domingo, 22 de setembro de 2013
Gouvêa Lemos na "Voz de Moçambique"
Depois da sua fase no jornal “Tribuna”, onde exerceu a multi-
função de vice-diretor e chefe de redação, Gouvêa Lemos assumiu a redação da “Voz
de Moçambique” no inicio de 1963. A sua primeira crônica, nesta fase, foi na
edição no. 68, IV Ano, de 28 de Fevereiro de 1963, ainda quando era editada quinzenalmente.
A entrada de Gouvêa Lemos na equipe da “Voz de Moçambique” tinha como objetivo
assumir a responsabilidade de transformar o jornal em semanário. Ficou até Novembro de 1964, quando partiu para a Beira para transformar o "Notícias da Beira" em um diário.
Estas primeiras linhas só para dar introdução à informação
sobre o presente que recebi de uma pessoa que me é muito querida, o Vitor
Adrião Rodrigues. Este me fez chegar às mãos a encadernação, em quatro volumes,
das edições da Voz de Moçambique que vão de 28 de Fevereiro de 1963 a 15 de
Janeiro de 1966. Esta relíquia pertencia ao seu irmão, o advogado Carlos Adrião
Rodrigues, que faleceu em Fevereiro de 2011.
Achou o Vitor Adrião Rodrigues que eu merecia ter a emoção de
folhear estes exemplares, descobrindo neles textos do Gouvêa Lemos como de
outras grandes feras que foram alguns dos seus contemporâneos. Entre eles o
próprio Dr. Adrião Rodrigues, que em dupla com a sua esposa Quina, foram
grandes amigos e companheiros do casal António e Madalena Gouvêa Lemos.
Deste material pretendo colocar aqui no blogue os textos do
Gouvêa Lemos que estejam inéditos neste espaço. O primeiro que identifiquei,
logo na primeira edição de 28 de Fevereiro de 1963 é uma das crónicas que mais
aprecio dele: “Negrófilos e Negrófobos”, que no seu estilo irónico e sarcástico
trata da qualificação que algum reaças que lhe fez sobre ser ele um negrófilo.
Este texto já foi editado aqui neste espaço no dia 14 de Outubro de 2012 e pode
ser acessado pelo link http://gouvealemos.blogspot.com.br/2012/10/negrofilos-e-negrofobos.html.
Do material pretendo ainda montar um completo índice dos
títulos das manchetes de cada uma das edições, por data, identificando os seus
autores. Existem alguns textos e reportagens não assinadas que também farão
parte do índice. Alguns destes textos, pelo estilo da sua escriba, percebem-se
serem do GL. Os que eu tiver informações concretas que são de fato dele, assim
serão identificados tendo a fonte da informação. Ainda estarei avaliando onde
disponibilizarei este índice para que os leitores possam ter acesso e assim,
eventualmente, me solicitem que edite textos que lhes sejam de interesse.
Pretendo ainda, via blogue “Lanterna Acesa 2” (http://lanternaacesa2.blogspot.com.br/), editar as propagandas que aparecem nas páginas da “Voz de Moçambique” neste
período, A ideia é catalogar em quatro grupos: Cigarros, Bebidas (Refrigerantes e
Cervejas), Carros e Outros (comércio e indústria no geral).
Tudo isto na minha velocidade, sem compromissos de prazos,
mas com o compromisso de dividir com o máximo de leitores parte da obra
jornalística do Gouvêa Lemos, como disponibilizar parte da história do
jornalismo luso-moçambicano que ele e outros seus contemporâneos fizeram parte.
O restante virá como sobremesa.
Zé Paulo
domingo, 4 de agosto de 2013
A carta que nunca chegou...
António Trindade Martins, em meados de Setembro de 1967, aos
20 anos de idade, partiu de Moçambique com destino a Lisboa para depois ir para
a França frequentar um curso de jornalismo.
Na sua ficha da PIDE, em 17/09/1968, já estava registrado
que “Consta que tem ideias políticas comunistas, suspeitando-se que pretende ir
para a Hungria, a fim de ali continuar o curso de jornalista."
Em 18/10/68 a correspondência enviada por António Martins a
Gouvêa Lemos já era escrita a partir de Budapest. Mais tarde, em 1970 aos 23
anos de idade, já na Suécia acaba por conseguir exilio politico, após ameaças
de expulsão deste país, através de apoios de organizações como a Amnistia
Internacional.
O mesmo havia se ausentado do território português sem
servir o exército, sendo dado pelo governo português como desertor.
Em Novembro de 1968 o Ministério do Exército já havia formalizado
pelo ofício 1782/SC a solicitação para a captura do mesmo, que foi acatada pela
PIDE através da O.S. 325/68.
As correspondências enviadas a Moçambique aos seus
familiares e amigos, como Gouvêa Lemos, como o inverso, eram capturadas pela
PIDE. Nessa ocasião, por uma destas correspondências, a PIDE na Beira abriu um
novo processo de investigação aparecendo o Jornalista junto ao “opositor” e
seus familiares como fichados.
Abaixo transcrevo uma das suas cartas que nunca chegou ao
GL. Palavras que ao mesmo tempo passavam otimismo em relação ao seu futuro, passavam
também as saudades de amigos e familiares.
Desta história podemos retalhar um monte de experiências e percepções,
mas a maior delas, me parece, é o reforço de que um estado ditatorial e/ou
ambientes de guerra induz o jovem a amadurecer precocemente.
Transcrição da carta...
Budapest, 18 /10/1968.
Caríssimo Gouvêa Lemos,
Após cerca
de um ano de silêncio - e depois de ter recebido a sua carta (perdoe-me!) volto
a escrever-lhe duas linhas, desta vez não de Paris, mas de Budapest, via Paris,
para lhe enviar o meu grande abraço.
Estou aqui há cerca de duas semanas. Havia-me candidatado a uma bolsa de estudo
para Economia Política em Paris e concederam-me.
Tive hoje a
minha 3ª. aula de húngaro. Note-se que chamo aula a um dia de aulas que
compreende entre a 6 e 7 horas !
O 1º. ano é,
pois, carregado à aprendizagem da língua. Depois, será mais 4 anos para o
curso. Portugueses somos 5 + 1 moça. Há
ainda angolanos (9 a 10), moçambicanos (6 a 7) e guineenses (9 a 11). Estão em
regra geral cursando especialidades técnicas. Cada um deles receberá no fim do
curso uma preparação militar. Quanto a nós, portugueses, a nossa valorização é
puramente cultural. Estou imensamente satisfeito porque consegui, enfim, a
minha chance de fazer algo por mim para que porem depois
fazer melhor pelos outros.
Estou-lhe a
escrever de um cafezinho muito discreto que fica a 10 minutos do meu colégio.
Terminei as aulas, ??????? e estou à espera da minha “professora”. O húngaro é
extremamente fechado mas eu
ao fim de uma semana encontrei uma professora muito competente...
Gostaria
imenso de saber algo sobre si, sobre toda essa gente, sobre o nosso jornal ! Há
muito que ninguém me escreve daí! Da minha família há muito que também não sei
de nada! Escreva-me, pois, por 2 ou 3 linhas que sejam, para a direção do meu
tio em Paris. Ele tem instruções sobre correspondência com território
português.
Receba pois
um abraço trans-continental, trans-cortina-de-ferro, trans-oceânico do amigo
que não se esquece de si.
Sinceramente,
Assinado....
P.S.: A sua
operação, como correu? A D. Madalena como está? Os mais pequenos? Um abraço a
todos, bem como à gente do N. B. e de uma maneira geral a todos os contatos da
Informação.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
PIDE - Ficha aberta em 15 de Novembro de 1968.
Por uma carta escrita em Budapeste e enviada a Gouveia Lemos a partir de Paris, a PIDE abriu-lhe mais uma ficha a 15 de Novembro de 1968. Uma carta que nunca lhe chegou às mãos...
Marcadores:
PIDE
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Morre mais um pedaço da história da imprensa moçambicana?
Ser filho do Gouvêa Lemos deve ajudar a ter um sentimento de
injustiça pela memória curta de grande parte de moçambicanos e portugueses em
relação à sua importância no jornalismo luso-moçambicano nos tempos de
Moçambique colônia.
Entendo que as novas gerações não saibam quem foi o
jornalista e assim não conheçam a sua história. Mas me entristece que pessoas
ligadas ao jornalismo moçambicano, e português, alguns que foram ainda seus
contemporâneos, não busquem colocar o seu nome em evidência pelo menos quando
as circunstancias assim apontam. O mundo anda, nós envelhecemos, e assim nos
últimos anos temos perdido importantes personagens da imprensa e da literatura
que foram testemunhas vivas e atuantes
de uma ditadura colonial e que com as suas penas e tinteiros digladiaram com as
injustiças daqueles tempos. As lutas eram tão intensas que as suas necessidades
pessoais, e das suas famílias, ficavam quase sempre em segundo plano. Não
morreram com balas no peito, mas perderam anos das suas vidas pelos ideais em
que acreditavam.
Gouvêa Lemos foi um desses homens. Um homem justo. Um homem
que valorizava os homens. O poeta José Craveirinha, o fotógrafo Ricardo Rangel
foram dois dos muitos nomes que tiveram o privilégio de conviverem
profissionalmente com o chapa Gouvêa Lemos, como Craveirinha o tratava, e com o
Mestre, como Ricardo Rangel o reverenciava.
Tenho o blogue “Jornalista Gouvêa Lemos” como um espaço para
matar saudades do que pouco tenho acesso das suas crónicas e como uma humilde
forma de dividi-las com leitores que por algum motivo tenham interesse de
voltar ao passado e entender como homens como Gouvêa Lemos conviviam com a
realidade daqueles tempos. Nos três anos que eventualmente atualizo algum
material, foram raras as vezes que fiz referencias ao Jornalista. O foco é
sempre a reedição de alguns dos seus textos, e quando busco fazer algum
comentário o faço como os demais leitores, no espaço apropriado a leitores.
Hoje, pela ocasião do falecimento do seu contemporâneo
Fernando Magalhães e por comentários que me fizeram chegar sobre um texto
editado no jornal SAVANA, de Maputo, acabei por sentir necessidade de fazer
algo como um desabafo, aproveitando para me despedir mais uma vez do meu Pai
quando digo adeus a um seu amigo e colega de profissão. Cada vez que um dos
seus chapas se vai deste mundo, sinto um pouco mais a perda do Pai. Creio que
isso esteja relacionado ao tê-lo perdido muito miúdo. Tinha eu os meus 11 anos
de idade, e como filho era ele, como todos os pais, o meu Pai Herói. Dali para
a frente conheci o Pai e o Jornalista pelos seus amigos e o Pai pela minha Mãe.
No livro 140 ANOS DE IMPRENSA EM MOÇAMBIQUE, editado pela
AMOLP em 1996 com a coordenação de Fátima Ribeiro e António Sopa, Fernando
Magalhães foi escolhido para escrever sobre o seu amigo Gouvêa Lemos. Como
homenagem a ambos, transcrevo aqui algumas das suas frases do texto que
intitulou como “GOUVÊA LEMOS: O HOMEM QUE QUERIA SER JORNALISTA”:
“Conheci o Gouvêa Lemos no início dos anos 60. Ele era chefe
ou subchefe de redacção do Notícias e eu tentava a minha carreira de jornalista
na muito desprezada “Reportagem” onde tínhamos a obrigação de relatar o que se
passava na capital de Moçambique (Província). Fazia portanto a “tabela de
marés”, a meteorologia,...”
“A Censura lia tudo, cortava o que queria e era necessário
saber escrever para a censura. Gouvêa Lemos, irônico, impunha-nos o respeito
pelas técnicas do jornalismo. Destruía com o seu sarcasmo os narizes de cera
que os redactores prestigiados queriam impor. Para ele os rumores iam directos
para o cesto dos papéis ou quando muito podiam ser tratados em crônicas até
porque aquele era um tempo de muitos rumores e poucas notícias permitidas.”
“Não tinha sido em vão que ele passara parte da sua
juventude a trabalhar em jornais brasileiros como o Estado de São Paulo. Só que
por aqui a Censura dava-lhe poucas hipóteses."
“Mas para Gouvêa Lemos a técnica do jornalismo era sagrada.
Foi ele o primeiro a meter-me na cabeça uma das regras de ouro do jornalismo
anglo-saxónico: os factos são sagrados e as opiniões livres.”
“Murmurando contra o cinzentismo do Notícias chegamos a 1962
e quando eu já me preparava para escolher uma profissão mais apaixonante o
Gouvêa Lemos convidou-me para fazer parte dos quadros de um novo jornal que
seria uma pedrada no charco: a Tribuna. A sete de Outubro de 1962, numa noite
incrivelmente quente em que ninguém ligado ao jornal dormiu, saiu o primeiro
número. Claro que estivera para sair alguns dias antes. Mas tal como hoje
amontoavam-se as insuficiências, algumas más vontades paralisadoras e um facto
muito importante: a coordenação do caos de idéias e teimosias de um grupo
numeroso de gente de boa vontade que sabia de tudo, menos do que é fazer um
verdadeiro jornal.
“Coube ao Gouvêa Lemos ser o homem que organizou o caos de
grandes idéias e enormes boas vontades transformando esse caos no que a Tribuna
foi. Um jornal moderno tão bom como os que faziam nas grandes capitais do mundo
e como verdadeiro jornal reflectia o mundo e o Moçambique do momento."
“Um jornal que soube apanhar de surpresa as autoridades
metropolitanas que nem sonhavam ser possível que por cá houvesse conhecimentos
técnicos e atrevimento para se fazer um jornal assim. Um jornal que aproveitava
as hesitações e ambigüidades do regime e as tentativas de abertura de homens
avançados como o Ministro do Ultramar Adriano Moreira ou o Governador Sarmento
Rodrigues, para dar notícias e ter opinião.”
“Foi até ao fim um mestre jornalista. Ao mesmo tempo um
idealista e um técnico pragmático. Lembro-me de uma vez lhe ter perguntado na
Beira (estávamos no fim dos anos 60) se afinal ele era português ou
moçambicano. Disse-me que se estava nas tintas para isso. Que era um jornalista
honrado.”
A imprensa moçambicana faz justas homenagens ao jornalista
Fernando Magalhães que tanta importância teve para o seu jornalismo , mas
derrapa mais uma vez ao deixar o nome de Gouvêa Lemos, e de outros, de fora de
referências a passagens como o do jornal “A TRIBUNA” que na década de 60 foi um
projeto audacioso a que o Fernando Magalhães se refere no seu texto.
Não li mas soube por um amigo, residente em Maputo, que o
jornal SAVANA publicou no último dia 8 de Fevereiro um texto dedicado a este
jornalista e o relaciona à história do jornalismo moçambicano com a sua
passagem pela “TRIBUNA” fundada pelo João Correia Reis, onde em mais um exemplo
a imprensa atual de Moçambique se mostra injusta com este capítulo tão
importante da sua história.
E ironicamente falando, nem a PIDE na época via esse tema
dessa forma. A 2 de Outubro de 1962 um inspetor da PIDE dava conhecimento ao
seu subdiretor o nascimento deste novo jornal em território moçambicano. O
documento identifica neste primeiro documento quatro nomes: o de Frederico
Madureira como diretor, o do João Reis como editor e o de Gouvêa Lemos como
chefe de redação. Fala ainda no nome de José Baptista Oliveira como sendo
responsável por contratar na Metrópole pessoal para a tipografia.
Em Outubro de 1962 é expedido pela PIDE outro documento
confidencial onde além destes nomes aparecem os nomes de Ilídio José da Rocha,
Adérito José Lopes, Domingos Augusto Vieira Azevedo e José João Craveirinha.
Por algum motivo os nomes de Gouvêa Lemos, do Ilidio Rocha e do Domingos
Azevedo estão sublinhados a vermelho.
Anexarei estes documentos para que possam ser apreciados
como parte da história de Moçambique colonial.
Tenho a convicção que os profissionais do jornalismo
moçambicano não haveriam de perder, e sim a ganhar, se buscassem conhecer
melhor a história de Gouvêa Lemos que é componente de grande importância da
história do qual fazem hoje parte.
Não nos devemos esquecer que o hoje não existe sem o ontem.
Quando se esquece existe grande possibilidade de se ficar patinando no que
seria o futuro.
Abaixo coloco as cópias dos documentos da PIDE a que me
referi. Fico com o compromisso de em outra oportunidade de colocar neste blogue
outros documentos relacionados ao cidadão luso-moçambicano e jornalista Gouvêa
Lemos.
Marcadores:
Fernando Magalhães,
Tribuna
domingo, 11 de novembro de 2012
PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE (Na íntegra)
Em Junho de 2010 coloquei esta cronica em seis partes. Tenho recebido alertas sobre a dificuldade dos leitores de conseguirem acessar as partes numa sequência lógica e simples. Assim, ao passarmos ontem pelos 125 anos da sua fundação, volto aqui a editar esta cronica escrita por Gouvêa Lemos no ano de 1963.
____________________________________________
PARA UM RETRATO DA MINHA AMIGA CIDADE
![]() |
| Um Samuel dos tempos atuais... Foto de Zé Paulo registrada em Maio de 2012, em Maputo. |
O sol nasce agora às seis e trinta e seis, mas continua a nascer no mar como em todo o ano. No lado noroeste da cidade não esperam por ele para começar o dia; usam madrugadas com lua, auroras de pobre.
*
O Samuel, que é um contínuo num terceiro andar da baixa desde as sete às dezassete e come o farnel à sombra de árvores, chamadas em latim no Jardim da Gama, e vai à noite às aulas da Industrial, mora as restantes quatro horas no Chamanculo. Chega ali já noite alta; sai de lá antes que a noite finde. Samuel é um morcego que sonha ser pássaro. Minha amiga cidade, Samuel será pássaro, não será ?
São quatro e meia da manhã e o vermelho machibombo arranca em frente do Bazar do Xipamanine, com os seus cigarros “king size” e seus sorrisos de dentifrico nos lombos, carregando lá dentro sob as luzes amarelas cinqüenta e tal estivadores, rumo à Praça Mac-Mahon. Que é do sol, que ainda não veio alumiar estes heróis no avanço do cais Gorjão, onde vão manusear às lingadas o pão nosso de cada dia? Que é do sol, que se guarda para acordar a Polana?!
Minha amiga cidade, atenção a esse sol, não vá ele aburguesar-se.
*
Pela Avenida Craveiro Lopes, já vem chapinhando na água das chuvas, chap-chap, os pés descalços no leito do asfalto do rio parado, o mainato, os moleques, os cozinheiros, os mufanas, as mamanas, os serventes, os ardinas. Os camiões de lixo recolhem. Os de leite circulam. Na Caldas Xavier galopa uma carrinha de quatro cilindros, trabalhando em três e batendo os guarda-lamas, com um cão a ladrar-lhe. Leva galinhas, ovos e papaias.
*
Mesas empilhadas e cadeiras encolhidas junto das cervejarias, água e vassouras espreitando às portas, criados retirando as latas vazias de lixo, vai começando o ronronar contínuo dos motores de toda a casta de bichos com rodas, e – bom dia Lourenço Marques! – o sol já nasceu sim senhores, que as empregadinhas já pisam , e pisam bem, e ainda bem que pisam, as ruas que descem para as lojas, para os armazéns, para os salões, para os escritórios, para as repartições, ah! as empregadas já vêm, faladoras, os cabelos cacimbados do chuveiro, ó cidade amiga, elas dão-te mais graça, elas são mais frescas, elas são mais repousantes que todos os parques e jardins!
*
Negros Mercedes-Benz são lavados sob alpendres das moradias, no Sommerchield; fardas de impedidos, paletós de motoristas, fardetas de moleques passam as cancelas de ferro. O pão já veio. Saem meninos para a escola. Lá para a rua Nevala, comanda um clarim com voz de galo. O Grêmio Civil ainda tem os vidros embaciados e já o sol toma banho na baía. É verdade: na baia, convém que um navio apitasse. Embora a chuva que há-de vir já traga, à cidade inteira, os silvos das locomotivas em manobras. E uma ambulância corra, tão cedo, com a sirene a gritar, pela Pinheiro Chagas, levando a mulher que ia tendo a criança na rua. Suponho que já chega de música de fundo, com a ubíqua motorizada na bateria.
*
Cai toda a gente no afã de ganhar a vida consumindo outro dia. Tilintaram relógios de ponto. Chaminés largaram uns fumos de indústria. Caixeiros iniciaram o eterno dobra-e-desdobra das peças de tecido. E as barcas da Catembe vêm e voltam , carregando e descarregando gente, cestas e cangarras. Nos mercados municipais ou furtivos agitam-se figurantes em cenário de natureza morta. Compradores e vendedeiras fazem torneios de voz alta. A bela Juju ainda na cama, acorda e boceja; só agora dá conta, em câmara lenta, da noite que foi a noite passada. – Ahahnnn ...., foi demais, ela própria confessa, e enovela-se em busca do sono, que ao fugir, a deixa nua diante de si. . Vamos fugir da Juju, que ela vai chorar.
*
Entretanto, lembremo-nos dela, ingenuamente fingindo de ingênua-bardot, a passar na Avenida da República, rentinha às mesas do Continental, entre as cinco e cinco meia da tarde. Não há lugares para mais ninguém nem é preciso haver, que estão lá todos do costume. As pessoas falam uma com as outras, não se olhando, pois o olhar é preciso para quem passa. As conversas... ora para que falar das conversas? Não interessam e nem podem interessar até porque, se interessarem, quem as apreciaria mais não seriam os interlocutores mas aquele sujeito da mesa ao lado; quem é ele, que faz ele, que está sempre na mesa do lado?...
*
Sobretudo a praia, a praia principalmente. Eis o grande atractivo turístico da turística Lourenço Marques. É certo que há os camarões e os lagostins. É certo. E as lojas dos chinas e a arte indígena. O ambiente muito continental dos hotéis e a pincelada ibérica das touradas. E a hospitalidade, também, de que as turistas (nem sempre) se queixam. Mas a praia, sim, é que dá o tom. Por isso a marginal é o que é, e se tornou obrigatório rodar por ali, doze quilômetros a ir, doze quilômetros a vir. E por isso, também o Sr. Alves Pinheiro se embasbacou e falou dos “seus clubes navais”... Por trás dumas grades acampam turistas vermelhos que comem bananas. A gente vai vê-los, quando eles não estão comendo bananas e sim a porem-se vermelhos sobre a areia. Convencionou-se que elas são todas “giras”, o que dá uma certa alegria à rapaziada, que se embebeda, também convencionalmente, com coca-cola.
*
Do sétimo andar caiu um belo vasinho de avencas. Escarrapachou-se no tejadilho do Hilman do senhorio. Um magnífico fim de tarde, prenhe de interesse, espumante de agitação. O senhor Freitas, seu marido, prefere a pesca de paredão. Ao menos ali, ninguém o chateia nem fala de ninguém. Deixou foi de levar o “transistor” para pousar na balaustrada, pois afastava os safios.
*
Além da pesca desportiva, há a outra, sobre qual as teorias são diversas, parecendo, porém, provado que nas águas do Canal de Moçambique pescam bem os japoneses. Entretanto poveiros em traineiras, gente de Marracuene em “tatarjos”, indianos em barcos à vela, lá vão trazendo o teu peixe, amiga cidade. Arrancado a pulso, com saber e paciência, ao teu amado Índico. Mulheres, de filhos no dorso, varam a noite, metidas na água salgada até às coxas, caçando mariscos para o teu caril dominical e para ornamento da rendosa “season”. Peixe e mariscos para regatearmos bem regateados, que a visa, assim a subir... mas que grande roubalheira!
*
Também varam a noite outras mulheres, sem filhos no dorso. Sem filhos no dorso, que atrapalhariam o “twiste” . Entram com a sua parte no coquetel do grande “show” nocturno, misturando-se com as espanholas e as gregas e as transvalianas, da cançoneta e do baile. São elas as encarregadas do “tic” exótico. Como começaram, como vão acabar, oh! la, la! – isso é que interessa? Para já, bebem e fumam, dançam e divertem.
*
Rápida corrida para os cinemas. Rápida corrida para casa. Um atrasosinho para meio bife. Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Lourenço Marques, a moderna capital da província portuguesa de Moçambique, é uma cidade que cresce espectacularmente.
Os jornais, esta manhã, dizima todos o mesmo. Os que não diziam o mesmo diziam, obrigatoriamente disparates. Os que não diziam disparates não diziam nada. Mas será verdade o que eles dizem?... E o que eles não dizem, será verdade?...as consta, me garantiram-me ... Deixe que eu pago os cafés. Até amanhã.
*
Antes de ir para a cama, ainda quero dizer que Lourenço Marques é uma cidade acentuadamente desportiva. As piscinas, os “courts” de tênis, os estádios abertos e cobertos, o Eusébio. Agora temos uma estação aéreo muito melhor para receber hoquistas.
Pronto, as redações fecharam. Ficaram os impressores a fazer os jornais. Só falta cumprir a conversa de bar. Começa em nobreza: a “cidade de caniço” foi o grande assunto jornalístico deste ano; devemos comprometer-nos a explorá-lo toda a vida. Concordam? Tudo concorda. Mais adiante umas garrafas, surge a primeira discrepância. Pequena. Depois outra, maior. E outra e outra. Vem a mãe das discrepâncias e cerra o horizonte da bula-bula. Só há uma solução: cada um fala do seu assunto. E vários monólogos simultâneos dão todo o esoterismo da conversa de bar.
*
O compadre Tomás apanhou-o na queda e meteu-lhe um ombro sob o sovaco, puxou-lhe o braço à roda do pescoço e levou-o, de pernas bambas, pés a arrastar, os dois aos bordos, numa solidariedade forçada. O compadre Tomás, enfermeiro do Quadro de Saúde, ia a pensar na vida do João e perguntava-se a si mesmo, se fazia bem ou mal em levá-lo a casa. Ao mesmo tempo ia reparando em que a viagem, assim, era nervosa e cansativa. Quando chegaria ele, Tomás, à sua casa? E pensava, Tomás, que entraria de serviço na manhã seguinte, bem cedo. João resfolgava. Que idéia a tua João!
*
Por mim, minha amiga cidade, vou apagar a luz na mesa de cabeceira. Cansado e tentado a não ter esperança. Mas sei que acordarei com um sol doirado e quente, em céu escandalosamente azul, a envolver-te completa, nos arrebiques e maselas, no riso e no choro, na música e nos gritos, nas flores e nos charcos, nos prédios e nos barracos, no amor e na briga de todos os contrastes, dando-se na mesma dádiva às trezentas e cinqüenta mil pessoas de que és feita. E o sol, minha amiga, minha mais bela cidade do mundo, o sol nasce agora às seis e trinta e seis. Nasce fatalmente!
“Dário de Moçambique” , Lourenço Marques, 24 de Julho de 1963.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
POR MAUS CAMINHOS
Enquanto esteve na Beira, de
passagem para Lourenço Marques, o ministro das Obras Públicas, engo.
Arantes e Oliveira, percorreu a cidade em companhia do presidente da Câmara
Municipal, dr. Janeiro Neves, e do secretário provincial, dr. Andrade e Silva.
Andou o sr. Ministro por um lado
e por outro desta Beira em obras, desta Beira que precisa de obras,
principalmente de obras públicas e, de certo, o engenheiro ilustre
sentiu-se em casa ao percorrer uma cidade em contínua construção, uma cidade
inacabada, uma cidade-estaleiro.
Andou o sr. Ministro por maus caminhos e andou
muito bem, pois sabemos que essas andanças lhe quadram ao feitio além de
condizerem com a função. E também porque a Beira, só por si, justificaria um
ministério de Obras Públicas, tal como o sr. Ministro, certamente ficou a
pensar, quando terminou a sua rápida corrida por ambas as margens do Chiveve.
Por nossa parte, ficamos a pensar
em que talvez tenhamos razão se ficarmos com a esperança nos resultados possíveis
desta corrida ministerial pelos maus caminhos da Beira. Todos nos dizem e nós
acreditamos que o engo. Arantes e Oliveira, além de técnico competente e de
conceituado homem público, é pessoa de boa vontade e coração, que não deixará
de se lembrar com interesse construtivo e solidariedade activa, desta jovem
cidade que lembra uma rapariga partida, engessada, com muletas.
A.
V.
Notícias da Beira –
Pág. 3 – 17 de Setembro de 1966
Obs.: “A. V.” era o pseudônimo do Gouvêa Lemos, usado
quando ele acreditava que o seu texto poderia ser censurado se colocasse o
habitual G.L.. A. V. era na verdade a sigla de António Veríssimo, os dois
primeiros nomes de António Veríssimo Sarmento Gouvêa Lemos.
Assinar:
Postagens (Atom)




