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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

0 NATAL DE TODOS NÓS


Hoje, dia 18 de Dezembro de 2013, Gouvêa Lemos faria 89 anos de idade. Sendo também tempos de Natal, reedito o editorial da Voz de Moçambique da semana de 21 de Dezembro de 1963, há exatos cinquenta anos atrás.
Um texto, intitulado de "O Natal de todos nós",  que demonstra a coragem daqueles que naqueles tempos escreviam  em meio e para uma sociedade onde uma grande parcela era o extrato de uma ditadura racista. Um texto limpo, sereno, mas que disfarçadamente - nem tanto - cutucava a ferida, fugindo ainda assim dos censuradores.



EDITORIAL

0 NATAL DE TODOS NÓS



        0 Natal é um facto histórico ocorrido há 1963 anos. De tal forma influenciou a vida humana esse nascimento dum Homem que se chamou Jesus Cristo e os cristãos acreditam ser filho de Deus e o próprio Deus humanizado, que esse acontecimento ocorrido em modesto estábulo, nos arredores duma cidade do Oriente Médio, se transformou não só em causa duma religião, em fonte duma doutrina, em origem dum novo ideário moral e social, mas em símbolo de todos os anseios da Humanidade, em degrau da sua esca­lada para a perfeição, em bandeira do seu progresso — mesmo para os não-cristãos.
Isso tudo se resume e se comprova no facto de o Dia de Natal ser considerado, no mundo inteiro, o Dia da Fraternidade Universal. O Natal faz os ho­mens irmãos.
Param as guerras, guardam-se as armas, esque­cem-se os ódios, porque é Natal; suspende-se a cor­rida que leva a nenhures, no combate sem pausa por ser mais rico havendo mais pobres, para um gesto de generosidade, porque é Natal; recolhe-se a casa, re­encontra-se a família, identifica-se cada um com o ambiente que o cerca vivendo-o intensamente, porque é Natal.
E isto acontece, independentemente de se acre­ditar ou não em que Jesus Cristo era Deus; só porque ele foi um Homem que morreu pelos outros homens; só porque ele é o Herói dos heróis que se sacrificam no altar da redenção dos homens.
Ora, em mais este Natal vivido em Moçambique, precisamente quando nos interrogam graves pergun­tas plantadas na linha do horizonte, o Natal surge-nos como a revelação, a luz que ilumina o caminho, a resposta de todas as questões.
Se Cristo nasceu, viveu e veio a morrer por todos os homens; se veio pregar a fraternidade, o amor e a paz entre todos os homens, se veio garantir que são igualmente filhos de Deus todos os homens; tendo, cada um, a mesma implícita dignidade; se veio verberar os fariseus, que, por se julgarem melhores e su­periores, humilham e exploram os seus irmãos; se a legenda do Natal é uma lição de humildade e se a mensagem de Cristo é de esperança, devemos nós ter fé em que o futuro justificará a nossa esperança desde que saibamos construir esse futuro sobre uma autêntica fraternidade e paz, não só com a ordem mas principalmente com a justiça, reconhecendo em cada ser humano um igual nosso, com as mesmas intrínsecas exigências e os mesmos naturais direitos.
Se, em resumo, conseguirmos que, sempre, cada Natal que passa venha a ser o Natal de todos nós.

Ano IV – No. 101 – 21 de Dezembro de 1963 – Página 3

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