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domingo, 4 de agosto de 2013

A carta que nunca chegou...

António Trindade Martins, em meados de Setembro de 1967, aos 20 anos de idade, partiu de Moçambique com destino a Lisboa para depois ir para a França frequentar um curso de jornalismo.
Na sua ficha da PIDE, em 17/09/1968, já estava registrado que “Consta que tem ideias políticas comunistas, suspeitando-se que pretende ir para a Hungria, a fim de ali continuar o curso de jornalista."
Em 18/10/68 a correspondência enviada por António Martins a Gouvêa Lemos já era escrita a partir de Budapest. Mais tarde, em 1970 aos 23 anos de idade, já na Suécia acaba por conseguir exilio politico, após ameaças de expulsão deste país, através de apoios de organizações como a Amnistia Internacional.
O mesmo havia se ausentado do território português sem servir o exército, sendo dado pelo governo português como desertor.
Em Novembro de 1968 o Ministério do Exército já havia formalizado pelo ofício 1782/SC a solicitação para a captura do mesmo, que foi acatada pela PIDE através da O.S. 325/68.
As correspondências enviadas a Moçambique aos seus familiares e amigos, como Gouvêa Lemos, como o inverso, eram capturadas pela PIDE. Nessa ocasião, por uma destas correspondências, a PIDE na Beira abriu um novo processo de investigação aparecendo o Jornalista junto ao “opositor” e seus familiares como fichados.
Abaixo transcrevo uma das suas cartas que nunca chegou ao GL. Palavras que ao mesmo tempo passavam otimismo em relação ao seu futuro, passavam também as saudades de amigos e familiares.
Desta história podemos retalhar um monte de experiências e percepções, mas a maior delas, me parece, é o reforço de que um estado ditatorial e/ou ambientes de guerra induz o jovem a amadurecer precocemente.


Transcrição da carta...

Budapest, 18 /10/1968.
Caríssimo Gouvêa Lemos,
Após cerca de um ano de silêncio - e depois de ter recebido a sua carta (perdoe-me!) volto a escrever-lhe duas linhas, desta vez não de Paris, mas de Budapest, via Paris, para lhe enviar o meu grande abraço.

Estou aqui há cerca de duas semanas. Havia-me candidatado a uma bolsa de estudo para Economia Política em Paris e concederam-me.
Tive hoje a minha 3ª. aula de húngaro. Note-se que chamo aula a um dia de aulas que compreende entre a 6 e 7 horas !
O 1º. ano é, pois, carregado à aprendizagem da língua. Depois, será mais 4 anos para o curso. Portugueses somos 5 + 1 moça.  Há ainda angolanos (9 a 10), moçambicanos (6 a 7) e guineenses (9 a 11). Estão em regra geral cursando especialidades técnicas. Cada um deles receberá no fim do curso uma preparação militar. Quanto a nós, portugueses, a nossa valorização é puramente cultural. Estou imensamente satisfeito porque consegui, enfim, a minha chance de fazer algo por mim para que porem depois fazer melhor pelos outros.
Estou-lhe a escrever de um cafezinho muito discreto que fica a 10 minutos do meu colégio. Terminei as aulas, ??????? e estou à espera da minha “professora”. O húngaro é extremamente fechado mas eu ao fim de uma semana encontrei uma professora muito competente...
Gostaria imenso de saber algo sobre si, sobre toda essa gente, sobre o nosso jornal ! Há muito que ninguém me escreve daí! Da minha família há muito que também não sei de nada! Escreva-me, pois, por 2 ou 3 linhas que sejam, para a direção do meu tio em Paris. Ele tem instruções sobre correspondência com território português.
Receba pois um abraço trans-continental, trans-cortina-de-ferro, trans-oceânico do amigo que não se esquece de si.
                                  Sinceramente,
                                  Assinado....

P.S.: A sua operação, como correu? A D. Madalena como está? Os mais pequenos? Um abraço a todos, bem como à gente do N. B. e de uma maneira geral a todos os contatos da Informação.

Um comentário:

  1. Realmente foram poucos que lograram a fuga de uma guerra sem nexo, tanto do ponto de vista moral como militar. Que viria a consumir milhões dos cofres públicos da "metrópole", enchidos com os impostos do povo que pagaria também nos anos seguintes com milhares de vidas. Sem falar nos que em tão tenros anos de vida passaram a enfrentar uma vida como deficientes físicos ou com traumas de guerra, nunca devidamente indenizados.
    Antonio Trindade Martins teve naquela altura a coragem de assumir o seu ideal, pagando o alto preço do exílio. Perseguido e longe da família e terra que amava.
    A carta dele que nunca chegou, colocou o jornalista na mira da PIDE, mas sei que se ele mantinha o contato com um perseguido e exilado, e visitava o amigo Craveirinha na prisão, é porque tinha a consciência do absurdo que política colonial representava, e não via porquê de se esconder.
    Gostaria de saber do que foi feito do jovem de então que, que numa tarde num outono húngaro, resolveu escrever para o nosso pai.
    António Maria

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