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Jornalista Gouvêa Lemos

domingo, 24 de março de 2019

CARTA AO GOUVÊA LEMOS (Por Eugênio Lisboa)




Esta carta que hoje me apetece escrever-lhe é, se não estou em erro, a segunda que lhe envio. A primeira escrevi-lha (mas não cheguei a publicá-la ou ela não chegou a publicar-se) aqui há uns bons anos atrás: era uma prosa cheia de uma argumentação miúda, com a qual tentava provar-lhe aquilo que até certo ponto os factos se encarregaram de mostrar que não tinha lá muita viabilidade de prova... Como discordávamos, acabámos por ficar amigos. Assim vai o mundo!
Mas hoje o caso é outro. Porque lhe escrevo? Para lhe ser franco, não sei bem se conseguirei encontrar, por enquanto, uma resposta que possa ir muito além de um caprichoso «porque me apetece!» O caso é que vou escrever-lhe. E é até possível que, neste inútil exercício de um diletantismo que me é saboroso, eu acabe por encontrar, com alguma nitidez, o contorno das razões que por enquanto se me impõem apenas sob a forma nebulosa de uma violenta vontade de lhe escrever.  Seja pois o que Deus quiser!
Dou ao diabo os escrúpulos que pudesse ter com a sua modéstia e aqui lhe vou dizer de frente o que até agora tenho andado a cochichar a alguns amigos comuns e sempre rigorosamente nas suas costas: Você é um jornalista de talento e, tanto para os que gostarão de o ouvir dizer, como para aqueles que vão gostar um pouco menos, como até para os que não vão gostar absolutamente nada, eu não hesitarei em lhe dizer que Você é não só o mais talentoso jornalista que tenho lido em jornais portugueses, como até um dos poucos que efectivamente honram essa profissão que o é tanto como qualquer outra. Mas esta opinião, que partilho de resto com vários amigos, não é ainda daquelas que tenho tido a preocupação de cochichar quando o apanho de costas voltadas. Se lha não dei já por estas palavras, tê-la-ei dado pouco mais ou menos nestes termos ou, em qualquer dos casos, não tire o cuidado expresso de lha não dar. Você não é mais vaidoso do que aquilo que é normal e até saudável ser-se e não ia portanto correr o risco de desintegrar-se só porque este seu modesto (mas malcriado) amigo é de opinião que Você, em matéria de jornalismo, é um «truta» dos antigos. O que eu nunca lhe disse a si mas me tenho fartado de andar a dizer aos amigos (e aos outros) é que o seu talento, por muito que seja, é o que, em si, menos me impressiona. Para lhe ser franco, Gouvêa Lemos, estou-me até borrifando para o seu talento (já lhe disse que era malcriado!). Gosto, é claro, dele, como gostam todos os que o reconhecem, preciso (precisamos!) dele para que V.M. seja o que tem sido, aborrecer-me-ia imenso que os serviços que ele tem prestado deixassem de estar disponíveis, mas que quere Você?, sou feito assim: o talento e a inteligência das pessoas são qualidades admiráveis mas não creio que sejam elas, em si, aquilo que torna as pessoas dignas de estima e admiração. Até porque as pessoas possuidoras de tais predicados «nada» fizeram para os ter: foi a Madre-Natura, generosa e propiciadora, quem lhos ofertou com maior ou menor dose de arbitrariedade. Você, Gouvéa Lemos, não tem afinal culpa nenhuma do talento que possui! Do que Você já poderia ser culpado, e muito, era de não o ter sabido até agora empregar! Tudo está na orientação que se dá a tão perigosos dotes... E é precisamente aqui que eu começo a entrar na zona do que até agora não tem passado de cochichos. É muito simples: queria dizer-lhe que Você, muito mais e muito melhor do que ser uma pessoa cheiíssima de talento (há-os para aí às dúzias, há até cada vez mais! ) é uma pessoa de carácter e é também um homem profundamente bom. Isto sim, estimo eu, que é uma dura aplicação e conquista de todos os dias, que exige uma luta sem quartel contra o que em nós convida à complacência e que põe à prova muito mais do que os talentos que o berço nos legou.
Você é forte, da força dos teimosos e dos íntegros, possui da honra um conceito muito antigo, um daqueles conceitos absolutistas e um pouco «farouches» que nós tínhamos quando éramos garotos e queriamos por força ser «sempre» os últimos a cuspir. Mas você, com tudo isto, é sobretudo um homem cheio de bonomia, de tolerância e de bondade. Você só é mau, rigorosamente, para si próprio... Ai, porém, de quem queira pisá-lo! Você tem arriscado a vida (a sua e a dos seus), tem feito mais do que arriscá-la: tem-na francamente comprometido! Você tem passado mal, um mal que não é eventual, mas contínuo, persistente, corrosivo, daqueles que deprimem e oprimem, e no entanto, Você tem sempre uma palavra boa e um ar de optimismo que crucificam o mais pintado. Você tem tido todas as razões (e mais urna)para há muito se ter rendido e, no entanto, mesmo já sem balas, Você ainda usa o bacamarte à laia de cacete. Voltando ao meu tempo de miúdo e pondo-me a lembrar um velho e esquecido filme do Orson Welles (chamava-se «Jornada de Pavor» e às vezes há razão para se ter pavor), Você tem frequentemente sido o pobre do Joseph Cotten, também bonzão e tolerantíssimo, encurralado num quarto no extremo do corredor de uns navio sinistro, rigorosamente sem saída, cercado por todos os lados (como as ilhas), sem armas, mas considerando muito a sério a possibilidade de salvação por via de um minúsculo canivete limpa-unhas! Confesse, Gouvêa Lemos, que era optimista e resistente o bom do Joseph Cotten! Teimosa raça de honestos que Vocés são! Embirrantes criaturas, chatíssimos trepadeiras, que despistam todos os cálculos daqueles para quem tudo é cálculo! É o que os desbarata — esbarrarem com algo que não tinha sido incluído nas previsões do orçamento: a honradez, a inteireza, as barbas do Vice-Rei! E ficam logrados...
Dizia o bom do Alexandre Dumas, Filho (regressámos à infância, lembra-se?, perdoe¬-me pois o pouco alevantado das citações...), dizia ele, o Alexandre Dumas, Filho, que «a honestidade é a maior de todas as malícias, porque é a única que os maliciosos não prevêem». Como é verdade! Que grande malandro, no meio de toda esta tristeza, Você acabou por me sair, ó Gouvêa Lemos! Alguns deles a contarem que Você fosse de se entregar e Você com aquele seu ar arrelampado, de olhos muito abertos e bigode murcho, a dizer na voz arrastada que a gente lhe conhece: «Eu lá disso de contas não sei nada! Eu até só sou teimoso!...»
Pois é verdade, sempre acabei por achar aquilo que lhe queria dizer. Era afinal tão simples: do que gosto, em si, é, sobretudo, da honestidade, da tolerância, da bondade e dessa tão embirrenta maneira de ser «malicioso»... Parece¬-lhe pouco?
Salvê, amigo velho! E até à próxima que há-de ser, se não estou em erro, no sábado, ao café, depois do almoço. Para nada em especial, apenas com o fim de, como diz uma boa amiga nossa, «discutirmos um assunto».

Seu,

EUGÉNIO LISBOA


VOZ DE MOÇAMBIQUE
13/9/1964

sábado, 23 de março de 2019

Lourenço Marques já foi uma cidade limpa




Desde tenra infância goza Lourenço Mar­ques da boa fama de cidade limpa. Boa e justa fama era essa, pois Lourenço Marques tinha, de facto, requintes de asseio, na sua parte mais visível e mais conhecida lá fora – a de cimento e asfalto.
Agora não. Há uns tempos a esta parte, vem a burguesa criatura a descuidar-se tanto de sua figura física, com tal desleixo na hi­giene, que parece outra. E já se mostram bem antigos os tempos em que o visitante chegava e dizia, na fatal entrevista: «Cidade bonita, cidade arrumadinha, cidade limpa». A gente sorria, enternecida, porque era verdade.
Nos dias que passam, ninguém pode referir-se com sinceridade o essa perdido faceta da risonha capital de Moçambique, onde, a meio das manhãs de sol, nada mais juncava o pavimento das ruas e dos passeios que não fossem as flores das acácias e dos jacarandás, dando aos repórteres o pretexto para a velha imagem das «ruas atapetadas, etc.».
Juncam hoje as ruas lixos diversos, esquecidos pelos carros de limpeza, desprezados pelos varredores. Tristes ficam os lixos todo o dia e vários dias, nas valetas, junto das árvores, às vezes acumulados em montículos com uma certa disciplina; muitas outras, caídos na mais vil anarquia, correndo loucamente por onde calha.
Oh, sim, Lourenço Marques já foi uma cidade limpa! Agora não. E, mesmo com o risco de levarem à conta de reaccionário saudosismo esta minha pretensão, atrevo-me a sugerir que o serviço municipal de limpeza abandone essas práticas modernas, talvez orientadas pelo nobre sentido de criar rápidamente na nossa berro amada cidade um certo «cachet» de velha cidade porca, ao estilo das mais célebres velhas cidades porcas dos mais velhos continentes, e que se retome a antiga fórmula de varrer muito bem varrido a capital, removendo escrupulosamente o lixo para a lixeira.
A limpeza não dá a felicidade mas ajuda muito.
Texto de
Gouvêa Lemos

Fotos de
José Amador

Voz de Moçambique – 4/4/1964

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Eutanásia

Coluna “Teclado Universal” 
de Gouvêa Lemos
Jornal Tribuna – 1962


Desde muito pequeno, Eutanásia me significou nome de mulher. Aliás, feio nome. Mais tarde, quando comecei a ouvir umas conversas de gente grande entre os meus pais e os meus tios que eram médicos, estabeleceu-se outra confusão e passei a considerar eutanásia uma doença rara, vindo do Oriente. Só maiorzinho, já a bulir em dicionários e a ler uns livrinhos, é que percebi que a eutanásia pode ser sinônimo de assassínio.
Matar uma criancinha é cometer um infanticídio. Infanticídio é (horrível) assassínio, em principio punível por lei – parece que em todo o mundo. Há, no entanto, circunstâncias que, frequentemente, fazem que um assassino não seja punido; mas não conseguem que deixe de ser assassino.
Por isso, em relação ao famigerado julgamento de Liège, o que se pode ser discutido é a justeza da sentença, no caso especial a mãe desventurada que pariu um filho defeituoso, em consequência de uma droga que tomou e tem provocado monstros em outros ventres maternos. Devia ou não ser absolvida, como foi a ré Susane Vandepute, acusada de matar o seu filho?
(Aqui pode usar-se o eufemismo ‘eutanásia’). Considerados as circunstâncias em que praticou o infanticídio, devia ela, ou não ser condenada?
Até porque na formação da resposta – tal como aconteceu com a população de Liège – entram ainda factores de ordem emocional, acredito que a um largo inquérito assim feito, aqui na nossa cidade, respondesse uma notável maioria de aplausos aos juízes belgas.
Mas a questão fundamental é a do princípio, que à Humanidade interessa conhecer até que ponto foi abalado com este caso; o que mais deve preocupar-nos é verificar as roturas produzidas em toda uma estrutura de regras sociais e códigos morais e jurídicos, mas não vá ficar aberto um importantíssimo precedente, segundo o qual ao Homem cabe o direito de controlar pela supressão de vidas, a continuação da sua espécie.
Isso sim, parece-me fundamental. E tanto, que, por poderem responder afirmativamente a essa pergunta, foi que os teóricos do nazismo justificaram a morte científica (eutanásia não é morte científica?) de milhões de judeus, a esterilização de seres humanos ‘inconvenientes’ ao Homem, a aniquilação total de uma raça “inferior”.
Em face de cada caso isolado, nos podemos comover-nos, exaltar-nos ou encolerizar-nos; mas para lá do acontecimento e acima da pessoa em causa, temos de descortinar a sua representação no plano universal, a sua repercussão em toda a Humanidade.
Neste caso, eu perfilho o ponto de vista cristão; estou com  o “Observatore Romano” e concordo com o Padre José Alves, na sua resposta ao inquérito deste jornal. Mas parece-me que a um ateu não faltam razões para esta mesma posição, mesmo ignorando o quinto mandamento; não matarás!
-         Pois não será a eutanásia desumana e anti-natural?
-         Não será uma abdicação inglória – à priori – da Ciência, que sabe estarem à sua espera os mistérios que se hão-de abrir, a um, à sua passagem lenta mas determinada e heróica?
-         Não será uma atitude cobarde, a da mãe, pegando-se a cumprir um mandado da natureza, feito de carinho, persistência, abnegação e esperança?
Quais serão, ao fim e ao caso, as razões aceitáveis da eutanásia, que não se situem num plano inferior da natureza humana?  Poderão alegar-se que elas se fincam no propósito ser recém-nascido, a quem espera uma vida certamente infernal, inútil, vergonhosa.
-         Mas quem sabe que será infernal? Onde está lá estabelecida uma escala para o inferno da vida?
-         Quem garante que será inútil a vida de um ser humano, lá porque o corpo é deformado?
-         Quem nos diz que no futuro teria motivos de envergonhar-se e não orgulhar-se esse que nasceu e a mãe, tresloucada de dor, matou, em  Liège?
-         Quem? A mãe, o médico, os juízes? Não, ninguém.

O Homem não pode ser juiz do Homem; muito menos pode dispor da sua vida. E isso não tem nada a ver com a idade. Ser vivo há minutos ou horas ou dias ou meses ou anos – é ser vivo. No entanto, quando uma criança já tem uma certa idade, o infanticídio parece que deixa de chamar-se eutanásia...
Quanto à miséria a que, muito provavelmente, o ser deformado fisicamente, será votado – os aleijadinhos a pedir esmola, a vender cautelas –, não devemos esquecer que os miseráveis deste mundo não são; via de regra, aleijados a que a luta contra a miséria não se faz nascer, mas em vida e quanto mais se viver e quantos mais vivermos para lutar !  Aí não mete o bico a eutanásia.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Para Jacqueline Kennedy

Em 22 de Novembro de 1963, John Kennedy foi assassinado, em Dallas, quando começava a preparar a sua campanha para a reeleição como Presidente dos Estados Unidos. Houve quem não quisesse que isso acontecesse e interromperam a vida de um grande líder mundial.
No dia 08 de Dezembro desse mesmo ano, Gouvêa Lemos escreve um artigo em formato de carta para a viúva Jacqueline, para a encorajar ao enaltecer os valores do seu recém falecido marido. Valores esses tão necessários em um Moçambique daqueles tempos coloniais. Valores raros em um estado ditatorial de direita. 



Para Jacqueline Kennedy

Perdoe, Jacqueline, que lhe escreva numa linguagem nada formal, este bilhete apressado, recado breve de irmão. Aliás, agora que saiu da Casa Branca, Jacqueline, ainda com os olhos belos pisados mas dignamente enxutos, sinto-a tão fraternal quanto brutalmente foi demitida do seu lugar de Primeira Dama da América.
Não vou ainda dizer-lhe como sofri per si. Já sabe. Quem não sofreu, meu Deus? Quem pôde não sofrer? Só gente que não é gente.
Vou antes felicitá-la pela morte, assim como foi, do seu marido John Fitzgerald Kennedy. Felicitá-la, sim, Jackie; bem me entende.
Se a vida pública de seu marido foi útil e como Presidente do seu país ele se esforçou, com firmeza e coragem, por fazer valer os direitos civis de todos os americanos, não há hoje dúvida nenhuma de que o seu assassínio pago pelo ódio da reação sublimou a luta em que morreu, realçou o ideal, foi a cúpula harmoniosa dum grandioso panteão, sustentada por braços de homens redimidos.
Jacqueline: quem se dedica inteiramente à obra da Paz, quem defende os humildes, proclama o primado do Direito, luta pela Liberdade, quem aponta, em nome da Justiça, a sua espada às gargantas dos poderosos, quem isso faz, minha Irmã, muito se arrisca e raro é não morrer em combate; somente acontece que contínua combatendo para lá da morte; e quando o matam é ele quem vence.
Devemos estar certos de que o seu valente John está neste momento a ver, lá de cima, como valeu a pena; e aquele sorriso aberto e jovem vai-Ihe pregueando o rosto e brilha no olhar, enquanto lhe pede que não chore a morte do herói pois morreu gloriosamente.
Quanto a si, Jacqueline, bem sabe como nós vamos continuar a ver na sua figura grácil a personificação do espírito que reinou até há pouco nas salas da Casa Branca; um ar de optimimsmo, um halo de humanidade, um jeito de compreensão, um toque de tolerância, um rictus de decisão, um olhar de fé. Jacqueline Kennedy, o mundo vai continuar a estimá-la e a chamar-lhe Jackie. E a nossa voz. feita de milhões de vozes, será parecida, aos seus ouvidos, com a de John. Deus abençoe os seus filhos, Jackie.

GOUVÊA LEMOS


Ano IV – No. 106 – 08 de Dezembro de 1963 – Página 11

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

0 NATAL DE TODOS NÓS


Hoje, dia 18 de Dezembro de 2013, Gouvêa Lemos faria 89 anos de idade. Sendo também tempos de Natal, reedito o editorial da Voz de Moçambique da semana de 21 de Dezembro de 1963, há exatos cinquenta anos atrás.
Um texto, intitulado de "O Natal de todos nós",  que demonstra a coragem daqueles que naqueles tempos escreviam  em meio e para uma sociedade onde uma grande parcela era o extrato de uma ditadura racista. Um texto limpo, sereno, mas que disfarçadamente - nem tanto - cutucava a ferida, fugindo ainda assim dos censuradores.



EDITORIAL

0 NATAL DE TODOS NÓS



        0 Natal é um facto histórico ocorrido há 1963 anos. De tal forma influenciou a vida humana esse nascimento dum Homem que se chamou Jesus Cristo e os cristãos acreditam ser filho de Deus e o próprio Deus humanizado, que esse acontecimento ocorrido em modesto estábulo, nos arredores duma cidade do Oriente Médio, se transformou não só em causa duma religião, em fonte duma doutrina, em origem dum novo ideário moral e social, mas em símbolo de todos os anseios da Humanidade, em degrau da sua esca­lada para a perfeição, em bandeira do seu progresso — mesmo para os não-cristãos.
Isso tudo se resume e se comprova no facto de o Dia de Natal ser considerado, no mundo inteiro, o Dia da Fraternidade Universal. O Natal faz os ho­mens irmãos.
Param as guerras, guardam-se as armas, esque­cem-se os ódios, porque é Natal; suspende-se a cor­rida que leva a nenhures, no combate sem pausa por ser mais rico havendo mais pobres, para um gesto de generosidade, porque é Natal; recolhe-se a casa, re­encontra-se a família, identifica-se cada um com o ambiente que o cerca vivendo-o intensamente, porque é Natal.
E isto acontece, independentemente de se acre­ditar ou não em que Jesus Cristo era Deus; só porque ele foi um Homem que morreu pelos outros homens; só porque ele é o Herói dos heróis que se sacrificam no altar da redenção dos homens.
Ora, em mais este Natal vivido em Moçambique, precisamente quando nos interrogam graves pergun­tas plantadas na linha do horizonte, o Natal surge-nos como a revelação, a luz que ilumina o caminho, a resposta de todas as questões.
Se Cristo nasceu, viveu e veio a morrer por todos os homens; se veio pregar a fraternidade, o amor e a paz entre todos os homens, se veio garantir que são igualmente filhos de Deus todos os homens; tendo, cada um, a mesma implícita dignidade; se veio verberar os fariseus, que, por se julgarem melhores e su­periores, humilham e exploram os seus irmãos; se a legenda do Natal é uma lição de humildade e se a mensagem de Cristo é de esperança, devemos nós ter fé em que o futuro justificará a nossa esperança desde que saibamos construir esse futuro sobre uma autêntica fraternidade e paz, não só com a ordem mas principalmente com a justiça, reconhecendo em cada ser humano um igual nosso, com as mesmas intrínsecas exigências e os mesmos naturais direitos.
Se, em resumo, conseguirmos que, sempre, cada Natal que passa venha a ser o Natal de todos nós.

Ano IV – No. 101 – 21 de Dezembro de 1963 – Página 3

domingo, 13 de outubro de 2013

O "Caso Tembe"



O suspeito Tembe estava para ser extraditado para a Suazilândia pelo governo português, indo contra a própria legislação de então. Após o GL escrever no seu estilo irônico e contundente a crônica que segue abaixo, as autoridades portuguesas em solo moçambicano mudaram de imediato o discurso e passaram a negar que o Tembe seria extraditado.
O falecido advogado Adrião Rodrigues conta-nos esta passagem no seu blogue "gaudium et spes" no texto intitulado "História do Zeca Russo ou o assassinato de um chefe de polícia" que transcreverei logo após a crônica. Percebe-se um equivoco do Adrião Rodrigues quando fala em ter sido o texto escrito na Tribuna, pois acabei por a identificar no Número 101 da Voz de Moçambique, mas este não prejudica em nada o relato da história de um dos grandes chapas do GL.
Segue então o que interessa!

EDITORIAL

O "CASO - TEMBE"
Ocupou-se o Imprensa diária, largamente, do caso de um tal Fernando Tembe, português, natural de Moçambique, que tendo cometido crime de assassínio na Suazilândia e ali sendo condenado à morte, con­seguiu evadir-se para a sua terra e aqui veio a ser preso, como autor de avultado roubo, no concelho da Matola.
Está, agora, o réu de tão graves acusações sob a alçada das nossas leis, isto é, submetido à Justiça da sua pátria e pode, assim, afirmar-se que Fernando Tembe tem, desta feita, a melhor oportunidade possível de conhecer inteiramente as vantagens de ser português.
De facto, ao atravessar a linha de fronteira entre o país onde estava prestes a ser morto por ter matado e a terra em que viera à luz do mundo e vivera os seus primeiros anos ainda inocentes, o assassino e ladrão transferiu-se do âmbito duma Lei, que reco­nhece ao homem o direito de matar o homem como castigo, considerando o criminoso um elemento deletério  irrecuperável, que é necessário segregar definitivamente  para a luz duma outra Lei mais humana, que teima em ver no homem, por mais baixo que ele desça, um ser humano com um mínimo indestrutível de dignidade, com uma capacidade íntima de se redi­mir, punindo-o mas não o suprimindo, e ao puni-lo o faz sempre com a ressalva de o poder um dia rein­tegrar na sociedade de que presentemente é consi­derado inimigo.
O que vai, então, acontecer a Fernando Tembe? Vai, por certo, ser julgado na sua terra, pelas suas leis, usando, no Tribunal, de todas as garantias que essas mesmas leis lhe consignam; poderá ser conde­nado e, também, à pena máxima; dará, por isso, en­trada num estabelecimento prisional, para cumprir a sentença de viver sem liberdade entre duas e três dezenas de anos. Desde início, agindo sobre ele um moderno sistema jurídico-penal, passará imediata­mente a ser útil ao seu semelhante, pelo trabalho diário, de caracter agrícola ou industrial, ao mesmo tempo que se começa a processar a tarefa lenta da sua recuperação.
Quer dizer que Fernando Tembe, com tão grande dívida para a   humanidade, começará fogo o seu paga­mento, em vez de se transformar simplesmente em mais uma vida perdida, a somar às que ele ceifou. Por isso é que, humanissimamente, a Lei portuguesa não aplica a pena de morte. Porque se baseia na crença em que o homem pode sempre salvar-se e na certeza de que ele não tem direito sobre a vida humana.
Não acontecerá a Fernando Tembe aquilo que, por má informação, chegou a supor-se, isto é, a extra­dição para a Suazilândia, onde cumpriria a pena má­xima, na forca; Isso seria uma abdicação da nossa Justiça, uma subserviência das nossas autoridades e, finalmente, uma desumanidade nada portuguesa.
Se Fernando Tembe é de Moçambique será julgado em Moçambique; se é português, serão olhados os seus crimes à luz das leis portuguesas e, segundo elas, serão punidos.
Não tenhamos dúvidas de que assim vai acontecer.

Ano IV – No. 101 – 2 de Novembro de 1963 – Página 3


Abaixo, retalho do texto de Adrião Rodrigues de 16 de Fevereiro de 2007...

Nessa altura, o nosso grupo (eu, o Eugénio Lisboa, o Rui Knopfli, o Fernando Magalhães, o Zé Craveirinha e outros) colaborávamos ( à borla ), na TRIBUNA cuja redacção era chefiada pelo Gouveia Lemos, que, esse, não trabalhava à borla mas se via à nora para receber o vencimento. A Tribuna era o jornal da oposição, tanto quanto a censura deixava, e funcionava democraticamente. Assim, perante tal boato, o Gouveia Lemos ouviu-me primeiro, como jurista do grupo.Eu expliquei-lhe que essa coisa de entrega administrativa de presos policia a policia de países diferentes não existia no nosso direito e que a sua prática podia transformar a detenção pela policia moçambicana em sequestro, o que seria grave A única medida admissível era a extradição,naquele caso inaplicável, porquanto o Tembe era português e o crime porque seria julgado na África do Sul era punido com pena de morte,contrátia à ordem jurídica portuguesa o que impedia a extradição..Portanto o boato merecia uma notícia desenvolvida ou mesmo um artigo de fundo.O Gouveia Lemos decidiu ouvir ainda o grupo. Todos eramos contra a pena de morte, provavelmente o Tembe era um bandido mas como era português tinha o direito de ser julgado pelos tribunais portugueses não correndo o risco de ser sujeito à pena capital. Assim o Gouveia Lemos escreveria um artigo de fundo, cauteloso na formulação mas intransigente nos princípios. Isto foi deliberado unanimemente pelo grupo, incluído o Gouveia Lemos.. Este escreveu um dos artigos de fundo mais notável da literatura jornalística portuguesa, intitulado “A VANTAGEM DE SER PORTUGUES “, que devia ser dado nas universidades de jornalismo portuguesas.O governador de Moçambique lia com muita atenção a TRIBUNA.Se esta lhe tivesse mandado, como presente uma caixa de Champanhe, ele não ficaria mais contente. Pôs-se de imediato em acção, deu ordens terminantes à policia para nem pensarem em entregar o Tembe aos sul-africanos e fez um desmentido simpático à hipótese avançada pela TRIBUNA e assegurando que o “ português” Tembe não seria extraditado.Ora as policias moçambicana e sul-africanas fartaram-se de entregar prisioneiros uma à outra. Eu, alem dos de ouvir dizer, conheço dois casos concretos: um, o do Álvaro Simões, que depois de julgado por razões políticas e absolvido, em Joanesburgo, foi metido numa carrinha à saída do tribunal, pela policia sul-africana e trazido à força para Lourenço Marques e entregue à PJDE que o submeteu a novo julgamento ; outro foi o caso dos refugiados moçambicanos na SUÁZILANDIA( país independente), levados à falsa-fé por agentes sul-africanos para NELSPRUIT, já na República da África do Sul e daí entregues à PIDE em Lourenço Marques.Mas o governador tinha que dizer aquilo e nós queríamos safar o Tembe da hipótese da forca, pelo que não houve mais polémicas e ele foi julgado e condenado a um ror se anos de cadeia.De modo que em 25 de Abril e em 7 de Setembro de 1974 estavam ambos, Tembe e Zeca Russo, presos em Lourenço Marques.


domingo, 22 de setembro de 2013

Aeroporto Gago Coutinho

Aeroporto Gago Coutinho (fonte: "internet")

está uma idéia feliz, em inaugurar-se a nova es­tação aérea de Lourenco Marques no dia 17 de Ju­nho, comemorando-se a chegada ao Rio de Janeiro dum frágil hidravião mono-motor, sem rádio nem apoio marítimo, sem patrocínios poderosos nem publicidades sensacionalistas. Cha­mava-se o aparelho «Lusitânia», tripulavam - no um senhor piloto Sacadura Ca­bral e um senhor navega­dor Gago Coutinho, sendo que este último ia a expe­rimentar um sextante de sua invenção, com horizon­te artificial, que depois ha­via de ser usado por todos os navegantes.
Também foi uma idéia brilhante, essa de chamar ao nosso campo de avia­ção o Aeroporto Gago Cou­tinho, homenageando o marinheiro e o cientista, o in­cansável geógrafo que tan­to trabalhou em Moçambi­que e do seu trabalho dei­xou valiosos resultados ain­da bem patentes, como se verifica facilmente nos Ser­viços Geográficos e Cadas­trais, como confirmam, à uma, todos os topógrafos e agrimensores de Moçambi­que. Além disso, Gago Cou­tinho sempre ficou ligado a esta tetra pelo sentimento da saudade e a sua pele rugosa de velhinho nunca mais se libertou da lem­brança doce das brisas do Índico.
Vendo bem, Gago Coutinho foi, dos portugueses contemporâneos, a figura melhor representativa das mais positivas qualidades do espírito luso — já se pensou nisso?
Ele era destemido e sá­bio, trabalhador e genero­so, abnegado e tolerante, sedento de universo, famin­to de humanidade, realizando o mundo português num plano tão acima da política e dos negócios, que nunca se apercebeu, por exemplo, de que o Bra­sil era um país indepen­dente. Fronteiras, onde es­tavam elas?/ O Atlântico? ... Mas não era seu, o Atlântico? Não o galgara ele? Não o continuara a vencer, tantas e tantas ve­zes, por ar ou pela superfície, quase até morrer? A língua?... Mas era a mes­ma, senhores! Os amigos, os admiradores, os colegas, os discípulos? Ora, onde os teria ele mais numerosos? No Rio de Janeiro ou em Lisboa? Dir-se-á, em Lis­boa, que Gago Coutinho era muito lisboeta. Pode di­zer-se, no Rio, que era muito carioca. Então? Onde fica a pátria do Almirante?
Felicíssima idéia, essa de darem o nome de Gago Coutinho ao aeroporto de Lourenço Marques. Um  velhinho que ilustrou na Terra a promessa do Evange­lho: os últimos serão os primeiros e os primeiros serão  os  últimos. Morreu famoso e ficou célebre, ainda que vivesse humilhando-se e procurando apagar-se. Podia ter sido um dos notáveis da época, um pre­sidente do conselho de administração. um deputado ou coisa assim, podia ter sido, enfim, tanta coisa, e ficou só oficial de marinha reformado. Mas cidadão do mundo, é verdade: tran­seunte enternecido de ocea­nos; português com pureza, porque despido de idéias de domínio, lavado de di­videndos.
Ele encarnava, sem dúvida, o espirito lusitano. O autêntico. O que pode sub­sistir, porque transcende as contingências históricas.
Agora, que inauguraram a bela estação  aérea de Lourenço Marques  no dia em que passava o 41.0 aniversário   da   travessia do Atlântico  Sul  em  avião e que lhe deram o nome de Gago   Coutinho,  só falta uma coisa para completar a homenagem justa e, até,  o    conjunto arquitectónico da aerogare: a estátua do Almirante,   em   frente do edifício.  Estou  a lembrar-me dum enorme Leonardo da Vinci, que se ergue em frente do moderno aeropor­to de Fiumicino, em Roma. E, embora me tenha habituado a antipatizar com es­tátuas, bustos  e lápides, neste caso, sou pela está­tua.

[A Voz de Moçambique, Lourenço Marques, ano IV, nº 96, 29 de Junho de 1963, p. 12]