e tantas ve­zes, por ar ou pela superfície, quase até morrer? A língua?... Mas era a mes­ma, senhores! Os amigos, os admiradores, os colegas, os discípulos? Ora, onde os teria ele mais numerosos? No Rio de Janeiro ou em Lisboa? Dir-se-á, em Lis­boa, que Gago Coutinho era muito lisboeta. Pode di­zer-se, no Rio, que era muito carioca. Então? Onde fica a pátria do Almirante?
Felicíssima idéia, essa de darem o nome de Gago Coutinho ao aeroporto de Lourenço Marques. Um  velhinho que ilustrou na Terra a promessa do Evange­lho: os últimos serão os primeiros e os primeiros serão  os  últimos. Morreu famoso e ficou célebre, ainda que vivesse humilhando-se e procurando apagar-se. Podia ter sido um dos notáveis da época, um pre­sidente do conselho de administração. um deputado ou coisa assim, podia ter sido, enfim, tanta coisa, e ficou só oficial de marinha reformado. Mas cidadão do mundo, é verdade: tran­seunte enternecido de ocea­nos; português com pureza, porque despido de idéias de domínio, lavado de di­videndos.
Ele encarnava, sem dúvida, o espirito lusitano. O autêntico. O que pode sub­sistir, porque transcende as contingências históricas.
Agora, que inauguraram a bela estação  aérea de Lourenço Marques  no dia em que passava o 41.0 aniversário   da   travessia do Atlântico  Sul  em  avião e que lhe deram o nome de Gago   Coutinho,  só falta uma coisa para completar a homenagem justa e, até,  o    conjunto arquitectónico da aerogare: a estátua do Almirante,   em   frente do edifício.  Estou  a lembrar-me dum enorme Leonardo da Vinci, que se ergue em frente do moderno aeropor­to de Fiumicino, em Roma. E, embora me tenha habituado a antipatizar com es­tátuas, bustos  e lápides, neste caso, sou pela está­tua.

[A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano IV, nº 96, 29 de Junho de 1963, p. 12]

Gouvêa Lemos na "Voz de Moçambique"


Depois da sua fase no jornal “Tribuna”, onde exerceu a multi- função de vice-diretor e chefe de redação, Gouvêa Lemos assumiu a redação da “Voz de Moçambique” no inicio de 1963. A sua primeira crônica, nesta fase, foi na edição no. 68, IV Ano, de 28 de Fevereiro de 1963, ainda quando era editada quinzenalmente. A entrada de Gouvêa Lemos na equipe da “Voz de Moçambique” tinha como objetivo assumir a responsabilidade de transformar o jornal em semanário. Ficou até Novembro de 1964, quando partiu para a Beira para transformar o "Notícias da Beira" em um diário.
Estas primeiras linhas só para dar introdução à informação sobre o presente que recebi de uma pessoa que me é muito querida, o Vitor Adrião Rodrigues. Este me fez chegar às mãos a encadernação, em quatro volumes, das edições da Voz de Moçambique que vão de 28 de Fevereiro de 1963 a 15 de Janeiro de 1966. Esta relíquia pertencia ao seu irmão, o advogado Carlos Adrião Rodrigues, que faleceu em Fevereiro de 2011.
Achou o Vitor Adrião Rodrigues que eu merecia ter a emoção de folhear estes exemplares, descobrindo neles textos do Gouvêa Lemos como de outras grandes feras que foram alguns dos seus contemporâneos. Entre eles o próprio Dr. Adrião Rodrigues, que em dupla com a sua esposa Quina, foram grandes amigos e companheiros do casal António e Madalena Gouvêa Lemos.
Deste material pretendo colocar aqui no blogue os textos do Gouvêa Lemos que estejam inéditos neste espaço. O primeiro que identifiquei, logo na primeira edição de 28 de Fevereiro de 1963 é uma das crónicas que mais aprecio dele: “Negrófilos e Negrófobos”, que no seu estilo irónico e sarcástico trata da qualificação que algum reaças que lhe fez sobre ser ele um negrófilo. Este texto já foi editado aqui neste espaço no dia 14 de Outubro de 2012 e pode ser acessado pelo link http://gouvealemos.blogspot.com.br/2012/10/negrofilos-e-negrofobos.html.
Do material pretendo ainda montar um completo índice dos títulos das manchetes de cada uma das edições, por data, identificando os seus autores. Existem alguns textos e reportagens não assinadas que também farão parte do índice. Alguns destes textos, pelo estilo da sua escriba, percebem-se serem do GL. Os que eu tiver informações concretas que são de fato dele, assim serão identificados tendo a fonte da informação. Ainda estarei avaliando onde disponibilizarei este índice para que os leitores possam ter acesso e assim, eventualmente, me solicitem que edite textos que lhes sejam de interesse.
Pretendo ainda, via blogue “Lanterna Acesa 2” (http://lanternaacesa2.blogspot.com.br/), editar as propagandas que aparecem nas páginas da “Voz de Moçambique” neste período, A ideia é catalogar em quatro  grupos: Cigarros, Bebidas (Refrigerantes e Cervejas), Carros e Outros (comércio e indústria no geral).
Tudo isto na minha velocidade, sem compromissos de prazos, mas com o compromisso de dividir com o máximo de leitores parte da obra jornalística do Gouvêa Lemos, como disponibilizar parte da história do jornalismo luso-moçambicano que ele e outros seus contemporâneos fizeram parte.
O restante virá como sobremesa.


Zé Paulo

domingo, 4 de agosto de 2013

A carta que nunca chegou...

António Trindade Martins, em meados de Setembro de 1967, aos 20 anos de idade, partiu de Moçambique com destino a Lisboa para depois ir para a França frequentar um curso de jornalismo.
Na sua ficha da PIDE, em 17/09/1968, já estava registrado que “Consta que tem ideias políticas comunistas, suspeitando-se que pretende ir para a Hungria, a fim de ali continuar o curso de jornalista."
Em 18/10/68 a correspondência enviada por António Martins a Gouvêa Lemos já era escrita a partir de Budapest. Mais tarde, em 1970 aos 23 anos de idade, já na Suécia acaba por conseguir exilio politico, após ameaças de expulsão deste país, através de apoios de organizações como a Amnistia Internacional.
O mesmo havia se ausentado do território português sem servir o exército, sendo dado pelo governo português como desertor.
Em Novembro de 1968 o Ministério do Exército já havia formalizado pelo ofício 1782/SC a solicitação para a captura do mesmo, que foi acatada pela PIDE através da O.S. 325/68.
As correspondências enviadas a Moçambique aos seus familiares e amigos, como Gouvêa Lemos, como o inverso, eram capturadas pela PIDE. Nessa ocasião, por uma destas correspondências, a PIDE na Beira abriu um novo processo de investigação aparecendo o Jornalista junto ao “opositor” e seus familiares como fichados.
Abaixo transcrevo uma das suas cartas que nunca chegou ao GL. Palavras que ao mesmo tempo passavam otimismo em relação ao seu futuro, passavam também as saudades de amigos e familiares.
Desta história podemos retalhar um monte de experiências e percepções, mas a maior delas, me parece, é o reforço de que um estado ditatorial e/ou ambientes de guerra induz o jovem a amadurecer precocemente.


Transcrição da carta...

Budapest, 18 /10/1968.
Caríssimo Gouvêa Lemos,
Após cerca de um ano de silêncio - e depois de ter recebido a sua carta (perdoe-me!) volto a escrever-lhe duas linhas, desta vez não de Paris, mas de Budapest, via Paris, para lhe enviar o meu grande abraço.

Estou aqui há cerca de duas semanas. Havia-me candidatado a uma bolsa de estudo para Economia Política em Paris e concederam-me.
Tive hoje a minha 3ª. aula de húngaro. Note-se que chamo aula a um dia de aulas que compreende entre a 6 e 7 horas !
O 1º. ano é, pois, carregado à aprendizagem da língua. Depois, será mais 4 anos para o curso. Portugueses somos 5 + 1 moça.  Há ainda angolanos (9 a 10), moçambicanos (6 a 7) e guineenses (9 a 11). Estão em regra geral cursando especialidades técnicas. Cada um deles receberá no fim do curso uma preparação militar. Quanto a nós, portugueses, a nossa valorização é puramente cultural. Estou imensamente satisfeito porque consegui, enfim, a minha chance de fazer algo por mim para que porem depois fazer melhor pelos outros.
Estou-lhe a escrever de um cafezinho muito discreto que fica a 10 minutos do meu colégio. Terminei as aulas, ??????? e estou à espera da minha “professora”. O húngaro é extremamente fechado mas eu ao fim de uma semana encontrei uma professora muito competente...
Gostaria imenso de saber algo sobre si, sobre toda essa gente, sobre o nosso jornal ! Há muito que ninguém me escreve daí! Da minha família há muito que também não sei de nada! Escreva-me, pois, por 2 ou 3 linhas que sejam, para a direção do meu tio em Paris. Ele tem instruções sobre correspondência com território português.
Receba pois um abraço trans-continental, trans-cortina-de-ferro, trans-oceânico do amigo que não se esquece de si.
                                  Sinceramente,
                                  Assinado....

P.S.: A sua operação, como correu? A D. Madalena como está? Os mais pequenos? Um abraço a todos, bem como à gente do N. B. e de uma maneira geral a todos os contatos da Informação.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

PIDE - Ficha aberta em 15 de Novembro de 1968.

Por uma carta escrita em Budapeste e enviada a Gouveia Lemos a partir de Paris, a PIDE abriu-lhe mais uma ficha a 15 de Novembro de 1968. Uma carta que nunca lhe chegou às mãos...


domingo, 10 de fevereiro de 2013

Morre mais um pedaço da história da imprensa moçambicana?


Ser filho do Gouvêa Lemos deve ajudar a ter um sentimento de injustiça pela memória curta de grande parte de moçambicanos e portugueses em relação à sua importância no jornalismo luso-moçambicano nos tempos de Moçambique colônia.
Entendo que as novas gerações não saibam quem foi o jornalista e assim não conheçam a sua história. Mas me entristece que pessoas ligadas ao jornalismo moçambicano, e português, alguns que foram ainda seus contemporâneos, não busquem colocar o seu nome em evidência pelo menos quando as circunstancias assim apontam. O mundo anda, nós envelhecemos, e assim nos últimos anos temos perdido importantes personagens da imprensa e da literatura que foram testemunhas vivas  e atuantes de uma ditadura colonial e que com as suas penas e tinteiros digladiaram com as injustiças daqueles tempos. As lutas eram tão intensas que as suas necessidades pessoais, e das suas famílias, ficavam quase sempre em segundo plano. Não morreram com balas no peito, mas perderam anos das suas vidas pelos ideais em que acreditavam.
Gouvêa Lemos foi um desses homens. Um homem justo. Um homem que valorizava os homens. O poeta José Craveirinha, o fotógrafo Ricardo Rangel foram dois dos muitos nomes que tiveram o privilégio de conviverem profissionalmente com o chapa Gouvêa Lemos, como Craveirinha o tratava, e com o Mestre, como Ricardo Rangel o reverenciava.
Tenho o blogue “Jornalista Gouvêa Lemos” como um espaço para matar saudades do que pouco tenho acesso das suas crónicas e como uma humilde forma de dividi-las com leitores que por algum motivo tenham interesse de voltar ao passado e entender como homens como Gouvêa Lemos conviviam com a realidade daqueles tempos. Nos três anos que eventualmente atualizo algum material, foram raras as vezes que fiz referencias ao Jornalista. O foco é sempre a reedição de alguns dos seus textos, e quando busco fazer algum comentário o faço como os demais leitores, no espaço apropriado a leitores.
Hoje, pela ocasião do falecimento do seu contemporâneo Fernando Magalhães e por comentários que me fizeram chegar sobre um texto editado no jornal SAVANA, de Maputo, acabei por sentir necessidade de fazer algo como um desabafo, aproveitando para me despedir mais uma vez do meu Pai quando digo adeus a um seu amigo e colega de profissão. Cada vez que um dos seus chapas se vai deste mundo, sinto um pouco mais a perda do Pai. Creio que isso esteja relacionado ao tê-lo perdido muito miúdo. Tinha eu os meus 11 anos de idade, e como filho era ele, como todos os pais, o meu Pai Herói. Dali para a frente conheci o Pai e o Jornalista pelos seus amigos e o Pai pela minha Mãe.
No livro 140 ANOS DE IMPRENSA EM MOÇAMBIQUE, editado pela AMOLP em 1996 com a coordenação de Fátima Ribeiro e António Sopa, Fernando Magalhães foi escolhido para escrever sobre o seu amigo Gouvêa Lemos. Como homenagem a ambos, transcrevo aqui algumas das suas frases do texto que intitulou como “GOUVÊA LEMOS: O HOMEM QUE QUERIA SER JORNALISTA”:

“Conheci o Gouvêa Lemos no início dos anos 60. Ele era chefe ou subchefe de redacção do Notícias e eu tentava a minha carreira de jornalista na muito desprezada “Reportagem” onde tínhamos a obrigação de relatar o que se passava na capital de Moçambique (Província). Fazia portanto a “tabela de marés”, a meteorologia,...”
“A Censura lia tudo, cortava o que queria e era necessário saber escrever para a censura. Gouvêa Lemos, irônico, impunha-nos o respeito pelas técnicas do jornalismo. Destruía com o seu sarcasmo os narizes de cera que os redactores prestigiados queriam impor. Para ele os rumores iam directos para o cesto dos papéis ou quando muito podiam ser tratados em crônicas até porque aquele era um tempo de muitos rumores e poucas notícias permitidas.”

“Não tinha sido em vão que ele passara parte da sua juventude a trabalhar em jornais brasileiros como o Estado de São Paulo. Só que por aqui a Censura dava-lhe poucas hipóteses."
“Mas para Gouvêa Lemos a técnica do jornalismo era sagrada. Foi ele o primeiro a meter-me na cabeça uma das regras de ouro do jornalismo anglo-saxónico: os factos são sagrados e as opiniões livres.”

“Murmurando contra o cinzentismo do Notícias chegamos a 1962 e quando eu já me preparava para escolher uma profissão mais apaixonante o Gouvêa Lemos convidou-me para fazer parte dos quadros de um novo jornal que seria uma pedrada no charco: a Tribuna. A sete de Outubro de 1962, numa noite incrivelmente quente em que ninguém ligado ao jornal dormiu, saiu o primeiro número. Claro que estivera para sair alguns dias antes. Mas tal como hoje amontoavam-se as insuficiências, algumas más vontades paralisadoras e um facto muito importante: a coordenação do caos de idéias e teimosias de um grupo numeroso de gente de boa vontade que sabia de tudo, menos do que é fazer um verdadeiro jornal.

“Coube ao Gouvêa Lemos ser o homem que organizou o caos de grandes idéias e enormes boas vontades transformando esse caos no que a Tribuna foi. Um jornal moderno tão bom como os que faziam nas grandes capitais do mundo e como verdadeiro jornal reflectia o mundo e o Moçambique do momento."

“Um jornal que soube apanhar de surpresa as autoridades metropolitanas que nem sonhavam ser possível que por cá houvesse conhecimentos técnicos e atrevimento para se fazer um jornal assim. Um jornal que aproveitava as hesitações e ambigüidades do regime e as tentativas de abertura de homens avançados como o Ministro do Ultramar Adriano Moreira ou o Governador Sarmento Rodrigues, para dar notícias e ter opinião.”

“Foi até ao fim um mestre jornalista. Ao mesmo tempo um idealista e um técnico pragmático. Lembro-me de uma vez lhe ter perguntado na Beira (estávamos no fim dos anos 60) se afinal ele era português ou moçambicano. Disse-me que se estava nas tintas para isso. Que era um jornalista honrado.”

A imprensa moçambicana faz justas homenagens ao jornalista Fernando Magalhães que tanta importância teve para o seu jornalismo , mas derrapa mais uma vez ao deixar o nome de Gouvêa Lemos, e de outros, de fora de referências a passagens como o do jornal “A TRIBUNA” que na década de 60 foi um projeto audacioso a que o Fernando Magalhães se refere no seu texto.
Não li mas soube por um amigo, residente em Maputo, que o jornal SAVANA publicou no último dia 8 de Fevereiro um texto dedicado a este jornalista e o relaciona à história do jornalismo moçambicano com a sua passagem pela “TRIBUNA” fundada pelo João Correia Reis, onde em mais um exemplo a imprensa atual de Moçambique se mostra injusta com este capítulo tão importante da sua história.
E ironicamente falando, nem a PIDE na época via esse tema dessa forma. A 2 de Outubro de 1962 um inspetor da PIDE dava conhecimento ao seu subdiretor o nascimento deste novo jornal em território moçambicano. O documento identifica neste primeiro documento quatro nomes: o de Frederico Madureira como diretor, o do João Reis como editor e o de Gouvêa Lemos como chefe de redação. Fala ainda no nome de José Baptista Oliveira como sendo responsável por contratar na Metrópole pessoal para a tipografia.
Em Outubro de 1962 é expedido pela PIDE outro documento confidencial onde além destes nomes aparecem os nomes de Ilídio José da Rocha, Adérito José Lopes, Domingos Augusto Vieira Azevedo e José João Craveirinha. Por algum motivo os nomes de Gouvêa Lemos, do Ilidio Rocha e do Domingos Azevedo estão sublinhados a vermelho.
Anexarei estes documentos para que possam ser apreciados como parte da história de Moçambique colonial.
Tenho a convicção que os profissionais do jornalismo moçambicano não haveriam de perder, e sim a ganhar, se buscassem conhecer melhor a história de Gouvêa Lemos que é componente de grande importância da história do qual fazem hoje parte.
Não nos devemos esquecer que o hoje não existe sem o ontem. Quando se esquece existe grande possibilidade de se ficar patinando no que seria o futuro.
Abaixo coloco as cópias dos documentos da PIDE a que me referi. Fico com o compromisso de em outra oportunidade de colocar neste blogue outros documentos relacionados ao cidadão luso-moçambicano e jornalista Gouvêa Lemos.






domingo, 11 de novembro de 2012

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (Na íntegra)

Em Junho de 2010 coloquei esta cronica em seis partes. Tenho recebido alertas sobre a dificuldade dos leitores de conseguirem acessar as partes numa sequência lógica e simples. Assim, ao passarmos ontem pelos 125 anos da sua fundação, volto aqui a editar esta cronica escrita por Gouvêa Lemos no ano de 1963.
____________________________________________

PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE
Um Samuel dos tempos atuais...
Foto de Zé Paulo registrada em Maio de 2012, em Maputo.

O sol nasce agora às seis e trinta e seis, mas continua a nascer no mar como em todo o ano. No lado noroeste da cidade não esperam por ele para começar o dia; usam madrugadas com lua, auroras de pobre.

*

O Samuel, que é um contínuo num terceiro andar da baixa desde as sete às dezassete e come o farnel à sombra de árvores, chamadas em latim no Jardim da Gama, e vai à noite às aulas da Industrial, mora as restantes quatro horas no Chamanculo. Chega ali já noite alta; sai de lá antes que a noite finde. Samuel é um morcego que sonha ser pássaro. Minha amiga cidade, Samuel será pássaro, não será ?
São quatro e meia da manhã e o vermelho machibombo arranca em frente do Bazar do Xipamanine, com os seus cigarros “king size” e seus sorrisos de dentifrico nos lombos, carregando lá dentro sob as luzes amarelas cinqüenta e tal estivadores, rumo à Praça Mac-Mahon. Que é do sol, que ainda não veio alumiar estes heróis no avanço do cais Gorjão, onde vão manusear às lingadas o pão nosso de cada dia? Que é do sol, que se guarda para acordar a Polana?!
Minha amiga cidade, atenção a esse sol, não vá ele aburguesar-se.

*

Pela Avenida Craveiro Lopes, já vem chapinhando na água das chuvas, chap-chap, os pés descalços no leito do asfalto do rio parado, o mainato, os moleques, os cozinheiros, os mufanas, as mamanas, os serventes, os ardinas. Os camiões de lixo recolhem. Os de leite circulam. Na Caldas Xavier galopa uma carrinha de quatro cilindros, trabalhando em três e batendo os guarda-lamas, com um cão a ladrar-lhe. Leva galinhas, ovos e papaias.

*

Mesas empilhadas e cadeiras encolhidas junto das cervejarias, água e vassouras espreitando às portas, criados retirando as latas vazias de lixo, vai começando o ronronar contínuo dos motores de toda a casta de bichos com rodas, e – bom dia Lourenço Marques! – o sol já nasceu sim senhores, que as empregadinhas já pisam , e pisam bem, e ainda bem que pisam, as ruas que descem para as lojas, para os armazéns, para os salões, para os escritórios, para as repartições, ah! as empregadas já vêm, faladoras, os cabelos cacimbados do chuveiro, ó cidade amiga, elas dão-te mais graça, elas são mais frescas, elas são mais repousantes que todos os parques e jardins!

*

Negros Mercedes-Benz são lavados sob alpendres das moradias, no Sommerchield; fardas de impedidos, paletós de motoristas, fardetas de moleques passam as cancelas de ferro. O pão já veio. Saem meninos para a escola. Lá para a rua Nevala, comanda um clarim com voz de galo. O Grêmio Civil ainda tem os vidros embaciados e já o sol toma banho na baía. É verdade: na baia, convém que um navio apitasse. Embora a chuva que há-de vir já traga, à cidade inteira, os silvos das locomotivas em manobras. E uma ambulância corra, tão cedo, com a sirene a gritar, pela Pinheiro Chagas, levando a mulher que ia tendo a criança na rua. Suponho que já chega de música de fundo, com a ubíqua motorizada na bateria.

*

Cai toda a gente no afã de ganhar a vida consumindo outro dia. Tilintaram relógios de ponto. Chaminés largaram uns fumos de indústria. Caixeiros iniciaram o eterno dobra-e-desdobra das peças de tecido. E as barcas da Catembe vêm e voltam , carregando e descarregando gente, cestas e cangarras. Nos mercados municipais ou furtivos agitam-se figurantes em cenário de natureza morta. Compradores e vendedeiras fazem torneios de voz alta. A bela Juju ainda na cama, acorda e boceja; só agora dá conta, em câmara lenta, da noite que foi a noite passada. – Ahahnnn ...., foi demais, ela própria confessa, e enovela-se em busca do sono, que ao fugir, a deixa nua diante de si. . Vamos fugir da Juju, que ela vai chorar.

*

Entretanto, lembremo-nos dela, ingenuamente fingindo de ingênua-bardot, a passar na Avenida da República, rentinha às mesas do Continental, entre as cinco e cinco meia da tarde. Não há lugares para mais ninguém nem é preciso haver, que estão lá todos do costume. As pessoas falam uma com as outras, não se olhando, pois o olhar é preciso para quem passa. As conversas... ora para que falar das conversas? Não interessam e nem podem interessar até porque, se interessarem, quem as apreciaria mais não seriam os interlocutores mas aquele sujeito da mesa ao lado; quem é ele, que faz ele, que está sempre na mesa do lado?...

*

Sobretudo a praia, a praia principalmente. Eis o grande atractivo turístico da turística Lourenço Marques. É certo que há os camarões e os lagostins. É certo. E as lojas dos chinas e a arte indígena. O ambiente muito continental dos hotéis e a pincelada ibérica das touradas. E a hospitalidade, também, de que as turistas (nem sempre) se queixam. Mas a praia, sim, é que dá o tom. Por isso a marginal é o que é, e se tornou obrigatório rodar por ali, doze quilômetros a ir, doze quilômetros a vir. E por isso, também o Sr. Alves Pinheiro se embasbacou e falou dos “seus clubes navais”... Por trás dumas grades acampam turistas vermelhos que comem bananas. A gente vai vê-los, quando eles não estão comendo bananas e sim a porem-se vermelhos sobre a areia. Convencionou-se que elas são todas “giras”, o que dá uma certa alegria à rapaziada, que se embebeda, também convencionalmente, com coca-cola.

*

Do sétimo andar caiu um belo vasinho de avencas. Escarrapachou-se no tejadilho do Hilman do senhorio. Um magnífico fim de tarde, prenhe de interesse, espumante de agitação. O senhor Freitas, seu marido, prefere a pesca de paredão. Ao menos ali, ninguém o chateia nem fala de ninguém. Deixou foi de levar o “transistor” para pousar na balaustrada, pois afastava os safios.

*

Além da pesca desportiva, há a outra, sobre qual as teorias são diversas, parecendo, porém, provado que nas águas do Canal de Moçambique pescam bem os japoneses. Entretanto poveiros em traineiras, gente de Marracuene em “tatarjos”, indianos em barcos à vela, lá vão trazendo o teu peixe, amiga cidade. Arrancado a pulso, com saber e paciência, ao teu amado Índico. Mulheres, de filhos no dorso, varam a noite, metidas na água salgada até às coxas, caçando mariscos para o teu caril dominical e para ornamento da rendosa “season”. Peixe e mariscos para regatearmos bem regateados, que a visa, assim a subir... mas que grande roubalheira!

*

Também varam a noite outras mulheres, sem filhos no dorso. Sem filhos no dorso, que atrapalhariam o “twiste” . Entram com a sua parte no coquetel do grande “show” nocturno, misturando-se com as espanholas e as gregas e as transvalianas, da cançoneta e do baile. São elas as encarregadas do “tic” exótico. Como começaram, como vão acabar, oh! la, la! – isso é que interessa? Para já, bebem e fumam, dançam e divertem.

*

Rápida corrida para os cinemas. Rápida corrida para casa. Um atrasosinho para meio bife. Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Lourenço Marques, a moderna capital da província portuguesa de Moçambique, é uma cidade que cresce espectacularmente.

Os jornais, esta manhã, dizima todos o mesmo. Os que não diziam o mesmo diziam, obrigatoriamente disparates. Os que não diziam disparates não diziam nada. Mas será verdade o que eles dizem?... E o que eles não dizem, será verdade?...as consta, me garantiram-me ... Deixe que eu pago os cafés. Até amanhã.

*

Antes de ir para a cama, ainda quero dizer que Lourenço Marques é uma cidade acentuadamente desportiva. As piscinas, os “courts” de tênis, os estádios abertos e cobertos, o Eusébio. Agora temos uma estação aéreo muito melhor para receber hoquistas.
Pronto, as redações fecharam. Ficaram os impressores a fazer os jornais. Só falta cumprir a conversa de bar. Começa em nobreza: a “cidade de caniço” foi o grande assunto jornalístico deste ano; devemos comprometer-nos a explorá-lo toda a vida. Concordam? Tudo concorda. Mais adiante umas garrafas, surge a primeira discrepância. Pequena. Depois outra, maior. E outra e outra. Vem a mãe das discrepâncias e cerra o horizonte da bula-bula. Só há uma solução: cada um fala do seu assunto. E vários monólogos simultâneos dão todo o esoterismo da conversa de bar.

*

O compadre Tomás apanhou-o na queda e meteu-lhe um ombro sob o sovaco, puxou-lhe o braço à roda do pescoço e levou-o, de pernas bambas, pés a arrastar, os dois aos bordos, numa solidariedade forçada. O compadre Tomás, enfermeiro do Quadro de Saúde, ia a pensar na vida do João e perguntava-se a si mesmo, se fazia bem ou mal em levá-lo a casa. Ao mesmo tempo ia reparando em que a viagem, assim, era nervosa e cansativa. Quando chegaria ele, Tomás, à sua casa? E pensava, Tomás, que entraria de serviço na manhã seguinte, bem cedo. João resfolgava. Que idéia a tua João!

*

Por mim, minha amiga cidade, vou apagar a luz na mesa de cabeceira. Cansado e tentado a não ter esperança. Mas sei que acordarei com um sol doirado e quente, em céu escandalosamente azul, a envolver-te completa, nos arrebiques e maselas, no riso e no choro, na música e nos gritos, nas flores e nos charcos, nos prédios e nos barracos, no amor e na briga de todos os contrastes, dando-se na mesma dádiva às trezentas e cinqüenta mil pessoas de que és feita. E o sol, minha amiga, minha mais bela cidade do mundo, o sol nasce agora às seis e trinta e seis. Nasce fatalmente!

 “Dário de Moçambique” , Lourenço Marques, 24 de Julho de 1963.


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

POR MAUS CAMINHOS


Enquanto esteve na Beira, de passagem para Lourenço Marques, o ministro das Obras Públicas, engo. Arantes e Oliveira, percorreu a cidade em companhia do presidente da Câmara Municipal, dr. Janeiro Neves, e do secretário provincial, dr. Andrade e Silva.
Andou o sr. Ministro por um lado e por outro desta Beira em obras, desta Beira que precisa de obras, principalmente de obras públicas e, de certo, o engenheiro ilustre sentiu-se em casa ao percorrer uma cidade em contínua construção, uma cidade inacabada, uma cidade-estaleiro.
Andou o sr. Ministro por maus caminhos e andou muito bem, pois sabemos que essas andanças lhe quadram ao feitio além de condizerem com a função. E também porque a Beira, só por si, justificaria um ministério de Obras Públicas, tal como o sr. Ministro, certamente ficou a pensar, quando terminou a sua rápida corrida por ambas as margens do Chiveve.
Por nossa parte, ficamos a pensar em que talvez tenhamos razão se ficarmos com a esperança nos resultados possíveis desta corrida ministerial pelos maus caminhos da Beira. Todos nos dizem e nós acreditamos que o engo. Arantes e Oliveira, além de técnico competente e de conceituado homem público, é pessoa de boa vontade e coração, que não deixará de se lembrar com interesse construtivo e solidariedade activa, desta jovem cidade que lembra uma rapariga partida, engessada, com muletas.

A.    V.

Notícias da Beira – Pág. 3 – 17 de Setembro de 1966


Obs.: “A. V.”  era o pseudônimo do Gouvêa Lemos, usado quando ele acreditava que o seu texto poderia ser censurado se colocasse o habitual G.L.. A. V. era na verdade a sigla de António Veríssimo, os dois primeiros nomes de António Veríssimo Sarmento Gouvêa Lemos.